O que é Kwanzaa. E como essa festa afro-americana é comemorada

Autor: Laura Capelhuchnik Data da postagem: 15:00 25/12/2018 Visualizacões: 1502
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Kinara, o candelabro de Sete Velas usada em Kwanzaa e a lista de princípios da festa / Foto: Reprodução - Nexo Jornal

Celebração criada nos anos 1960 nos Estados Unidos resgata vínculo entre comunidades da diáspora africana e suas origens

Na agenda das festividades de fim de ano, destaca-se uma celebração que tem início no dia 26 de dezembro e só termina no primeiro dia do ano seguinte: a Kwanzaa.

Ao longo de uma semana, descendentes de países africanos se reúnem, principalmente nos Estados Unidos, para celebrar a cultura ancestral e discutir princípios como a união, o trabalho coletivo e a fé. Fazem refeições conjuntas, há danças e músicas africanas, trocas de presentes e uma cerimônia de velas.

A festa é baseada em tradições pré-coloniais de países como Egito e Etiópia, em especial associadas à colheita. Ela propõe uma recriação do vínculo entre as comunidades da diáspora africana e suas raízes. O nome Kwanzaa vem de “matunda ya kwanza”, que significa “primeiros frutos” em suaíli, língua falada por 50 milhões de pessoas no mundo.

No dia 26 de dezembro de 2017, o presidente norte-americano Donald Trump emitiu um comunicado oficial celebrando o início do festa. E o Google tem feito nesta semana a contagem das velas virtualmente (para acompanhar, basta pesquisar “Kwanzaa”), assim como fez com a festa judaica de Chanuká (lê-se “rá-nu-cá”).

Nos EUA, onde foi criada, a Kwanzaa foi bastante popular nas décadas de 1980 e 1990, com respaldo da mídia e do comércio norte-americano, onde eram facilmente encontrados cartões e objetos comemorativos. A canção “Happy Kwanzaa”, do cantor de soul Teddy Pendergrass, é um registro desse período. Ela faz parte do álbum “This Christmas I’d Rather Have Love”, de 1998.

Junto com Natal e o Chanuká, a Kwanzaa compunha a tríade dos feriados mais populares de fim de ano, embora não tenha nenhuma orientação religiosa específica. Há muitas famílias que celebram tanto os sete dias da Kwanzaa como outros eventos religiosos.

Recentemente, o número de participantes da Kwanzaa diminuiu nos Estados Unidos. Em entrevista à NPR (rádio pública americana) em 2012, o professor da Universidade Duke Mark Anthony Neal mencionou uma pesquisa que mostra que 2% dos norte-americanos afirmam celebrar a data. Ainda assim, o país é o lugar onde mais se comemora a festa, que foi difundida para outros lugares da diáspora africana, como Caribe, Colômbia e Brasil.

Qual a origem da Kwanzaa

A festa foi criada em 1966 por Maulana Karenga, ativista e professor de estudos pan-africanos na Universidade da Califórnia. Ele queria resgatar aspectos de uma identidade cultural fragmentada, em um contexto de luta dos negros por igualdade de direitos nos Estados Unidos.

“A Kwanzaa é uma celebração pan-africana, ou seja, busca reunir elementos das manifestações africanas que foram espalhados, tanto no continente quanto na diáspora, e celebrar princípios como unidade, economia cooperativa e fé”, disse ao Nexo Paulo Rogério Nunes, cofundador da aceleradora Vale do Dendê e do Instituto Mídia Étnica.

O pan-africanismo é um movimento que defende a união de descendentes de países africanos, que possuem herança e interesses em comum, na defesa dos direitos dos negros e valorização de sua coletividade étnico-racial. As primeiras ideias começaram a circular em meados do século 19, nos Estados Unidos. Na década de 1960, foram amplificadas por meio de estudiosos e ativistas norte-americanos, como Edward Burghardt Du Bois e Marcus Garvey.

Como a Kwanzaa é celebrada

Um conjunto de sete princípios funda a Kwanzaa e rege as práticas da celebração. Cada dia de festa é dedicado a um deles:

1 Umoja (união)

2 Kujichagulia (autodeterminação)

3 Ujima (trabalho coletivo e responsabilidade)

4 Ujamaa (economia cooperativa)

5 Nia (propósito)

6 Kuumba (criatividade)

7 Imani (fé)

Na produção da festa, um dos elementos mais importantes é a kinara, candelabro de sete velas. Elas vêm nas cores verde, preta e vermelha, que simbolizam a memória da luta pan-africanista. Diariamente, ao longo da semana, uma vela é acesa, para lembrar e discutir cada um dos sete princípios.

No último dia, que coincide com o primeiro do ano novo, é comum que as crianças na Kwanzaa recebam presentes, geralmente livros ou objetos confeccionados à mão. A ideia é que a prática seja vinculada à dimensão educativa da festa e à memória, resgate e celebração da cultura

Como é a Kwanzaa no Brasil hoje

A Kwanzaa ainda é um movimento incipiente no contexto brasileiro, mas tem ganhado cada vez mais participantes. Para Paulo Rogério Nunes, o aumento recente da adesão brasileira à festa está relacionado à facilidade de divulgação do conteúdo na internet, a lideranças que começam a trazer com mais força a Kwanzaa para suas comunidades e ao aumento da participação da população negra na vida política e econômica do país. “[Essas novas condições] fazem com que a comunidade comece a buscar elementos de coesão, e a Kwanzaa simboliza esse momento”, explica.

“Por aqui a Kwanzaa ainda não é um movimento de massas, mas a tendência é que cresça no país nos próximos anos”

- Paulo Rogério Nunes Cofundador da aceleradora Vale do Dendê e do Instituto Mídia Étnica

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: