Cara Gente Branca (Dear White People)

Autor: Data da postagem: 15:20 19/10/2015 Visualizacões: 644
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Não é tarefa fácil encontramos um filme LGBTQ+ que trate de questões mais profundas que a sexualidade de seus protagonistas. Longe de desmerecer qualquer luta, não há como negar que pertencer a este grupo e a outro, que sofra tantas ou mais repressões da sociedade tradicional, não é algo fácil. Mulheres, pobres, negros, deficientes físicos, imigrantes regionais e outras minorias também são alvo desses opressores. Filmes que tratam dessas minorias existem? É óbvio que sim, mas Cara Gente Branca parece ter feito muito bem a lição de casa.

A comédia dramática, se assim podemos classifica-la, se passa em uma conceituada universidade dos EUA, mais precisamente Winchester University, onde os alunos brancos decidem dar uma festa bem preconceituosa sobre a raça negra. O que eles não contavam é que Sam White (Tessa Thompson), Troy Fairbanks (Brandon P. Bell), Lionel Higgins (Tyler James Williams) e Coco Conners (Teyonah Parris) começariam uma grande mobilização que questionaria e enfrentaria não só alunos, mas toda a instituição.

Dirigida e escrita pelo novato Justin Simien,  seu primeiro longa produzido, Dear White People é uma sátira escancarada do racismo e da hipocrisia do politicamente correto e tolerante em respeito da diversidade racial. O roteiro, construído de maneira inteligente e bem humorada, consegue tocar em uma ferida que persiste até hoje nos EUA e que também é refletida no Brasil, a de um racismo velado e de um falso mito da “democracia racial”. Imaginem o quanto é difícil se adaptar a uma sociedade que ainda continua racista, mas que tenta pregar que isso não existe. E mais ainda é ver uma sociedade branca, hipócrita, que insiste em um “racismo às avessas”, onde eles são os excluídos. É impossível assistir esse filme e não fazer conexões com o que vemos aqui no Brasil, inclusive nos momentos em que a imagem do negro é estereotipada. Associar todos esses discursos aos utilizados hoje para irem defesa da cristofobia e heterofobia também não é mero acaso. Isso mostra como todo texto é atual e como ele se encaixa perfeitamente a toda e qualquer minoria ou grupo de excluídos. Ilê Aiyê!

É fascinante ouvir os discursos de Samantha na rádio da universidade todos os dias, alfinetando e se colocando como a pedra no sapato daqueles que mais se incomodam com a presença dos negros naquele espaço. Suas apresentações e argumentações são algo que todos deveriam saber. A própria Sam tem seu programa acusado de racismo e sem deixar o enredo cair consegue dar uma resposta a altura ao seu público, deixando seus opressores sem reação. A protagonista não luta só pelos negros, mas ela está ali também como uma ativista feminista, que defende também o papel da mulher na sociedade. Ela é irônica, sarcástica, inteligente, astuta e convicta de tudo que fala e faz. Não acho incoerente associá-la a figura de Angela Davis, frente aquele campus tão hostil e falso. Tessa Thompson passa tudo o que esperávamos ver dessa personagem, alguém com uma personalidade forte, que não mostra medo e nem se curva para os poderosos e isso só um artista que consegue imergir muito bem na história consegue realizar. Não que os outros atores não desempenhem bem seu papel, Tyler James Williams (o Chris, de Todo Mundo Odeia o Chris), por exemplo, mostra como é difícil ser negro e homossexual, algo tão denso como a situação de Sam, mulher e negra, mas suas histórias são quase que secundárias, e ainda assim fundamentais para a ideia e mensagem que o texto desejar passar.

Em um aspecto um pouco mais técnico, o filme não tem grandes efeitos. As transições de uma cena para outra, às vezes, podem confundir o público, mas nada que desagrade. A fotografia não é ruim, mas também não é algo que faça cair o queixo, e que em minha opinião, poderia sim ser mais bem feita, como por exemplo, no discurso que Sam faz no auditório e durante a tal festa “afrodescendente”. Todavia, a verdade é que a história é tão boa, que faz você deixar todos esses aspectos de lado.

Não há menor sombra de dúvidas que esse filme merece e precisa ser assistido e não só uma vez. Cada vez que assisti-lo, irá perceber aspectos e nuances diferentes sobre a questão por ele abordada, como se novos símbolos fossem descobertos a cada nova leitura. Se você é negro, mulher, gay, trans, ou pertencente a qualquer outra minoria, saiba que é uma parada obrigatória e, caso não seja nenhum deles, também não deixe de assistir, afinal, se você chegou até aqui não vai ser agora que irá desistir.

O longa está disponível no Telecine On Demand até o final de novembro e pode ser assistido dublado ou legendado.

https://www.youtube.com/watch?v=XwJhmqLU0so

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