Símbolo de resistência: fogo olímpico vai ao Quilombo dos Palmares

Autor: Por Victor Mélo, Viviane Leão e Estéfane Padilha Data da postagem: 15:30 16/06/2016 Visualizacões: 650
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Na Serra da Barriga, tocha olímpica é exposta ao lado da estátua de Zumbi (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Com a bênção dos orixás, revezamento da tocha passa em Alagoas pela Serra da Barriga, local que marca a luta dos negros por liberdade e igualdade racial no país

O desfecho do revezamento da tocha olímpica em Alagoas não poderia ter sido em lugar mais especial. O esporte e a consciência negra sempre andaram juntos. Ajudaram a modificar a sociedade, a derrubar muros. Jesse Owens e Muhammad Ali, heróis das Olimpíadas, marcaram o nome na história por ações pela igualdade racial e também pelos feitos no atletismo e no boxe. O Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, em União, marcou a resistência de Zumbi e a luta por liberdade no Brasil. 

O fogo olímpico e a história do quilombo se encontraram na manhã desta segunda. Pela celebração, até a chuva, que acompanhou quase todo o revezamento, deu uma trégua em Alagoas. O caminho de carro era sinuoso, em estrada de barro, e, para diminuir as dificuldades, a chegada da chama foi pelo alto, de helicóptero.

História: ocas no quilombo (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Na entrada, capoeira, cantos e batuques africanos e um cenário que tinha vestígios do ponto de resistência dos negros entre o fim do século XVI e metade do XVII. Algumas ocas davam informações sobre o quilombo, além de guardar espaço para dança e uma casa de farinha. Em meio a tudo, mirantes abriam uma paisagem que, por si só, fazia a subida valer a pena. Ainda tinha a história do lugar.

Professor de matemática, Francisco Viana conduziu a tocha ao lado de representantes das religiões africanas, Pai Célio (Baba Omitologi), Mãe Neide (Oya D'oxum) e Mãe Miriam (Labinã). Para ele, o momento durou mais tempo que as convenções do relógio.

- É indescritível. A gente é tomado por uma emoção e só quem conduz um fogo simbólico desse que sente como é gratificante. Existe uma energia muito grande aqui. Nosso Deus criador e os orixás trazem para cá essa energia tão positiva no solo sagrado de Zumbi dos Palmares. Então, é indescritível. Venho trabalhando no Comitê Olímpico local, e hoje tudo se concretizou. E eu soube ontem que ia ser o condutor aqui na Serra da Barriga. Fiquei sem acreditar que ia trazer esse fogo simbólico, que traz a paz, a prosperidade e une os povos - disse Francisco.

Sacerdotisa de matriz africana em Alagoas, Mãe Neide destacou a luta negra pela liberdade, a importância histórica do Quilombo dos Palmares e os Jogos Olímpicos como símbolo de fraternidade. 

– Eu sempre digo que em cada coração brasileiro existe essa energia do Zumbi dos Palmares. Para nós, todos de matriz africana, é pura emoção estar aqui e participar desse momento. É muita emoção ver a tocha chegando nesse solo sagrado. É uma mistura de amor e fé. Aqui é útero que pariu a liberdade, a terra de Zumbi. A força dele está aqui hoje. Os Jogos Olímpicos acabam sendo esse símbolo de luta pela igualdade entre os povos.

Mãe Neide e o professor Francisco Viana (à dir), na chegada da tocha olímpica ao Quilombo dos Palmares (Foto: Estéfane Padilha/GloboEsporte.com)

Há mesmo uma energia diferente em Palmares. A serra, lambida pela Lagoa Mundaú, guarda os gritos dos negros livres, muita esperança e o som dos atabaques de tantos rituais antigos. Imagens do quilombo e da tocha, juntos, vão correr o mundo e orgulhar quem luta diariamente por igualdade, por respeito. 

