Literatura, racismo e negritude em debate

Autor: Marcelo Rubens Paiva Data da postagem: 10:00 08/11/2018 Visualizacões: 76
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Literatura, racismo e negritude em debate / Foto: Reprodução - Estadão

Com o apoio do atualmente ameaçado Sesc, abre hoje no Rio de Janeiro a FLUP (Festa Literária das Periferias), que junta mais de 80 autores de países como Inglaterra, Camarões, França, EUA, Senegal e Brasil.

De 6 a 11 de novembro, a FLUPP homenageia na Biblioteca Parque Estadual (avenida Presidente Vargas, centro do Rio de Janeiro) o grande Martinho da Vila e Maria Firmina dos Reis, a escritora maranhense considerada a primeira romancista brasileira, autora de Úrsula (1858), pioneira na crítica abolicionista da nossa literatura, que morreu cega, miserável e foi esquecida por décadas.

Neste ano, o tema será A Negritude. E, claro, debatem racismo, inclusive Machado de Assis.

São seis dias de palestras e saraus com gente como Djamila Ribeiro, Gilberto Gil, Liniker, Luciana Diogo, Heloisa Buarque de Hollanda, Giovani Xavier, Bonaventure Ndikung (Camarões), Felwine Sarr (Senegal), Paola Anacoana (França), Saul William (EUA) e Taiye Selasi (Inglaterra).

Hoje, rola um desfile de moda em que jovens estilistas negros fazem uma releitura do desfile que Zuzu Angel realizou nos anos 1970 nos EUA, denunciando a morte sob tortura no DOI-Codi do Rio de Janeiro do seu filho Stuart Angel, informando para a elite americana o que a ditadura militar fazia no Brasil.

No dia 11, domingo, o evento encerra com a final do Slam BNDES, competição em que os participantes recitam poesias criadas naquele momento.

08 NOV – Quinta-feira

16h. Na qualidade rara de sereia

Gilberto Gil e Liniker, com mediação: Heloísa Buarque de Hollanda

A música popular brasileira tem sido uma inesgotável plataforma para transgressões que dialogam com os desejos mais libertários de nossa juventude, em particular no campo do comportamento. Tem sido assim desde que os tropicalistas pediram para que o super-homem mudasse o curso da história.

18h. Feminismos plurais

Carla Akotirene, Joice Berth, Juliana Borges e Silvio de Almeida

O Rio de Janeiro começou a perceber a presença da mulher negra nos espaços públicos com a expressiva votação da vereadora Marielle Franco. Como mostra a coleção criada e organizada pela filósofa Djamila Ribeiro, ela própria um fenômeno de popularidade, aqueles milhares de votos depositados nas urnas foram apenas a ponta de um iceberg que tem abalado as estruturas do país.

18h30. “Os mortos nunca se vão”

Boneventure Ndikung, Rafa Joaquim, Sol Miranda, Tainah Longras, no auditório Darcy Ribeiro

Lecture performance coletiva, guiada por Boneventure Ndikung, do texto “Those Who Are Dead Are Not Ever Gone”, sobre a manutenção da supremacia e a exploração da riqueza africana pelos museus europeus. Como o Fórum Humboldt, citado no texto, gigantesco e polêmico projeto em Berlim, que reúne coleções de arte e objetos históricos de todo o mundo, muitos deles oriundos dos sangrentos períodos coloniais na África e Ásia. Novos museus abrindo antigas feridas.

09 NOV – Sexta-feira

14h. Página Reveladas

Maria Duda, Poeta SK, Raya, com mediação: Aílton Graça

Três primeiros colocados do Slam Pequena África discutem a renovação do poetry slam no Brasil e no Rio de Janeiro, cada vez mais popular na periferia. Organizadora do maior evento de slam da América Latina, a FLUP foi uma das maiores responsáveis pela popularização e acima de tudo pela renovação da cena do spoken word na periferia do Rio de Janeiro.

18h. Nossos Passos Vêm de Longe

Djamila Ribeiro, Tom Farias e Ungulani Ba Ka Khosa, com mediação: Thiago Ansel

Djamila Ribeiro, Tom Farias e Ungulani Ba Ka Khosa ganharam relevância em geografias e momentos históricos diferentes. Mas os três têm em comum o resgate de um pensamento ancestral, produzindo narrativas e discursos sobre fatos e personagens decisivos para a subjetividade negra.

10 NOV – Sábado

14h. Quando lemos a nós mesmos

Carla Fernandes, Mtima Solwazi, Paula Anacaona, com mediação: Binho Cultura

Um dos grandes problemas dos jovens criados na Diáspora é que não são apresentados a livros de autores negros, com os quais possam reforçar seus vínculos de pertencimento e acima de tudo melhorar sua autoestima. Que estratégias estão sendo criadas para fornecer os espelhos de que todos precisamos para nos ver em nossos heróis?

16h. Revoluções invisíveis

Ana Maria Gonçalves e Marcelo D’Salete, com mediação: Ale Santos

Os escritores negros têm demonstrado cada vez mais interesse no passado de seu povo, em particular pelas revoluções que somente à custa de muito sangue o poder colonial conseguiu sufocar.

18h. As Áfricas possíveis

Felwine Sarr e Taiye Selasi, com mediação: Nick Barley

Uma África cada vez mais complexa e diversificada pode ser traduzida por dois neologismos criados por dois expoentes do movimento negro. A Afrotopia que deu título a um dos livros do filósofo senegalês Felwine Sarr fala de um deslocamento geopolítico em direção ao continente africano. E o Afropolitismo da escritora britânica Taiye Selasi aponta para uma geração de negros, como ela própria, totalmente integrada às grandes mudanças em curso na sociedade contemporânea.

20h. Prêmio Carolina Maria de Jesus

Quinta edição do prêmio com que a FLUP homenageia personalidades que tiveram o curso de suas vidas transformado pela literatura, ou que transformaram o curso da vida de outrens por intermédio da literatura.

11 NOV – Domingo

14h. Primeira pessoa

Ana Paula Lisboa, Spartakus Santiago e Renê Silva, com mediação: Elisiane dos Santos e Valdirene Silva de Assis

Não é uma coincidência semântica o fato de as primeiras pessoas de uma família ou mesmo um bairro a trilharem o caminho do sucesso, usarem as próprias narrativas para ajudar suas irmãs e seus irmãos a rasgarem as cortinas da invisibilidade. Mais do que ninguém, elas sabem que a periferia precisa de referências.

16h. 40 anos de Cadernos Negros

Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa e Selma Maria, com mediação: Márcio Black

Poucas publicações podem se gabar de ser tão longeva quanto os Cadernos Negros, cuja primeira edição, há exatos 40 anos, tornou-se um marco tanto para a literatura brasileira quanto para o nosso movimento negro. Assinaram suas páginas autores relevantes como Conceição Evaristo e Éle Semog.

18h. E quando eles não admitem que são racistas?

Mame- Fatou Niang e Rokhaya Diallo, com mediação: Flávia Oliveira

Cidades como Londres, Paris e Berlim se veem como sociedades republicanas no sentido mais amplo da palavra, onde em tese todos teriam direitos e oportunidades iguais. Que narrativas podem ser criadas para desnudar o racismo dos países que se veem como democracias inclusivas e generosas, principalmente em meio à crise migratória atual?

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