Todo mundo deveria visitar um candomblé

Autor: Érica Araújo Castro Data da postagem: 12:30 01/09/2016 Visualizacões: 133744
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Todo mundo deveria visitar um candomblé / Foto: Érica Araújo Castro - Jornal Estado Atual

Estive em uma casa de Candomblé em uma festa de Omolu, o Orixá que, segundo essa manifestação cultural afro-brasileira, é o senhor da terra, senhor da cura. E saí de lá com a vívida impressão de que todo brasileiro, nem que fosse por um único dia, deveria visitar uma casa desse culto.

Ao chegar na rua já fomos recebidos pelo som pulsante dos atabaques, instrumentos tão caros aos cultos afro-brasileiros, e nos vimos cercados de pessoas de branco, sorridentes, sem o menor resquício de vergonha ou pudor ao exibir a vestimenta típica de uma religião ainda vista com tanto preconceito por muitos.

Eu mesma sou filha de Umbanda, mas nunca, confesso, havia tido o privilégio de visitar uma casa de Candomblé – apesar do fascínio que senti vendo tantos vídeos pela internet. Enquanto pessoa racional, prática, que foi durante anos cristã tradicional e depois por mais de 17 anos agnóstica, fui cativada pela emoção e pela experiência sensorial e emocional que é pertencer a uma religião como a Umbanda.

E tive uma sensação muito semelhante ao visitar o culto de Candomblé, que é chamado xirê.

Sentamo-nos discretamente na assistência e aguardamos o começo da cerimônia. O local é dirigido por um jovem zelador, Pai Dudu, de apenas 27 anos. A nação do rito da casa é o Ketu, tradição nascida na Bahia com a chegada de três princesas que fundaram as casas de Candomblé mais antigas do Brasil, situadas e ainda em funcionamento no estado baiano.

O barracão que visitei era simples, sim. Desorganizado, nunca. O salão estava todo enfeitado com cortinas, palmas verdinhas e pipocas cuidadosamente cerzidas para formarem cordões – já que a pipoca é uma das oferendas mais apreciadas pelo homenageado, Sr. Omolu. Tudo muito bonito, gostoso mesmo de se olhar.

Os filhos da casa andavam para lá e para cá, atarefados com os últimos preparativos dando-nos tempo para observar. É muito bom apreciar a maneira como os mais novos saúdam os mais velhos – algo que necessitamos tanto resgatar em nossas novas gerações que pouco a pouco vêm tratando nossos idosos com flagrante desrespeito. Já no Candomblé ainda existe algo que considero maravilhoso – não apenas os mais velhos abençoam. Todos o fazem, já que todos são considerados morada de Orixás. Sim, nessa bela religião, seu Deus mora dentro de você – e não de uma maneira metafísica, intangível.

E então, Pai Dudu inicia o xirê pedindo pelos atabaques entoando belíssimas canções na língua iorubá, idioma, não de escravos, mas de nossos ancestrais livres, escravizados e tratados de maneira desumana para alimentar um sistema econômico de bases imorais.

Todos dançam, batem palmas e cantam juntos – forma-se uma bela roda de adeptos à nossa frente: sorridentes, felizes por celebrarem seus Deuses. E há crianças presentes também – pelo menos um casal de fiéis levou seu filho pequeno para tomar parte na religião de seus pais.

Após o primeiro momento, em que todos estão vestidos com as roupas brancas com poucos adereços característicos do culto, há um segundo em que quatro dos adeptos serão os Orixás convidados em terra. Oxum, orixá do amor e das cachoeiras, Exu, orixá dos caminhos e da energia, Iansã, orixá dos ventos e das tempestades, Oxumaré, Orixá do arco-íris e da prosperidade, e, claro, o rei da festa, Omolu, Orixá conhecedor de todas as doenças, e por isso, também senhor da cura.