No Brasil, um nome em especial deve ser lembrado nesse dia de reflexão. Adhemar Ferreira da Silva foi um dos maiores heróis olímpicos do país. Negro, ele conquistou duas medalhas de ouro nas Olimpíadas de Helsinque, em 1952, e Melbourne, em 1956, e estabeleceu ainda recorde mundial do salto triplo. Com passadas largas, abriu espaço no esporte e no tempo para o reinado de Pelé.

Ambiente na cidade

Manifestações culturais na Serra da Barriga (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Parecia feriado. União dos Palmares se enfeitou para receber a tocha olímpica. Grupos de música, rodas de capoeira e crianças de várias escolas, carregando a bandeira do município, estavam em festa. E não foi só a celebração de momento. Moradora de União, Maria Barbosa lembrou que a preparação trouxe melhorias também na infraestrutura da cidade. 

- A cidade parou, mas foi ótimo, todo mundo está muito animado, mexeu com todos. E foi bom também que algumas obras ainda agilizaram por causa da passagem da tocha - celebrou Maria.


01 JESSE OWENS LUTA CONTRA HITLER E O PRECONCEITO


Na Olimpíada de 1936, em Berlim, Hitler queria provar a superioridade da raça ariana. Esperava uma chuva de medalhas no atletismo e tinha até um atleta favorito, o alemão Lutz Long. Um negro norte-americano, discriminado no próprio país, contrariou as expectativas do Führer e conquistou o ouro olímpico nos 100 e nos 200m, no revezamento 4 x 100m e ainda no salto em distância. Jesse Owens calou Hitler e diminuiu sensivelmente o impacto da propaganda nazista nos Jogos da Alemanha. Mesmo com o resultado expressivo, Owens nunca escondeu a mágoa pelo preconceito que enfrentou por muitos anos nos Estados Unidos.

Jesse Owens no pódio de Berlim, em 1936 (Foto: AP)

 - Quando voltei de Berlim, continuei não podendo entrar pela porta da frente dos ônibus e continuei não podendo morar onde eu quisesse. Também não pude fazer publicidade de alcance nacional porque não seria aceito no Sul. Hitler não me cumprimentou, mas também não fui convidado para ir à Casa Branca receber os cumprimentos do presidente do meu país - disse ele, tempos depois do feito.

Após a morte, em 1980, Jesse Owens foi eleito herói olímpico e reconhecido pelo então presidente norte-americano, o sulista Jimmy Carter, em mensagem oficial da Casa Branca, com papel timbrado.

"Talvez nenhum outro atleta em todo o mundo, em todos os tempos, tenha simbolizado melhor a luta humana contra a tirania, a miséria e o racismo” - escreveu Carter.

02 ALI, UM ATIVISTA COM MEDALHA DE OURO

Em 1960, um garoto ousado conquistou a medalha olímpica de ouro no boxe. Ainda com o nome de batismo, Cassius Clay, então com 18 anos, chamou a atenção na Olimpíada de Roma com um olhar de tigre, muito gingado e seguiu a carreira profissional. Derrubou gigantes do pugilismo.

Muhammad Ali acendeu a pira em Atlanta (Foto: Michael Cooper / Getty Images)

Clay colocou o cinturão pelo título mundial de boxe, se converteu ao islamismo e mudou o nome para Muhammad Ali. Marcou época pela luta contra o preconceito e pelo ativismo político. No auge da carreira, em 1967, endureceu o discurso, recusando-se a ir à guerra do Vietnã. Por isso, perdeu o cinturão, foi perseguido e ficou longe dos ringues por três anos. Não se curvou.

- Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, porque eu lutaria contra ele? - declarou, com firmeza, após a recusa.

Em 1996, Ali foi escolhido pelos organizadores da Olimpíada de Atlanta para acender a pira, abrir a disputa nos Estados Unidos. Momento comovente dos Jogos. O esporte fez uma bela homenagem a um atleta incomparável e um ativista marcado pela coragem e a fala.

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Fonte: Globo

Categoria: Quilombos

Tags: #Quilombo #Palmares #CEERT