110 Anos de Solano Trindade: Para não esquecer de seus poemas

Autor: Fellipe Torres Data da postagem: 13:00 24/07/2018 Visualizacões: 9719
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Os projetos da agência fomentam a produção cultural da periferia / Foto: Reprodução - Catraca Livre

Vinte anos após a abolição da escravatura, em 1908, nascia o recifense Francisco Solano Trindade, filho de sapateiro mulato e de doméstica cafuza. A despeito do sangue branco e indígena nas veias, não houve confusão a respeito da raça do menino. Cresceu ouvindo a zombaria:"Oh, meu Deus, matai o Solano. Este negro feio, de beiço grande". Era pobre e vivia em uma época difícil para os seus, mas foi capaz de contrariar o determinismo social e econômico para se revelar um ícone da cultura brasileira.

Autodidata, leitor compulsivo, rapidamente tornou-se respeitado por contemporâneos como Carlos Drummond de Andrade. Foi cineasta, pintor, ator de cinema, homem de teatro, militante e, sobretudo, poeta. Hoje, 44 anos depois de sua morte, a obra de Solano dificilmente é encontrada em bibliotecas ou livrarias. Um dos poucos sinais de sua existência é a estátua erguida no Pátio de São Pedro, Bairro de São José.

Foto: Alcione Ferreira - DP - D.A Press

A falta de informações foi percebida de perto pelo cineasta recifense Alessandro Guedes, autor do documentário Solano Trindade - 100 anos (2008). "Quem pesquisar no meio acadêmico vai encontrar pouquíssima coisa. Apenas dados fragmentados. Os livros não ganharam novas edições". Para o doutor em letras pela UFPE Élio Ferreira, é preciso fazer uma campanha para ressaltar o poeta. "Solano Trindade foi o grande defensor da cultura negra".

O fio condutor da multiplicidade artística de Solano foi a própria negritude, tema recorrente. Por meio da arte, denunciava discriminações e o racismo."Foi um novo ponto de vista, de um negro compartilhando as experiências e a identidade da raça, que fez surgir a 'literatura negra'", diz a pesquisadora Maria Robevânia Virgens.

Foto: Acervo Família Trindade - Divulgação

Solano é o equivalente brasileiro do poeta norte-americano Langston Hughes, segundo o professor Élio Ferreira. "São escritores centrais, importantes para a poesia da negritude. Mas enquanto Hughes é muito lembrado e respeitado, por aqui Solano Trindade é esquecido".As poesias de Solano estão repletas de referências aos ritmos, costumes, religiões africanas, além de mitos e lendas do povo negro. Ele foi pioneiro ao "ressignificar o ranger dos grilhões, gemidos, murmúrios e silêncios da senzala", acrescenta a doutora em teoria literária Silvana Maria Pantoja.

Conquistas:

Em Pernambuco, criou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileiro. No Rio Grande do Sul, o Grupo de Arte Popular. No Rio de Janeiro, o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, o I Congresso Afro-Brasileiro, o Teatro Experimental do Negro, Teatro Folclórico Brasileiro, o Teatro Popular Brasileiro e o grupo de dança Brasiliana.

Livros:

Poemas de uma vida simples (1944)

Seis tempos de poesia (1958)

Cantares ao meu povo (1961)

Poesia

Sou Negro (trecho)

Solano Trindade

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Foto: Acervo Família Trindade - Divulgação

Entrevista - Kleyton Pereira - pesquisador

Primeiro Contato

Quando li pela primeira vez alguns poemas de Solano me senti atraído pela forma como ele misturava uma poesia de excelente qualidade estética com um forte discurso de engajamento, denúncia e valorização do negro na cultura brasileira.

Afro ou Negra?

Atualmente, nos estudos literários brasileiros, há uma discussão bem delicada – e bastante acirrada – sobre a distinção entre a literatura afro-brasileira e a literatura negra. No entanto, considero que a particularização em termos de “negro” ou “afro”, apesar de excludente, servem para caracterizar uma determinada expressão artística e identidade cultural do povo brasileiro. 

Nesse sentido, Solano foi pioneiro em tratar de temas negligenciados na cultura e, de maneira especial, na literatura brasileira, subvertendo hierarquias, cânones, representações e significados de grupos até então silenciados. 

Assim, a literatura afro-brasileira, ou literatura negra, é aquela que, segundo a professora e pesquisadora Zilá Bernd, o sujeito enunciador assume sua condição negra no tecido poético, revogando o lugar tradicional onde o negro era o outro, objeto, e não sujeito.

Foto: Acervo Família Trindade - Divulgação

Contra Estereótipo

Na poesia de Solano Trindade, ficam evidentes os traços de um intelectual ativo interessado em fazer do seu trabalho um elemento decisivo na desconstrução dos estereótipos de passividade e submissão do negro, oriundos de um sistema de representação hegemônico.

Poemas como “Sou Negro”, “Conversa”, “Navio Negreiro”, “Quem tá gemendo”, “Canto dos Palmares”, entre inúmeros outros, resgatam a figura do negro na história social do Brasil, valorizando a identidade negra e sua contribuição para a cultura brasileira.

