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Marcha das Mulheres Negras: Um novo momento político de uma luta histórica

Autor: Giselle dos Anjos Santos Data da postagem: 13:20 01/12/2015 Visualizacões: 2187
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No dia 18 de novembro, na semana da Consciência Negra, 50 mil mulheres negras de todo o Brasil marcharam até Brasília. Esse evento representou um momento ímpar na história da sociedade brasileira.

A mobilização que culminou na primeira Marcha de Mulheres Negras do país, representa tanto a continuidade de uma luta histórica, como marca o início de uma nova fase dessa resistência ancestral e da organização política das mulheres negras no Brasil.

Esta luta é histórica, pois o movimento de mulheres negras existe desde que a primeira mulher africana chegou neste território (que ainda nem era chamado de Brasil) e se rebelou contra a violência da escravidão. Essas práticas de insurgência tiveram sequência durante todo o contexto colonial-escravista e após a abolição. A movimentação política empreendida pelas mulheres negras, ainda que seja considerada pontual e isolada, garantiu a sobrevivência do grupo e de sua comunidade, e mais que isso: permitiu também a preservação de práticas culturais, simbólicas e religiosas, fundamentais para a reconstrução da identidade da população negra no Brasil.

A partir, especialmente da década de 1980, essas movimentações políticas aparentemente isoladas ganharam um novo caráter, a partir da criação de inúmeras organizações de mulheres negras. Esses coletivos passaram a denunciar a intersecção dos sistemas de opressão de gênero, classe e raça, além de atuar em prol da construção de uma sociedade efetivamente equitativa.

A Marcha das Mulheres Negras 2015 foi construída sobre as bases da resistência ancestral e das mobilizações mais recentes empreendidas pelas organizações de mulheres negras, criadas nas últimas décadas. A luta sempre se renova e se fortalece com a participação das novas gerações de mulheres negras, que não deixam de resistir.

Foto do Comitê da Marcha das Mulheres da Zona Leste de SP.

Essa luta, porém, nunca deixou de ser árdua. Mesmo com a grande expressividade numérica – atualmente, as mulheres negras representam 49 milhões, o equivalente a 25,5% do total da população brasileira – o grupo ocupa a base da pirâmide social, com os piores índices de acesso a direitos básicos, como: emprego, média salarial, acesso à saúde e a educação, etc. Tal posição confere às mulheres negras uma condição de extrema vulnerabilidade social, evidenciada de forma gritante nos altíssimos índices de mortalidade. Dados do Mapa da Violência 2015, realizado pela CLACSO, demonstram que nos últimos dez anos o número de mulheres brancas assassinadas caiu em 9,8%, mas o índice de mulheres negras vítimas do feminicídio apresentou um forte crescimento de 54,2%.

 Estes números dão uma pequena amostra da seriedade das reinvindicações levadas pelas 50 mil mulheres negras que invadiram Brasília neste 18 de novembro, que já se tornou um dia histórico. Estas mulheres negras se deslocaram de todos os estados do país para marchar na capital federal contra o racismo, a violência e pelo bem viver, e assim demonstraram que a dívida histórica que a sociedade brasileira tem para com a população negra precisa ser reparada imediatamente.

O início dessa nova fase da resistência ancestral e da atuação política das mulheres negras no Brasil partiu da articulação estratégica das inúmeras organizações de mulheres negras, junto com integrantes autônomas, para a construção de uma ação conjunta como a Marcha, advertindo que o silenciamento e a invisibilidade histórica imposta a elas foi desafiada e rompida. Isto evidencia a configuração de uma renovação na luta histórica das mulheres negras deste país, onde não será mais possível ignorar as vozes e as reivindicações desse contingente expressivo da população.

As inúmeras demandas do grupo foram elencadas na Carta da Marcha das Mulheres Negras, entregue por representantes do movimento na reunião com a Presidenta Dilma Rousseff, após a Marcha. Esse documento traz reivindicações políticas amplas que estão divididas em dez tópicos primordiais: Direito à vida e a liberdade; Promoção da igualdade racial; Direito ao trabalho, ao emprego e à proteção das trabalhadoras negras em todas as atividades; Direito à terra, território e moradia/direito à cidade; Justiça ambiental, defesa dos bens comuns e à não mercantilização da vida; Direito à seguridade social (saúde, assistência social e previdência social); Direito à educação; Direito à justiça; Direito à cultura, informação e à comunidade, e a Segurança pública.

A presidenta Dilma Rousseff afirmou: “Temos a responsabilidade de aperfeiçoar nossas políticas de promoção da igualdade racial, contra violência e pela valorização da mulher”. Ousaria dizer que mais do que o aperfeiçoamento das políticas sociais já existentes, o governo, tal como a sociedade brasileira de modo geral, precisa resignificar o modo como se observou e tratou as mulheres negras historicamente. Pois, o grupo se mostra cada vez mais articulado, atuando enquanto uma potência política organizada e florescente. 

Neste sentido, vale ressaltar que, tão importante quanto a realização da Marcha em si, foi o processo de mobilização e articulação que a antecedeu. Com a realização de seminários, oficinas, rodas de conversas, palestras, entre outras iniciativas que tiveram como objetivo divulgar e aglutinar o maior número de participantes, além de formar e fortalecer as mulheres negras que encontraram nesses eventos, espaços para discutir as suas demandas políticas específicas, resignificar sua identidade, constituindo também importantes laços de solidariedade.

E com certeza não será possível retroceder nenhum passo nesse processo de empoderamento que atingiu milhares de mulheres negras deste país durante a construção da articulação e mobilização para a Marcha, assim como na sua culminância. Portanto, as organizações de mulheres negras brasileiras vão seguir em marcha nessa luta até o dia em que todas as mulheres negras desse país estiverem efetivamente livres e puderem viver em plenitude, sem que as opressões de gênero, classe e raça tangenciem e determinem as suas vidas. Até porque, a primeira Marcha das Mulheres Negras foi um ato histórico, representando um passo importante neste caminho, para a garantia do bem viver.  

* Giselle dos Anjos Santos  - Consultora do CEERT, Historiadora e Mestra em Relações de Gênero e Teoria Feminista 

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