Afroempreendedores revolucionam o ambiente de negócios brasileiro

Autor: Roberta Mello Data da postagem: 16:00 10/01/2019 Visualizacões: 367
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Maior evento de empreendedorismo negro da América Latina acontece no Brasil / Foto: Coletivo Alma Preta Feira Preta - Divulgação - JC - Reprodução

Ao contrário de diversas expressões pejorativas relacionadas ao negro no vocabulário brasileiro, "grana preta" talvez seja aquela que logo vêm à mente quando buscamos alguma que seja sinônimo de algo positivo. Mas se, por um lado, a expressão hoje conota fartura, bem-estar e sucesso, ela também faz pensar sobre quando realmente o dinheiro esteve nas mãos negras deste País.

Trazida ao Brasil para servir de mão de obra escrava, essa enorme parcela da população viveu séculos sem o direito a uma remuneração justa pelo seu trabalho. Contudo, mesmo na adversidade, muitas pessoas optavam por abrir seu próprio negócio e, assim, garantir ganhos melhores com mais respeito e liberdade.

A criadora e presidente da Feira Preta, maior evento de empreendedorismo negro da América Latina, Adriana Barbosa, salienta que é preciso conhecer a história da população negra no País para compreender as soluções e as dificuldades enfrentadas por esses empreendedores hoje. "Porém, também há de se reconhecer pelo menos 130 anos de empreendedorismo do povo negro no Brasil. Foi criando seus negócios por necessidade que a população negra deu conta da sua vida", diz Adriana. Para ela, agora é o momento de empreender porque quer, com mais planejamento e qualificação.

Atualmente, os negros formam o maior contingente de empreendedores no Brasil (51%), segundo pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Sebrae com dados de 2017. O grupo representa 38,8% dos pequenos negócios no País, contra 32,9% dos brancos, e lidera tanto no ranking dos empresários já estabelecidos quanto no de iniciantes.

Isso se deve, conforme especialistas, a uma conjunção entre medidas de reparação político-econômicas adotadas no País e, é claro, anos de luta do movimento negro e de mulheres negras por cidadania. O aumento do poder de compra da população das classes média e baixa, o maior acesso de negros à educação superior através de cotas raciais e sociais, o ingresso com mais qualificação ao mercado de trabalho e a valorização da negritude e da estética afro são os principais fatores que geraram o surgimento de negócios encabeçados por negros e negras e seu sucesso.

A coordenadora da Rede Afroempreendedor no Estado (Reafro-RS), Mariana Ferreira dos Santos, destaca que "o negro está perdendo a vergonha de ser negro". "Não é fácil ser negro no Brasil, então muitas pessoas tentavam esconder, principalmente quando ascendiam socialmente. Vimos, recentemente, uma maior valorização da nossa cultura, costumes e estética. E, com isso, houve também o crescimento da busca por encontrar produtos voltados para nós", lembra a também empresária.

Esse aumento da busca por produtos que atendam às necessidades específicas desses consumidores e que gerem reconhecimento, bem como a busca por representatividade negra, criou o que Adriana descreve como uma "onda de ressonância". Não basta o produto ser voltado à população negra. O lucro com a venda desse produto também deve movimentar iniciativas com recorte racial.

Os consumidores passaram a ver o potencial de mudança atrelado ao seu dinheiro e a escolher o destino do seu investimento. "A própria ideia da Feira Preta surgiu quando eu e uma amiga passamos a vender roupas usadas e alimentos em feiras na Vila Madalena, bairro boêmio de São Paulo, e observamos que grande parte dos consumidores que compravam e se divertiam ali e que trabalhavam eram negros e negras. Mas os donos das casas noturnas, ou seja, quem ficava com o lucro, eram homens brancos", salienta Adriana.

Mas a criadora e presidente da Feira Preta destaca que a ideia não é se fechar em um gueto. "Estamos abertos a negócios com pessoas de todas etnias", salienta. Porém, em um sistema que nunca deu protagonismo à população negra, o uso das finanças para o empoderamento é mais uma ação política.

