Conheça Maxwell Alexandre, pintor inspirado pelo rap e autor da capa do disco do BK'

Autor: Amanda Cavalcanti Data da postagem: 17:00 02/11/2018 Visualizacões: 3605
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Pintura de Maxwell feita para 'Gigantes', álbum do BK', e retrato do artista / Foto: Facebook - Reprodução - Amanda Cavalcanti

Natural da Rocinha, o artista fala sobre como se inspira na poesia negra e discute o racismo no mercado da arte.

A obra Éramos as cinzas, agora somos o fogo está bem na porta da exposição Histórias Afro-Atlânticas, em exibição no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Cobrindo quase uma parede inteira com diversas figuras facilmente reconhecíveis da cultura pop — uma foto famosa de Nina Simone, James Brown cantando para seu público e Jean-Michel Basquiat sentado sobre seus desenhos —, a pintura é uma celebração do sucesso e empoderamento negro, entre diplomas e carros de polícia capotados, pintada sobre o papel pardo.

A obra é parte da série Pardo é Papel, uma espécie de ironia com o fato do termo “pardo” ter sido usado para velar a negritude durante décadas no Brasil, idealizada pelo artista carioca Maxwell Alexandre. Maxwell é um morador da favela da Rocinha e pinta desde seus 22 anos, primeiro somente trabalhos abstratos e, mais pra frente, obras figurativas quando começou a sentir-se inspirado pela poesia de rappers como Baco Exu do Blues, Djonga e BK'.

A inspiração foi tamanha que começou a funcionar em duas vias: durante o processo de composição de Gigantes, disco do BK' lançado nessa quarta (31), o rapper e o artista trabalharam lado a lado em suas obras. Maxwell também é o responsável pela capa do single “Correria” e do álbum em si. Em entrevista, o artista me contou mais sobre como funcionou esse processo de inspiração mútua e fala da fetichização de sua trajetória e política no mercado branco e elitista das artes plásticas.

VICE: Quando você estava crescendo, o que te levou gostar de arte e, depois, a começar a pintar?

Maxwell Alexandre: Minha mãe falava que Deus me deu o dom do desenho. Eu gastei grande parte da minha infância desenhando e assistindo séries na televisão: Dragon BallPokémonYu Yu Hakusho e vários filmes clássicos da Disney, Rei LeãoA Bela e a Fera e por aí vai… Meu sonho era trabalhar com Maurício de Souza, eu fazia paródias de quadrinhos da Turma da Mônica para vender no colégio, era muito fã mesmo. Mas só fui conhecer arte contemporânea e pintura mesmo aos 22 anos de idade, em uma matéria de plástica no terceiro período da faculdade, com o artista/pintor Eduardo Berliner.

De que maneira você procura representar a subjetividade negra no seu trabalho?

Eu sempre fui muito forte, desde pequeno minha autoestima era muito elevada. Mas lembro que algumas coisas me intrigavam, como o fato de eu não poder ter Danone e Toddynho a hora que eu quisesse. Eu achava muito louco não poder comer as melhores coisas. Quando ia na casa de uma patroa da minha mãe e via a geladeira cheia, eu ficava pensando nessa realidade. Então, quando eu uso as marcas do Danone e Toddynho e seus respectivos mascotes em minhas pinturas, eu tenho a chance de construir novas narrativas, e até mesmo questionar os valores dessas entidades que são as marcas.

Essa influência do rap na sua obra sempre esteve presente? Como ela se desenvolveu?

É muito recente essa influência, até porque este corpo de trabalho de pinturas figurativas também é recente. Depois de pirar no MC Marechal, eu conheci Filipe Ret e foi uma chave importante pra mim porque consegui fechar várias lacunas de anos de reflexão a partir de sua obra. Eu tava estudando muito filosofia na faculdade e encontrei no Ret as coisas que aprendi em Platão, Kant, Sócrates, Aristóteles, Heidegger, Nietzsche… Depois, esbarrei numa música do Froid e me liguei na hora que uma nova cena estava sendo aquecida no rap. Depois veio Djonga, Baco Exu do Blues e BK', e eu fiquei viciado em rap nacional graças a esses caras.

Eu fiquei tão instigado com a qualidade da música dos manos que eu passei a ouvir os versos e enxergar imagens. Estava iniciando a série Pardo é Papel, e esses caras estavam cantando tudo que eu tinha na cabeça. Então, eu separei versos desses rappers para traduzir com pinturas. Penso que o mais relevante disso tudo é poder afirmar que minha produção é pautada por poetas negros que tem vivências congruentes à minha. Isso é forte e uma quebra de paradigmas dentro da história da arte, uma vez que os artistas se alimentam majoritariamente de uma poesia branca e europeia pra produzir.

Como você conheceu o BK'? E como rolou de fazer a capa para Gigantes?

Tenho vários amigos em comum com o Abebe, era mesmo questão de tempo a gente esbarrar. Eu tinha vários versos dele pintados que circularam por aí, o MASP acabou de adquirir “Éramos as cinzas e agora somos o fogo”, verso da faixa “Quadros”. Essa pintura esteve exposta duas vezes aqui no Rio antes de ir pra uma coleção particular. Em uma dessas ocasiões, a artista Pamela Castro viu a pintura e avisou o BK'. Pouco depois ela me mandou um áudio dele falando que tinha ficado arrepiado. Ele colou aqui na Rocinha pra conhecer meu Templo (ateliê), ficamos horas trocando ideia aqui em casa.

