O guia de ‘destinos amistosos’, usado por negros nos EUA

Autor: Estêvão Bertoni Data da postagem: 12:00 06/12/2018 Visualizacões: 439
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Edição de 1956 do guia de viagens 'The Negro Traveler´s Green Book' / Foto: Reprodução - The New York Public Library - Nexo Jornal

Conhecido como o Livro Verde, obra listava hotéis, restaurantes e postos de serviço em que população negra era aceita, numa época em que segregação racial ainda vigorava no país

Ao longo de três décadas, os negros que cortavam de carro os Estados Unidos a trabalho ou em férias com a família tinham num pequeno manual de capa verde um aliado.

Conhecido como “The Negro Motorist Green Book” (O Livro Verde do Motorista Negro) ou apenas “The Green Book” (O Livro Verde), o guia de viagens publicado entre 1936 e 1966 listava hotéis, restaurantes, postos de serviços e lojas em que a população negra poderia ser bem recebida e atendida.

Quando o Sistema Interestadual de Autoestradas, levado a cabo pelo presidente Dwight D. Eisenhower nos anos 1950, expandiu as possibilidades de os americanos rodarem pelo país de costa a costa, o sistema de leis conhecido como Jim Crow, que mantinha a segregação racial em espaços públicos, ainda vigorava no Sul dos Estados Unidos.

A rede de rodovias e o baixo preço dos carros na época permitiam aos viajantes ir de Nova York à Califórnia conhecendo a paisagem norte-americana.

Edição de 1956 do guia de viagens 'The Negro Traveler´s Green Book' / Foto: Reprodução - The New York Public Library

Mas muitos negros preferiam dirigir a noite toda a correr riscos ao encostar em algum ponto desconhecido. Outros levavam comida para não ter de parar em restaurantes.

A origem do guia

Por ouvir frequentemente histórias de racismo nas estradas do país, o carteiro da cidade de Hackensack, em Nova Jersey, Victor Hugo Green, decidiu criar o Livro Verde (daí o Green no nome do guia).

Para coletar informações de cada um dos 50 estados, ele contava com a ajuda de uma rede de funcionários dos correios que percorriam os Estados Unidos transportando correspondências.

Com o tempo, as próprias empresas começaram a procurá-lo para aparecer nas páginas do guia. O livro acabou ganhando patrocinadores, como a Esso, hoje chamada de ExxonMobil, e divulgação de organizações de turismo.

Quando Green se aposentou, ele passou a se dedicar integralmente ao projeto. Cerca de 15 mil cópias eram impressas por ano.

Página interna do Livro Verde, com foto de Victor Hugo Green, criador do guia / Foto: Reprodução - The New York Public Library

Os direitos civis

Green, que depois se mudou para o bairro do Harlem, em Nova York, morreu em 1960, mas o guia continuou a ser publicado por outros editores nos anos seguintes. Naquela década, o livro foi usado pelo movimento negro em discussões no Congresso como mais um exemplo que escancarava a discriminação racial nos Estados Unidos.

Em 1964, o presidente Lyndon Johnson assinou a Lei dos Direitos Civis, que tornou ilegal a segregação e a discriminação, e o guia logo pararia de ser publicado.

Embora não tenha visto o fim da sua obra, Green havia previsto a situação anos antes, em 1949, ao escrever o prefácio de uma das edições: “Haverá um dia, talvez no futuro próximo, em que este guia não terá de ser mais publicado. Quando isso acontecer, nós, como raça, teremos iguais oportunidades e privilégios nos Estados Unidos. Será um grande dia para suspender esta publicação, e então poderemos ir aonde quisermos, sem embaraços”.

Com os anos, a existência do Livro Verde caiu no esquecimento. Algumas edições têm sido vendidas para colecionadores por US$ 22.500 (R$ 86.764,50).

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