Outros Temas

Mas, apesar de ser o tema mais recorente em sua obra, sua poesia não se restringe à temática do negro. Nele é possível encontrarmos temas marcantes, como a miséria e as diferenças sociais, preocupações existenciais, a mulher, a cidade do Recife com seu cotidiano e a cultura popular, a metapoesia, entre outros.

Relevância

Solano não tem uma importância para a literatura apenas, mas para a cultura brasileira de maneira geral e, principalmente, em prol da consciência negra e a luta pelos direitos do negros no Brasil. Além de escritor, ele foi engajado em outras expressões artísticas, como o teatro, a dança e a pintura.

Foto: Acervo Família Trindade - Divulgação

Negritude Internacional

Solano é um dos fundadores da Frente Negra Pernambucana e do Centro de Cultura Afro-Brasileiro, órgãos que propunham, dentre alguns de seus objetivos, promover a inserção do negro na vida artística e cultural do país, incentivando pesquisas sobre a importância e as contribuições do negro na história do Brasil, bem como promovendo a divulgação de intelectuais e artistas negros da época.

Junto com Abdias Nascimento funda o Teatro Experimental do Negro, em 1945, no Rio de Janeiro. Além disso, fundou o Teatro Popular Brasileiro, iniciativa que contava com a ajuda de sua esposa Maria Margarida e do sociólogo Edison Carneiro e um elenco de atores formados principalmente por domésticas, operários e estudantes. Os espetáculos do TPB percorreram vários países da Europa.

Temas Poéticos

A poesia de Solano resgata histórias de luta e resistência que sempre correram à margem daquelas já conhecidas nos manuais de história, denuncia os problemas de sua época, exalta outras histórias e outros heróis. Sua voz lírica enfatiza um verdadeiro compromisso social de alterar o sistema de representação hegemônico.

Ou seja, para além de uma liberdade estética proposta pelos modernistas brasileiros, Solano fala de uma liberdade ét(n)ica e social, denunciando os problemas raciais e sociais do Brasil. Solano Trindade foi um divisor de águas na literatura e na cultura brasileira e, por causa dele, muitos escritores e intelectuais negros brasileiros surgiram num verdadeiro e constante movimento de fertilização e resgate dos marcos culturais afrodescendentes.

Foto: Acervo Família Trindade - Divulgação

Esquecimento

Solano é lembrado apenas em alguns círculos restritos e/ou em ocasiões comemorativas já bem demarcadas, como o Dia da Consciência Negra. Alguns ainda lembram de seus poemas durante a Abolição da Escravatura. Enfim, tudo contribui para a marginalização e o esquecimento de sua voz poética. Quem sabe, por exemplo, de quem é a imagem da estátua de um homem descalço, segurando um sino, que está lá num cantinho do Pátio de São Pedro?

Na Escola

Além disso, em quantos livros didáticos vemos os poemas de Solano Trindade? Pouquíssimos. Mas nunca faltam poemas de Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, entre inúmero outro autores. Não quero dizer que estes devam ser esquecidos. Muito pelo contrário: eles devem permanecer e aparecer cada vez mais nos livros didáticos. Mas outras vozes não podem ser esquecidas, vozes essas que representam a identidade cultural de boa parte da população brasileira.

Acredito que a escola deve propiciar um ambiente mais participativo e reflexivo em que os estudantes tenham não só acesso à literatura de Solano Trindade, mas também de qualquer outro autor que seja importante para a valorização da cultura e da literatura brasileira. É importante a realização de eventos, debates e discussões, rodas de leitura, pesquisas, excursões, diálogos transdisciplinares, para fomentar o conhecimento sobre autores afro-brasileiros e suas obras.

Interesse

Depois da década de 1980, com a consolidação dos Cadernos Negros, houve um grande interesse na poesia afro-brasileira e negra, principalmente por causa do advento dos Estudos Culturais e da discussão mais aberta sobre as identidades culturais.

Os Cadernos Negros foram uma coletânea de publicações que tiveram início no final da década de 1970 e que vinham preencher uma lacuna na produção editorial do Brasil e (cor)responder a uma demanda de leitura de obras de autores negros. Com isso, acredito que a obra de Solano Trindade ganhou novo público, sua poesia renovou forças.

Legislação

Outro motivo é a lei 10.639/2003 que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, assegurando o direito à igualdade de cidadania e de acesso aos bens culturais, bem como do reconhecimento da história e das culturas afrodescendentes no Brasil.

Não são todas as escolas que conseguem responder às demandas da Lei. Muitos professores não têm preparo para trabalhar com o conteúdo de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. O material sobre o tema também às vezes deixa muito a desejar, apesar de reconhecer os esforços de grupos, movimentos, organizações editoras e demais interessados.

Foto: Sennor Ramos - Interpoetica

Nos Sebos

Mesmo assim, os poemas de Solano Trindade têm se tornado conhecidos por constarem de alguns manuais de literatura e livros didáticos, mas principalmente pelo resgate de sua poesia através de várias antologias acessíveis em livrarias e sebos como: "Poema Antológicos de Solano Trindade", "Canto Negro" e "O Poeta do Povo".

