Pantera Negra: Uma utopia no auge do cinema distópico

Autor: Tomaz Amorim Data da postagem: 19:00 09/02/2018 Visualizacões: 248
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Pantera Negra: Uma utopia no auge do cinema distópico / Foto: Reprodução - Revista Fórum

A Fórum já assistiu o filme do Pantera Negra! Confira a crítica de Tomaz Amorim e não se preocupe, a sessão com spoilers está bem identificada na segunda parte do texto

Algumas contradições não exigem solução imediata, apenas reconhecimento. Por um lado, é evidente que o mercado percebeu a pequena ascensão de grupos até então excluídos como consumidores em potencial e se lança assim em uma sanha produtiva e exploratória com todo tipo de produtos especializados dentro da lógica mais vulgar: “identidade” = “nicho de mercado”. Por outro, é evidente que esta ascensão é fruto de pressão e lutas populares dos mais variados tipos e que, ainda que não fosse, sendo o mundo ainda o mundo da mercadoria, o impacto psicológico e moral que a criação de produtos materiais e imateriais voltados para estes grupos até então invisibilizados é gigantesco com implicações políticas ainda a serem compreendidas – em uma palavra: representatividade. De produtos para cabelos crespos, passando por bonecas negras, Miss Brasil negras, chegando no filme do Pantera Negra – finalmente heróis e heroínas com rostos parecidos aos da maior parte das crianças brasileiras.

Não reconhecer os dois lados desta contradição é recair num mesmo erro: ingenuidade. Esperar o inesperado no contraditório é uma lição que o personagem Pantera Negra já traz no nome: primeiro herói negro com superpoderes nos quadrinhos, criado por um homem branco em 1966, antecipando em poucos meses a organização socialista que mudaria a história da luta negra nos EUA, os Panteras Negras. Emicida, que lançou um RAP há poucos dias para celebrar o filme do Pantera Negra, escreve: “Agora em mi laje, ela Dora Milaje / Brota na base, bem Nicki Minaj, ora é miragem / Jato Mirage, voos altos, Sr. Spock / Bonde igual Lanterna Verde, tô bem Super Choque / Prum novo mar vermelho / Uma nova travessia / Pro povo ter reis no espelho / Minha caneta cria”.

O Pantera Negra, a ser lançado em 15 de Fevereiro, é o melhor filme do universo cinematográfico da Marvel até agora. Seu enredo é bem amarrado, seus personagens são cativantes e os atores excelentes. As dificuldades que o filme enfrentou desde sua concepção e que cumpriu com louvor já são o bastante para assegurar para ele um espaço de destaque na história do cinema comercial. O Pantera Negra racializou de maneira inteligente e inovadora não apenas o cenário dos super-heróis, mas a própria produção de filmes deste tipo, enriquecendo estes já cansados contextos. Trata-se de um feito histórico: um jovem e talentoso diretor negro, dirigiu uma equipe de produtores e atores majoritariamente negra em um filme futurista de alto custo sobre um local ficcional na África. O sucesso do filme certamente abrirá inúmeras portas para profissionais e projetos que até então estavam segregados a tipos específicos de filme. Para além disso, o filme em si aceita e leva esta pesada responsabilidade com leveza impressionante.

Politicamente, o Pantera Negra retoma a potência que algumas histórias dos X-Men tinham nos quadrinhos e que “Capitão América: Guerra Civil” falhou em trazer para o cinema. Com o avanço no debate público sobre questões de classe, gênero e raça, no entanto, e com a ampliação do público que consome filmes de super-herói, o Pantera Negra pôde ser mais direto. O conflito racial que antes aparecia disfarçado ou metaforizado nos “mutantes” de X-Men aparecem localizados geográfica e historicamente no Pantera Negra.

O reino africano super tecnológico de Wakanda não é exótico, é exuberante. Wakanda não é vista de fora, como um enfeite ou fruta de outra terra, não é uma caricatura a partir da visão branca e colonial sobre o que a África é ou pode ser. Wakanda se mostra por dentro, a partir de sua história e de seus povos. Suas línguas, suas danças, roupas e rituais, tudo parece pertencer a um todo coeso e cheio de sentido (ao contrário, para usar um exemplo do mesmo universo, da Asgard, reino futurístico dos deuses nórdicos dos filmes do Thor, que parece apenas um cenário colorido onde se desenrola a história do deus). A arquitetura, a cenografia, os figurinos, tudo foi pensado a partir de tradições africanas existentes, até mesmo na luta, tão importante para um filme de ação, em que são usadas armas e estilos de matriz africana. O Pantera também usa golpes de capoeira!