Eu passei a visitar o estúdio pra ver ele gravar enquanto ele vinha mais vezes no Templo. Estávamos tentando nos alimentar mutuamente, um do processo do outro. Meu envolvimento em “Correria” começou com um convite de atuação, e quando fomos ver eu já estava envolvido em todo o aspecto visual do álbum – desde as cenas do clipe, que são inspiradas em Reprovados e Pardo é Papel, até as capas. Foi tudo muito fluido, eu trabalhava para minha primeira exposição individual enquanto ele produzia o disco novo. A abertura de minha mostra solo foi a primeira aparição pública dessa transa.

Como você acha que o rap auxilia numa construção de identidade negra no Brasil? Acha que as artes visuais também poderiam ter uma importância parecida?

Esse auxílio se dá pelo alcance que o rap tem nas periferias, também pelos trejeitos dos próprios rappers ao atuar enquanto cantam. Isso é importante porque afirma uma cultura marginalizada no jeito de falar, de ser portar e até mesmo de se vestir. O negro passa a se entender como negro neste cenário – mais do que isso, sentir orgulho de ser negro. Quando você vê o BK' bem vestido, o Djonga dirigindo, o Baco na TV, os shows lotado e geral querendo ser esses caras, você percebe que as referências foram renovadas.

Mas tem uma chave importante aí que é: não é apenas sobre dinheiro, é sobre poder. Sendo assim, não podemos ter essa afirmação de construção de identidade a partir da arte contemporânea, porque os códigos desse campo foram sequestrados pela elite. Arte contemporânea não foi feita pra gente. Os crias daqui não se importam, não querem nem saber se eu vou expôr no MASP, eles não vão estar lá. Não importa se eu pinto na Rocinha, eles só vão ter curiosidade de entrar no meu estúdio e saber sobre minha prática quando saírem as cifras no jornal.

“Arte contemporânea não foi feita pra gente.”

Apreciar arte é uma maneira de se diferenciar socialmente, até mesmo para os ricos. Quando todo mundo tem helicóptero e iate, o que faz um ser mais intelectual ou sofisticado que o outro é a coleção, é quem tem Picasso, quem entende Rothko. Esse foi o papo que dei pro BK' e pro Djonga. Vocês tão falando de pretos no topo, né? Então vocês precisam olhar pra esse lugar aqui. Esse lugar é justamente a área que temos que atentar e reivindicar, porque foi construída simplesmente pra gente não enxergar.

Eu posso pintar todos os dias sobre a favela e a vivência daqui, mas no dia da vernissage e do coquetel a audiência vai ser branca. Isso é perturbador, você olha pro lado e os negros que tem estão inviabilizados, faxinando e servindo, enquanto geral tá sorrindo e te parabenizando pelo quadro onde o negro esta representado bidimensionalmente, chapado. Ali a figura não fala, não reivindica, não problematiza, ela vira um pedaço de uma realidade retratada apenas. Ter um quadro na sala é mais fácil, e parece ser o suficiente para não precisar conviver com a realidade.

Como um jovem negro, você acha que enfrentou (ou enfrenta ainda) resistência para entrar no mercado de arte tradicional?

Enfrentei e ainda vou enfrentar. Por que você acaba virando uma caricatura, atende a todos os fetiches, contempla todos os estereótipos de um artista negro que está ascendendo. Ainda mais com minha biografia, vindo daqui da Rocinha. O mundo do politicamente correto, dos debates e tomada de consciência das minorias, também já foi fagocitada pelo mercado.

Eu venho da pintura abstrata, tenho uma quantidade imensa de trabalhos antes de começar a pintar Reprovados e Pardo é Papel. Essas duas séries é que me lançaram, pois são sobre a política do corpo negro, entende? E é majoritariamente assim, o espaço do negro é mais certo quando é biográfico e político. Mesmo a arte sendo um dos campos mais canonizados e propícios para falar do sublime, do vazio, do nada, ela nega esse espaço pro negro.

“Me dei conta do ato político e conceitual que eu estava articulando: pintar corpos negros sobre papel pardo, uma vez que a cor parda foi usada durante muito tempo para velar a negritude.”

Como começou a série "Pardo é Papel", e o que você queria passar com ela?

Em maio do ano passado. Em algum dia desses de ateliê que você vai sem saber muito bem o que fazer, eu pintei três autorretratos em folhas de papéis pardos que estavam perdidas por ali. Somente quando fui fazer a quarta pintura me dei conta do ato político e conceitual que eu estava articulando: pintar corpos negros sobre papel pardo, uma vez que a a cor parda foi usada durante muito tempo para velar a negritude.

Nos dias de hoje, os negros passaram a exercer sua voz, a se entender e se orgulhar como negros. Esse fenômeno é tão forte e relevante que o conceito de pardo hoje ganhou uma sonoridade pejorativa dentro dos coletivos negros. Dizer a um negro hoje que ele é moreno ou pardo pode ser um grande problema. Afinal, “Pardo é Papel”.

Como aconteceu o convite para expôr na exposição Histórias Afro-Atlânticas, no MASP?

Pelo que sei, Pablo Leon de La Barra (curador do Solomon R. Guggenheim Museum e do MAC Niterói) tinha conhecido meu trabalho e notificou Adriano Pedrosa (curador e diretor do MASP). Adriano veio pessoalmente em meu Templo aqui na Rocinha para ver minhas pinturas e fazer o convite.

Pra você, qual a importância de que temas contemporâneos como esse estejam presentes em espaços como o MASP?

Representatividade e poder. Criar espaços dentro dessas estruturas para que possamos, nós mesmos, negros, escrevemos nossas histórias. Fé da Noiva!

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