Na Universidade

No espaço universitário, Solano é conhecido e estudado. Apesar disso, acredito que sua poesia ainda é menosprezada pela academia que prefere manter-se fiel ao cânone e às expressões de um discurso mais literário e menos panfletário.

Isso me parece ser fruto de um preconceito e de uma visão tradicional de literatura pautada na ideia de que a literariedade se esgota na organização intrínseca do texto. Talvez por isso ainda há poucos trabalhos relevantes em nível de mestrado e doutorado e isso é insuficiente para alguém tão importante e de uma poesia tão forte e bela como a de Solano Trindade.

Penso que isso deve servir de estímulo para que futuros acadêmicos se interessem pela obra dele e desenvolvam mais pesquisas sobre sua poesia.

Entrevista - pesquisadora Silvana Pantoja

Análise Literária

A poética de Solano Trindade extrapola as cercanias do social e abrange outras temáticas, como a da memória que perpassa o imaginário coletivo do povo africano. Ao (re)formular conteúdos da cultura negra, sua linguagem apresenta uma transitividade que vai do concebido ao registrado, por meio de performances, ora em forma de transbordamento no excesso de imagens; ora de maneira contida em que o texto se resume em poucas palavras rodopiando em torno de si; ora de modo fragmentado, cujos espaços tornam-se lacunosos, hesitantes, tudo isso em meio a um jogo de revelação e encobrimento na instauração de sentido.

Significado

Cumpre anunciar a presença de um Solano que ressignifica o ranger dos grilhões, gemidos, murmúrios e silêncios da senzala,mas sobretudo sua voz lança-se em forma de canto elegíaco aos ritmos africanos, alaridos e atabaques, além da exaltação de mitos e lendas do povo negro, numa espécie de visibilidade explícita permeada de uma visibilidade secreta.

O entrecruzar de memórias da ancestralidade negra na poética de Solano Trindade vai ao encontro de outras vozes, tecidas, compartilhadas, reintegradas e semeadas por campos diversos, anunciado e perpetuando a memória coletiva.

Entrevista - pesquisadora Robevânia Virgens

Gênese

A literatura negra passou a existir a partir do momento que o negro olha para si e passa a contar como negro suas experiências de vida, suas diferenças, sua identidade negra, e dessa forma fez Solano Trindade.

Identidade Negra

O negro era, e ainda é, marginalizado pelo cânone, porque ele não vive com naturalidade sua identidade, assim como o branco. E buscando por toda essa valorização identitária Solano se inseriu na memória coletiva da identidade negra, mais especificamente, no Brasil.

Resgate Histórico

A literatura é a busca do eu e do nós, por isso podemos definir a poesia negra como meio de resgate do que faz parte de nossa história, o que está inserido em nossa cultura. E exatamente isso foi o que Solano Trindade fez em toda a sua vida, como cidadão e como poeta literário.

Foto: Acervo Família Trindade - Divulgação

Versos São Armas

Solano fazia de seus versos armas para levantar as energias em combate por um mundo melhor. Além de cantar as dores, as alegrias e as espirações literárias afro-brasileira. Conseguiu fazer tudo isso mesmo tendo um conceito de que a poesia era inspiração ou à beleza ou à angústia. Sem perder a essência de sua poesia que está na ânsia da liberdade de seu povo negro.

Reconhecimento

Solano e sua obra deveriam ser bem mais reconhecidas, tamanho foi sua contribuição literária, histórica, cultural e humana não somente para Pernambuco mas também para o Brasil.

Infelizmente, o preconceito racial leva a baixa divulgação dos autores da literatura negra que deveriam estar no cânone. Não que tais obras tenham que ser divulgadas porque foram escritas por não brancos, mas por terem qualidades literárias, e principalmente por serem constituídas por pontos culturais marcantes.

Desafio Para Bibliotecas...

É preciso que as escolas e universidades enriqueçam um pouco mais suas bibliotecas com referências da cultura negra, e da literatura negra, permitindo mais idealização e conhecimento para um povo pluricultural como o nosso.

Depoimentos Históricos

“Gosto de imaginá-lo como o ‘grande avô’ da negritude brasileira em todas as suas expressões culturais. Solano transformou as relações raciais do seu tempo, abrindo caminho para o ‘orgulho de ser negro’”. Valdemilton França (1955-2007), poeta pernambucano.

"Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva." Carlos Drumond de Andrade (1902-1987), em carta a Solano, 1944.

"O senhor faz dos seus versos uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor." Roger Bastides (1898-1974), sociólogo francês, tradutor de Casa-Grande e senzala.

"O Teatro Experimental do Negro funcionou como um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação". Darcy Ribeiro (1922-1997), em 1985.

"Era um intelectual de intensa participação e tinha consciência de que poucos países desenvolvem uma política racista tão bem camuflada quanto o nosso." José Louzeiro (1932-), escritor.

"…incansável em sua atividade, poucos fizeram tanto quanto ele pelo ideal da valorização do negro" Sérgio Milliet (1898-1966), poeta e crítico.

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