A trilha sonora mistura a orquestração romântica e desinteressante dos filmes de aventura com uma surpreendente música africana contemporânea – momentos de percussão pura, outros apenas com vozes, outros com a inconfundível música do Mali. Nas cenas de perseguição fora de África, RAP americano conduzido por ninguém menos que Kendrick Lamar. Abaixo o primeiro clipe da trilha sonora oficial:

O filme conseguiu, através de pesquisa e reinvenção a partir dos elementos africanos, criar um cenário ao mesmo tempo fantástico e reconhecível, incrível, mas também crível, com o qual se pode agora sonhar, da mesma maneira com que o Ocidente sonhou com a literatura e o cinema de ficção científica no século XX. O Pantera Negra ousa sonhar um futuro para um continente que foi relegado exclusivamente ao passado durante séculos de epistemologia eurocêntrica.

A partir daqui, existem algumas revelações genéricas do enredo. Spoiler alert!

Embora o personagem principal e o ator Chadwick Boseman convençam, o destaque das personagens e das atuações fica com o elenco feminino. Guerreiras, espiãs, rainhas e cientistas, as mulheres de Wakanda são tão ou mais fundamentais para a manutenção do reino e por suas políticas quanto o jovem rei. Elas não estão reduzidas ao papel comum de conselheiras, carpideiras ou sacerdotisas. (O sacerdócio, aliás, é feito brilhantemente por Forest Whitaker que traz algo da placidez mística de seu Ghost Dog). O enredo não deixa dúvida de que sem seu suporte e orientação, T’Challa não poderia cumprir a tarefa de manter Wakanda em segurança. É refrescante ver atrizes negras de tão alto nível como Lupita Nyong’o tão à vontade em seus papéis. No momento em que a rainha oferece o manto do Pantera à jovem espiã, o espectador quase torce para que T’Challa não retorne e ela encarne a nova Pantera. A elegância de Danai Gurira no papel da chefe da guarda real das Dora Milaje, Okoye, faz empalidecer outras mulheres guerreiras do mundo cinematográfico da Marvel, como a desencontrada Viúva Negra que, apesar de Scarlett Johansson, nunca teve espaço o bastante nos roteiros para se tornar uma personagem de profundidade. Wakanda cativa tanto porque cada personagem ajuda a apresentar um dos seus aspectos – a vida rural na fronteira, as tribos isoladas nas montanhas, o laboratório tecnológico, a vida de corte, as missões no exterior e o exército. Sobretudo as três atrizes principais ajudam a estruturar esses espaços.

Grace Jones, citada no filme, é uma de suas referências estéticas

O jovem diretor Ryan Coogler teve a ousadia de representar a África como solução para o mundo e não como problema a ser resolvido. As cidades de Wakanda não são futuristas no sentido corrente, como as distopias que têm infestado os cinemas nos últimos dez anos, cheias de torres de vidro, ruas escuras iluminadas apenas por neon e sem rastro nenhum de natureza. O futuro que Wakanda ousa apresentar é um em que técnica e natureza se misturam em benefício mútuo, aliás, quase já não se distinguem. O desenvolvimento técnico não abole a tradição, mas realiza seus sonhos. As torres de vidro são entrecruzadas por ruas de terra onde pessoas trocam legumes em uma feira parecida com as de qualquer povoado rural do mundo. O beijo do casal real quando se dá (finalmente!) é em uma viela cujas paredes estão adornadas de grafites coloridos. Os pacíficos rinocerontes são armas de guerra disfarçadas que ao menor contato voltam a ser animais de estimação. Os fazendeiros que cuidam das fronteiras e dos animais não são pobres, isolados do progresso do centro, mas profundamente satisfeitos e tão integrados na sociedade quanto os trens que levitam sobre suas ruas. O laboratório da cientista com suas escadas circulares e suas colunas é como um totem de onde a jovem cientista sonha invenções para servir à comunidade junto com a terra de onde o mineral é extraído na medida necessária. Ela explica para o branco que não se trata de magia, mas de tecnologia.

Ainda assim, não se trata “apenas” de tecnologia no sentido conhecido. A relação que os habitantes de Wakanda têm com sua terra e com o misterioso mineral “vibranium” não é a da exploração instrumental. A terra é colocada à serviço do bem social, mas este bem social também é parte da terra. O afrofuturismo de Wakanda mostra o quão enganada está a crença europeia vigente de que tecnologia e natureza são opostas. Se a epistemologia ocidental levou à transformação da tecnologia em uma segunda natureza – ainda mais assustadora e imprevisível do que a primeira -, se as utopias fundadas nessa epistemologias e descritas por Thomas Morus e François Fourier terminaram em Black Mirror e Cyberpunk, talvez as outras epistemologias – todas as outras que seguem resistindo – possam oferecer algo que se tem chamado na internet recentemente de Solarpunk e que os diversos movimentos libertários do globo seguem tentando pensar e realizar em nível global, mas a partir da própria terra.

