Anastácia: resistência negra santificada

Autor: Thaís Nascimento Data da postagem: 18:15 18/05/2016 Visualizacões: 38446
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Foi em mil oitocentos e oitenta e oito, então a 13 de maio depois da Abolição que o escravo, a princesa fez a sua libertação Me refiro a uma história de uma escrava sofrida por nome de Anastácia que foi muito perseguida e sacrificada a ponto de cedo perder a vida (Cordel da Escrava Anastácia)

Cultuada no Brasil como santa e heroína, considerada uma das mais importantes figuras femininas da história negra, a vida da escrava Anastácia é um misto de luta, bravura, resistência, doçura e fé. Nas versões orais ou escritas, os registros falam sobre uma bela mulher que não cedeu aos apelos sexuais de seu senhor e, por isso, foi estuprada e amordaçada. A luta de Anastácia transformou-se em exemplo e até hoje sua força inspira milhares de devotos. A história de Anastácia começa em 9 de abril de 1740, com a chegada no Rio de Janeiro do navio negreiro “Madalena” vindo da África.

No carregamento havia 112 negros Bantus, originários do Congo, para serem vendidos como escravos. Entre eles, estava Delminda, mãe de Anastácia, que foi arrematada por mil réis assim que chegou ao cais do porto. Foi violentada e acabou ficando grávida de um homem branco, motivo pelo qual Anastácia, sua filha, nasceu com os olhos azuis. Representada como uma mulher forte, guerreira e algumas vezes orgulhosa, Anastácia era conhecida por reagir e lutar contra a opressão do sistema escravista. Era muito cobiçada por sua beleza, mas ao mesmo tempo em que cultivava o desejo, seu comportamento despertava a ira de seus senhores e também de suas mulheres, que não se conformavam com a beleza da escrava.

Anastácia foi sentenciada a usar uma máscara de ferro por toda a vida, que só era retirada na hora de se alimentar. Suportou por anos a violência dos espancamentos, que só terminariam em sua morte. Sua resistência diante da dor e dos maus tratos sofridos acabou por incentivar outros negros escravizados.

Os restos mortais de Anastácia foram sepultados na Igreja do Rosário e sumiram após um incêndio fazendo com que aumentassem as dúvidas a respeito da história da moça. Ao mesmo tempo, a crença popular a tornou um mito religioso. Segundo seus devotos, “A Santa” (como é cultuada dentro das religiões Afro-Brasileiras), é capaz de realizar milagres. Anastácia colocava as mãos no doente e os males desapareciam. Por ironia do destino, o dom que possuía acabou levando Anastácia a salvar a vida do filho do fazendeiro que a violentou.

Em desespero, a família decidiu recorrer à escrava para salvar a vida do menino. Pediram sua ajuda e a Santa realizou a cura, para espanto de todos. Atualmente, muitas entidades estão unidas no propósito de solicitar ao Papa, a beatificação da escrava Anastácia. Ao perfil de guerreira que luta contra a escravidão e a torna modelo de liderança e resistência, soma-se o de milagrosa. Parte da história de Anastácia foi recuperada em 1968, quando a Igreja do Rosário, no Rio de Janeiro, fez uma exposição em homenagem aos 90 anos da Abolição. Lá foi exposto um desenho de Étienne Victor Arago em que reproduzia uma escrava do século XVIII que usava máscara de ferro, método empregado nas minas de ouro para impedir que os escravos engolissem o metal.

A existência de Anastácia é colocada em dúvida por estudiosos do assunto, já que não existem provas materiais de sua existência, mas a fé em sua existência atrai milhares de devotos pelo país. O “Consagrado à Escrava Anastácia”, celebrado no dia 12 de maio, data em que Anastácia nasceu em Minas Gerais, foi escolhida para relembrar a vida da escrava guerreira.

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