Feira Preta é pioneira no País

Adriana destaca que a iniciativa extrapola as vendas / Foto: Renato Stockler - Feira Preta - Divulgação - JC - Reprodução 

Em novembro, Mês da Consciência Negra, inúmeras iniciativas de conscientização e valorização da contribuição do povo negro à cultura brasileira ocorrem em diversas cidades. Em São Paulo, há 16 anos, uma feira de negócios entrou no calendário deste mês também.

Criada em 2002 por Adriana Barbosa, a Feira Preta começou como uma iniciativa sem grandes pretensões e, hoje, é nada menos do que o maior evento de negócios de afroempreendedorismo e apresentação das tendências afrocontemporâneas do mercado e das artes da América Latina. Em 2018, a 17ª edição do encontro registrou recorde de público com mais de 52 mil pessoas presentes e com a participação de mais de 120 empreendedores de diferentes estados brasileiros. 

Além da venda de produtos, o evento busca valorizar o pensamento e as expressões artísticas através de painéis nacionais e internacionais e de shows. Desta vez, a feira ocupou 10 lugares da cidade de São Paulo, descentralizando o acesso à cultura e aos produtos. 

Outra novidade da 17ª edição foi que, durante o mês em que o evento foi realizado, pessoas distantes de São Paulo puderam adquirir os produtos vendidos no evento. Uma parceria com o Mercado Livre possibilitou que itens desenvolvidos por afroempreendedores fossem comercializados on-line através da criação da aba Feira Preta no site. A aproximação deu certo, e a ideia é que a iniciativa tenha continuidade - ao que tudo indica, através da criação de uma categoria específica para vendas segmentadas no e-commerce. 

O objetivo de criar espaço para afroempreendedores foi além, e Adriana decidiu que era preciso fortalecer os negócios em ações realizadas durante o ano inteiro, e não apenas no Mês da Consciência Negra. O Afrolab, explica a criadora e presidente da Feira Preta, é um programa de formação e aceleração de empreendedores que está pautado em quatro pilares: criação, produção, distribuição e consumo.

Em 2018, a iniciativa passou por cidades como Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Pernambuco. Neste ano, os negócios acompanhados deverão ser fundados e administrados por mulheres negras. Será o Afrolab para Elas, projeto idealizado pela Feira Preta e selecionado, em junho, no edital Negras Potências, viabilizado por meio de matchfunding realizado na plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria, em parceria com o Movimento Coletivo, plataforma de investimento social da Coca-Cola.

Além disso, em 2019, Adriana está em tratativas para levar a Feira Preta a mais estados brasileiros e expandir internacionalmente com a promoção de uma edição na Colômbia. 

Serviços financeiros e trabalho em rede fortalecem o movimento

All e Fernanda comemoram o número de adesões à plataforma AfroBusiness / Afro Business - Divulgação - JC - Reprodução 

"Black money" - expressão em inglês que denomina um movimento em busca da criação de uma cadeia capaz de circular renda entre a população negra - é uma realidade em outros países e começa a ganhar espaço no Brasil. Mais do que promover o acesso a bens de consumo, essa dinâmica garante o fluxo das riquezas por mais mãos e a melhoria na qualidade de vida.

A presidente da rede de profissionais negros e cofundadora e CCO da Conta Black, Fernanda Ribeiro, defende um movimento "Black money à brasileira". "São dois princípios. Se não me vejo, não compro. E compro de afroempreendedores para fortalecer os seus negócios", detalha Fernanda. 

Mas só conectar não era suficiente. "Decidimos oferecer capacitação e criar um empreendimento com fins lucrativos - a Conta Black", diz Fernanda. A fintech, voltada principalmente a clientes negros, é pioneira no Brasil no seu segmento e vem para incluir social e financeiramente uma camada da população e de empreendedores que não tinha acesso a serviços bancários em instituições financeiras tradicionais devido ao racismo.