A potência do afrofuturismo de Pantera Negra está em tirar a África e a questão negra de seu lugar costumeiro de mera vítima. A catástrofe histórica que foi o colonialismo, o tráfico negreiro e que continua sendo o racismo institucionalizado, que reina em países com grandes populações da diáspora negra como o Brasil e os Estados Unidos, não é relativizada, pelo contrário, é focalizada, mas a posição negra de onde o filme olha a questão é de agência. O conflito do enredo está no potencial de Wakanda, no que Wakana pode oferecer ao resto do mundo e não apenas no que foi tomado dela. Killmonger exige que Wakanda ofereça mais, Nakia quer que Wakanda ofereça mais. A pergunta irônica que o embaixador francês faz no fim do filme ecoa a ousadia desta representação, deste sonho otimista: “O que pode um reino africano oferecer ao resto do mundo?” O que os povos e grupos que não foram ainda completamente apropriados pela expansão europeia e capitalista têm a oferecer como solução ao mundo à beira de tantas crises: climáticas, econômicas, políticas e bélicas?

São três as possibilidades de ação em conflito no filme: a conservadora, representada pelo antigo rei; a reformista, representada por Nakia; e a revolucionária, representada sintomaticamente pelo vilão Killmonger. (É conhecida a comparação entre as ideias políticas de Martin Luther King e Malcolm X com, respectivamente, o Professor Xavier e o Magneto dos X-Men. Em Pantera Negra este velho conflito é retomado). Entre estas posições, o filme alcança profundidades inesperadas para o gênero de super-heróis porque o velho maniqueísmo, a luta do bem contra o mal, é complexificado e historicizado. O espectador mais crítico poderá até se perguntar em algum momento quem é o verdadeiro herói e quem é o vilão. Se o rei T’Challa, conservador que quer manter os privilégios do vibranium em Wakanda, ou se o revolucionário Killmonger, que quer compartilhar as armas e tecnologias com os povos oprimidos do mundo. Se o filme tenta depois escapar desta ambivalência, reforçando a personalidade violenta e ambiciosa de Killmonger, e mostrando uma tendência mais progressista de T’Challa, é difícil não se identificar com a legitimidade de sua causa e de seu comprometimento. Sua fala final entra para a história dos vilões mais cativantes da história dos super-heróis e é um rasgo de realismo tão grande que fará sair pensativo o mais “a-político” dos espectadores: “Jogue o meu corpo no oceano. Como todos os meus ancestrais que pularam dos barcos porque sabiam que a morte era melhor do que o cativeiro”.

Nada do passado colonial é esquecido ou perdoado, mas na medida em que os problemas mudam as soluções também. Ao refletir sobre a responsabilidade diante da tragédia própria e alheia, aliás, da tragédia comum de um mundo cada vez mais próximo (como os diversos personagens repetem a todo momento), fala tanto dos povos do terceiro mundo quanto do primeiro. O filme fala de uma perspectiva negra, mas para o mundo todo: é preciso “sair das sombras” e agir. A crise de refugiados é problema global e a solução – em recado claro para Donald Trump – são as pontes e não os muros, como diz o rei de Wakanda para as Nações Unidas nas cenas finais. O filme não deixa dúvidas de que o vilão Killmonger é fruto do colonialismo e do racismo institucional, mas também da apatia de Wakanda através dos séculos, ecoando as palavras célebres de Desmond Tutu: “Se você fica neutro em uma situação de injustiça, você já escolheu o lado do opressor”.

A quem se dirige metaforicamente então o Pantera Negra? Quem seriam esses privilegiados do terceiro mundo que poderiam salvar seus iguais? Celebridades? Atletas? Burguesias nacionais? Heróis do povo? Parece que todos e nenhum. O filme parece, mais do que oferecer equivalências exatas, fazer um convite para abandonar a dualidade pobre das posições de “mártir-vítima” e “pecador-opressor” (tão típicas do pensamento cristão-ocidental) e buscar o que cada um, cada grupo, pode fazer dentro do seu espectro de ação. Vence assim, de alguma forma, o reformismo que Nakia defendia, a partir da ação de Killmonger que, acertados ou não seus meios, tiraram Wakanda de seu isolamento privilegiado e chamaram o reino para sua responsabilidade comum diante do mundo.

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