Liderança negra: o desafio da inclusão racial nos cargos mais altos das empresas

Autor: Amcham Brasil Data da postagem: 16:00 27/04/2018 Visualizacões: 1942
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As mulheres negras são minoria absoluta em cargos de chefia no Brasil / Foto: Reprodução - Isto É Dinheiro

Discutir o combate ao racismo nas empresas é essencial. O caso recente do Starbucksmostra o quanto esse debate ainda é necessário. Nos Estados Unidos, na Filadélfia, dois homens negros foram presos enquanto esperavam um amigo dentro da loja nesta semana. Diversos policiais retiraram os dois algemados do estabelecimento, mesmo sob protesto de diversos clientes, que afirmavam aos agentes que eles não estavam fazendo nada de errado. O episódio levou a Starbucks a decidir fechar oito mil lojas no dia 29 de maio para realizar treinamentos relacionados a racismo institucional. Mesmo assim, houve dano reputacional, com diversos pedidos de boicote à loja rodando pela internet.

O racismo institucional não está presente apenas no lado do cliente. A desigualdade racial dentro de ambientes corporativos é perceptível aos olhos. Ao entrar em qualquer reunião de alto escalão, é notável a falta de líderes negros. Uma pesquisa lançada pela Santo Caos neste mês colocou em dados que essa percepção não é falsa. No levantamento, realizado com 1798 pessoas, três em cada quatro profissionais de Recursos Humanos afirmaram que não há demanda por profissionais negros para ocupar altos cargos. A grande maioria desse grupo (90%) relatou ainda que o processo de ascensão entre negros e não negros é diferente. Apesar do maior acesso a graduação e níveis superiores de educação, muito graças a política de cotas raciais, a maioria dos negros e negras ainda ocupa cargos mais baixos, como aprendizes (57%) e estagiários (28,8%), segundo o Instituto Ethos. Em comparação, quanto aos níveis de gerência e quadro executivo, são minoria: 6,3% e 4,7%, respectivamente.

Elaine Matos é uma das exceções. Mulher, negra, é gerente de Produto da Dow. Durante evento na Amcham – Brasil em São Paulo no dia 16/04, ela lembra que foi através de um programa desenvolvido pela organização voltado a estagiários negros que conseguiu desenvolver habilidades novas e aprender o inglês, algo que ainda não sabia e que é considerado essencial no meio corporativo. Esse tipo de ação afirmativa, na opinião da profissional, é um meio efetivo de inclusão. Ela lembra que muitos jovens negros ainda não tem as mesmas oportunidades que brancos de desenvolver habilidades antes de entrar nas empresas. “E se eu não tivesse tido essa oportunidade através dessa lente?”, reflete.

Parte do grupo de diversidade da organização, Matos tem hoje a missão de aumentar o pipeline da liderança negra da Dow agindo principalmente na porta de entrada: contratação de estagiários. Um dos problemas enfrentados atualmente é a falta de atração. A executiva revela que hoje apenas 30% dos estagiários contratados são negros. “Hoje meu posicionamento na companhia, como líder de um grupo de diversidade de negros, é lutar pelas pessoas que estão chegando na companhia”, relata.

A partir de um mapeamento, a Dow identificou que 22% de seus colaboradores são negros. No entanto, a nível da América Latina, há apenas uma diretora negra. A empresa colocou como seu dever e comprometimento aumentar o número. A criação de um programa de mentoria tem como objetivo capacitar essas pessoas para alcançarem cargos maiores.

“Eu quero olhar para os lados e ter pares. Olhar para cima e ver diretores [negros] e ver a turma de trainee com 50% de negros. Tem vários jovens formados hoje, então por que eles não chegam nos nossos processos seletivos, por que não conseguimos atrair? Para a próxima turma, o comprometimento é ter 50%. A gente precisa de pipeline e é um mito dizer que não tem pessoas formadas”, ressaltou a líder.

Papel dos brancos

“Se temos um país em que temos uma cota para incluir a maior parte da população, isso mostra que algo está errado. Mostra que o Brasil foi criado com base em desigualdade e os brancos fazem de conta que não discriminam. É um tabu falar sobre esse assunto”. A frase é do CEO da Bayer, Theo van der Loo, também durante o seminário na Amcham. A farmacêutica e seu principal líder tem levado o debate da equidade racial a sério dentro da companhia. A empresa conta com diversos comitês relacionados à diversidade para LGBTs, PCDs, Gênero, Gerações e um exclusivo para inclusão e igualdade racial – o BayAfro.

Para van der Loo, como os brancos estão nas posições de liderança, devem também se envolver na luta e se aproximar. Sua dica para os CEOs e presidentes é que conversem com os negros da empresa para entenderem suas dificuldades. Na época que começaram  a pensar essa questão internamente, van der Loo relata que não havia informações ou dados sobre os colaboradores. O Censo ajudou a identificar que, na época, havia apenas 16% de negros no quadro de funcionários. Hoje, a porcentagem é de 21%. O problema do alto escalão, para o presidente, é que não há alta rotatividade. A maioria dos negros e negras ainda está como jovens aprendizes e estagiários – mas a ideia do CEO é que haja um aumento expressivo nessa base.

O envolvimento da alta liderança é fundamental para apoiar as ações, como lembra o presidente da multinacional. “Automaticamente, quando eu falo de inclusão, alguém acha que será excluído. Eu dependo dos gestores, então precisa persuadir os colegas a participarem desse projeto. É bem mais difícil do que a gente imagina e o CEO tem que estar presente o tempo todo. A diversidade tem que fazer parte da agenda o ano todo”, relata.

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