Investir no desenvolvimento de negócios tocados por mulheres negras é prioridade 

Luciana decidiu profissionalizar a marca Pimenta Mimosa / Foto: Mariana Carlesso - JC - Divulgação - Reprodução 

Se mais da metade do empresariado brasileiro é negro, a Reafro estima que aproximadamente 26% desse indicador é de mulheres afrodescendentes. No entanto, esse grupo ainda está na base da pirâmide econômica e social e precisa receber mais investimentos para se desenvolver. Uma dessas mulheres que veem na elaboração de um produto ou prestação de serviço uma possibilidade de ganhar dinheiro extra ou sustentar sua família é Luciana Rabello. Assistente social por formação, há três anos, ela e sua mãe decidiram fazer os próprios acessórios de tecidos coloridos.

Luciana começou a vender para as colegas no posto de saúde em que trabalhava e rapidamente aumentaram os convites para vender nas feiras de rua em Porto Alegre. "Quando decidi participar da primeira feira de rua, não tinha nem marca. Corri para inventar um nome e pedi para meu irmão criar uma marca", diz a dona da Pimenta Mimosa. 

As consumidoras são predominantemente mulheres, mas a questão racial não pesa na hora da escolha. "A clientela é bem dividida entre negras e não negras, o que valorizo bastante, pois a ideia é que o produto seja usado por todas", pontua Luciana, ao comentar que a Pimenta Mimosa ainda tem muito a se profissionalizar. Por isso, esteve entre as 26 mentoradas do projeto Afromentoring, realizado pela Rede Brasil Afroempreendedor e pelo Grupo Mulheres do Brasil. À frente do projeto, Mariana Ferreira dos Santos comenta que a importância de estimular e valorizar as empreendedoras negras vai além de dar oportunidade para o desenvolvimento de uma pessoa. "Pesquisas demonstram que, ao se desenvolver, ela vai fomentar a economia das suas microrregiões", explica Mariana. 

Editora dá visibilidade à autoria negra

Fernanda diz que objetivo é garantir que escritores afros possam publicar / Foto: Claiton Dornelles - JC - Divulgação - Reprodução 

As políticas de cotas garantiram o acesso da população negra e de baixa renda ao Ensino Superior, o que levou muitas empresas também a adaptarem o modelo e levá-las para dentro do ambiente corporativo. Buscando garantir a maior diversidade possível dentro do seu catálogo de livros e, é claro, priorizar a literatura de autoria negra, a Figura de Linguagem não pretende ser apenas isso.

Ela mantém uma política bem pensada e transparente de editoração que contempla as interseccionalidades das opressões expressas sobre minorias. A cada cinco livros de autoria negra publicados, é aberta a possibilidade de publicação de uma obra de outro autor integrante do grupo "privilegiado".

Uma das sócias da editora criada em Porto Alegre, Fernanda Bastos explica que hoje essa categoria é formada por "pessoas brancas, heterossexuais e/ou que recebem acima de 40 salários-mínimos". "Essas são as pessoas que vão conseguir mais facilmente levar seus livros para as editoras tradicionais. Esses são os autores que já encontramos nos catálogos em geral e, por isso, são os que menos nos interessam", destaca Fernanda. 

A Figura de Linguagem também busca dar conta de uma ideia de diversidade que diz respeito, ainda, a orientação sexual, gênero e pessoas com deficiência. A falta de reconhecimento a obras realizadas por esses segmentos é uma pauta bastante discutida por negros, mulheres, pessoas LGBTs em geral, "mas, dentro do mercado, ela não chega". "Por isso, nossa política editorial está bem clara e à disposição de todos que entram em contato, para forçar o debate", ressalta Fernanda. 

Fernanda e o sócio Luiz Mauricio Azevedo lançaram a Figura de Linguagem em junho de 2018, durante um ano marcado pela crise do mercado editorial e o fechamento de grandes magazines. Apesar disso, os sócios comemoram resultados ainda melhores do que o esperado na concepção da empresa, com o lançamento de cinco obras em sete meses e a preparação para o lançamento de mais títulos em breve. Para 2019, estão projetados os lançamentos de, pelo menos, 10 títulos. 

Mesmo com tiragens menores, a editora independente mantém vendas dos livros físicos em duas livrarias de Porto Alegre e em outras quatro cidades do interior do Estado. A distribuição já chegou a Campinas, Niterói, Rio de Janeiro e São Paulo. Os e-books podem ser adquiridos com preço mais acessível na internet a partir de uma parceria com a Simplíssimo, editora de livros digitais. 

"Estudamos muito e nos preparamos para a gestão do negócio. Por enquanto todo o lucro gerado retorna para o custeio de novas publicações. Quem compra hoje sabe que está financiando o lançamento de outros livros que muito provavelmente não seriam publicados em outra editora", afirma Fernanda. Para ela, o envolvimento dos clientes em geral e, principalmente, da comunidade negra é fundamental.

O número de clientes autodeclarados negros e não negros é bastante semelhante, mas, conforme Fernanda, em um estado em que a população negra é minoria numérica, esse dado é muito positivo. "Se as pessoas negras não sentissem orgulho de estarem presentes também nesse nicho, seria um problema para nós", reflete a empreendedora, para quem a representatividade de ter uma mulher negra em um mercado predominantemente branco pode inspirar muito mais gente e que é possível diminuir as desigualdades sociais e empreender. 

Reafro investe na qualificação para garantir a sobrevivência dos negócios

Mariana considera fundamental dar preparo a quem empreende / Foto: Mariana Carlesso - JC - Divulgação - Reprodução 

Apesar dos dados cada vez melhores, há muito a evoluir. Na comparação salarial, os negros continuam ganhando menos e ainda têm escolaridade inferior aos brancos. Conforme dados do estudo O Desafio da Inclusão, elaborado pelo Instituto Locomotiva com dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), o tamanho da desigualdade social entre brancos e negros chega a R$ 808 bilhões. 

Por motivos estruturais, negros e pardos enfrentam dificuldades em acessar os mesmos investimentos e ferramentas de capacitação que os empreendedores brancos já dominam. Apesar de as pessoas negras movimentarem mais de R$ 1,6 trilhão ao ano (dados de 2017), elas têm a pior remuneração entre os brasileiros. A menor renda entre as trabalhadoras com Ensino Superior é das mulheres negras. 

A falta de reconhecimento pelo trabalho executado empurra muitos trabalhadores ao mercado informal e ao chamado "empreendedorismo por necessidade". Segundo a coordenadora da Reafro-RS, Mariana Ferreira dos Santos, quando isso ocorre, é muito comum que as pessoas entrem no empreendedorismo sem preparo para competir em um ramo que exige bastante do empresário.

"As dificuldades enfrentadas por todos aqueles que estão abrindo o próprio negócio no Brasil somadas ao racismo estrutural criam um ambiente totalmente hostil", diz a empresária. Por isso, a Reafro realiza cursos em todo o Brasil, inclusive no Rio Grande do Sul, para informar e fomentar o setor. 

São atividades que trabalham gestão, comunicação e legislação, sem deixar de lado os aspectos sociais. "Nem mesmo os braços do Estado que hoje deveriam auxiliar exatamente esses empresários estão preparados para trabalhar com homens e mulheres negras, para lidar com a discriminação e o racismo. Desde a sua chegada, essas pessoas não se sentiram acolhidas nesses lugares", comenta Mariana.

Além disso, a rede nacional, criada em dezembro de 2015, incentiva as relações de negócios com estratégias focadas na conquista de mercado e na redução das desigualdades raciais decorrentes do racismo estrutural. A Reafro é atuante no Rio Grande do Sul e em outros 11 estados.

 

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