Todos entram dançando e formando uma roda e atrás vêm ainda alguns filhos trazendo as comidas dos Orixás, que serão servidas usando folhas de mamona como pratos – grãos de canjica cozida, de feijão branco, de lentilha, acarajé, farofa, carne de boi com quiabo, batata doce, beterraba. Tudo preparado com muito cuidado, já que, como bem explicado pelo Pai Dudu, essa é a hóstia dessa religião, que vem abençoada pelos Deuses manifestados por seus filhos, presentes na terra.

Pense, você, cristão, ter a oportunidade de ver a Jesus, em suas roupas tradicionais, assentado na sua frente – não com os olhos do espíritos, mas com os olhos da carne. Pense na emoção que seria abraçá-lo, beijar suas mãos e tê-lo humildemente beijando as suas. Pense em receber dele a bênção. Ou você, budista, ter a oportunidade de aprender da boca do próprio Buda os caminhos do Darma.

Pois é exatamente essa a experiência de um adepto do Candomblé que se ajoelha frente aos Orixás manifestados para deles receber o Axé.

Interessante também observar que, enquanto manifestação de religiosidade, o cristianismo tradicional expressa-se pelos silêncios, pelas preces murmuradas, pela comiseração, pelos jejuns, pelas músicas suaves – uma beleza à qual todos já presenciamos nas várias igrejas. Já o Candomblé, essa maravilha da nossa cultura, expressa sua religiosidade pela música conduzida pelo forte som dos atabaques, pelas danças, pelas comidas – uma compreensão do mundo espiritual pulsante, colorida e vivaz, bem diferente das grandes religiões monoteístas.

Por isso eu saí do barracão de Pai Dudu com uma certeza – todo mundo deveria visitar um Candomblé um dia. Independentemente de religião – ou do ateísmo de cada um. Visitar pela experiência antropológica de ver-se frente ao primitivo humano escancarado, aquele que não se envergonha de buscar por seu Deus. Primitivo no melhor sentido da palavra – no que quer dizer que todos nós, de alguma maneira, somos seres da Natureza: dela viemos e para ela retornaremos algum dia. O primitivo que nos permite crer que existe algo maior do que nós que nos cerca e nos acolhe como o colo materno – chame você esse algo maior de Deus, de Nirvana ou de Cosmos. O primitivo que nos permite absorver a comida como quem ingere uma bênção.

O primitivo que tanto queremos esquecer cercados por nossos celulares, carros, engarrafamentos, relógios – mas que bate à nossa porta quando, por exemplo, adoecemos, para nos lembrar que somos seres que obedecem às mesmas Leis da Natureza que todos os demais.

O primitivo que nos permite não apenas ver, mas sentir a Deus dentro de nós – já que qualquer religioso é capaz de lhe explicar que a experiência espiritualmente transcendente é aquela que conseguimos quando nos desconectamos de toda a modernidade que nos cerca e vemos o eu nu, puro – o Eu-Primevo, o Eu-Primitivo, o Eu-Natural. Mesmo sendo-se ateu, essa é uma experiência possível já que não precisamos provar do banquete para sabermos que é gostoso – basta observar as expressões de delícia no rosto dos convidados.

Todo mundo deveria visitar um Candomblé para ver que ali não existe o demônio nem a luta comezinha entre Deus e o Diabo. Ali existem pessoas sérias, com uma religiosidade riquíssima, abrangente, sensorial, expressiva. É a religião do pedreiro, do funcionário público, do marceneiro, do professor – gente comum, que vemos todos os dias.

Não é, definitivamente, a religião do adorador do diabo.

É linda. E é, sem a menor sombra de dúvida, uma das tantas riquezas culturais desse nosso Brasil que deve nos encher de orgulho da nossa identidade, de quem somos enquanto povo, enquanto nação.

E você? Já visitou um Candomblé?

Casa de Candomblé: Ilê Axé Iyá Omi.
Zelador: Pai Dudu de Oxum.
Dia do xirê: Quartas-feiras, 20h.

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