Atlas da Violência confirma desprezo pela juventude negra, por Mário Lima Jr.

Autor: Mario Lima Jr Data da postagem: 15:00 19/06/2017 Visualizacões: 129
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Foto: Rreprodução GGN - O Jornal de Todos os Brasis

De acordo com o Atlas da Violência 2017, publicado semana passada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 588.579 pessoas foram assassinadas no Brasil de 2005 a 2015. Mais da metade eram jovens e 71%, negras. Para alguns, os números são desesperadores. Parte importante da população vê o jovem negro e pobre como bandido e não se sente tão abalada

A indiferença, que flui dos quatro cantos do Brasil e se aglutina aos Três Poderes em Brasília, viabiliza um genocídio: em apenas três semanas o total de assassinatos no país supera a quantidade de pessoas mortas em todos os ataques terroristas no mundo nos cinco primeiros meses de 2017. Desenvolvido em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o estudo confirma o perfil das vítimas, nosso velho conhecido: jovens com idade entre 15 e 29 anos, negros e com baixa escolaridade.

Daniel Cerqueira, pesquisador do IPEA, disse em entrevista que "sabemos onde o problema está localizado, quando acontece, de que forma acontece, quem são as vítimas e no entanto não se faz nada". Em uma década a taxa de homicídios por 100 mil habitantes aumentou 10,6%. Em 2015 foram assassinados 59.080 brasileiros. São números equivalentes a situações de guerra.

Enquanto a taxa de homicídios de negros aumentou, a taxa de homicídios de brancos, amarelos e indígenas diminuiu: as taxas atuais são 37,7 e 15,3, respectivamente. Mata-se mais negros hoje do que em 2005, levando em consideração a quantidade de habitantes. É uma tragédia sem debates profundos, exceto entre os defensores dos direitos humanos (algo incômodo de escrever porque todos os seres humanos deveriam ser defensores dos próprios direitos).

A principal causa da morte de jovens em 2015 foi assassinato. Eles são perdidos nas escolas para a criminalidade, na opinião de Ilona Szabó, especialista em segurança pública. No Estado do Rio de Janeiro, o nome de facções criminosas escrito nas salas de aula ocupa a mesma parede dos quadros negros. Não há prevenção. O número de mortos cresce de acordo com o desprezo pelos vivos.

Domina uma parcela da opinião pública a crença que os jovens não estudam porque não querem. Que os esforçados, apesar das dificuldades, conquistarão um emprego e terão uma vida honesta. Fecham os olhos para a profunda desigualdade nacional e para o exemplo de diversos países do mundo que reduziram índices de violência com igualdade social.

Ignorando profundamente as raízes e a formação do povo, no lugar de crianças de rua muitos brasileiros veem moleques demoníacos que roubam em bando por prazer e maldade. Não desejam, agora, uma sociedade igualitária, preferem a limpeza social. Por preconceito, temor e ânsia de vingança, transformam vítimas em algozes e inimigos.

O Brasil concentra mais de 10% dos homicídios do mundo inteiro. Um problema mal combatido, inclusive por falta de representação política das principais vítimas no Congresso Nacional. Um problema longe de ser resolvido através de mais armas nas ruas ou redução da maioridade penal.

Os assassinatos aumentaram, já temos a quarta maior população carcerária do mundo (composta majoritariamente por negros!) e não vemos um país melhor. A solução não é simples, mas, se negros possuem chances maiores de serem assassinados do que brasileiros de outras raças, ela requer o reconhecimento humilde e atencioso da seletividade da opressão.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: