Kuarup luz melodia, o Sol não adivinha no coração do Brasil

Autor: Helio Carlos Mello Data da postagem: 12:00 11/08/2017 Visualizacões: 121
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Kuarup luz melodia, o Sol não adivinha no coração do Brasil / Foto: Reprodução - Jornalistas Livres

Ensaio entre o rito

As cinzas do professor voaram sobre o ar da floresta e os rios que correm para o norte. Ao pó voltou sobre as árvores e águas, em ciência, legado e legitimidade. Fertiliza e aprimora. Elemento terra, telúrico, aquele que tem luz e salva, enfim.

Ao grande Xingu silencia a dor após o Kuarup realizado para o mestre e seus dois companheiros de luto e lamentos: uma criança e uma mulher Kamaiurá também seguiram configurados em tronco adornado, a representarem as dores de muitos, em ritual tão complexo de homenagem aos mortos, realizado na aldeia Kaimaiurá de Ipavu, na primeira semana de agosto.

eria então a festa do Kuarup uma louvação à vida? Num certo sentido sim,  afirma a antropóloga Carmen Junqueira,  que aponta a complexidade desse ritual na tradição dos povos do Alto Xingu  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142009000100010 ,aqui disponível para leitura.

Eu me atenho ao encontro das etnias e os convidados das cidades. Entre eles muitos médicos e profissionais da Escola Paulista de Medicina, contemporâneos do médico Roberto Baruzzi, fundador do Projeto Xingu, programa de extensão universitária da faculdade de medicina da UNIFESP, no campus da cidade de São Paulo  http://www.projetoxingu.unifesp.br/cms/  . Dr. Baruzzi foi desses homens fundamentais para Terra Indígena do Xingu, como Orlando Villas Boas ou Noel Nutels. Encerra-se um ciclo de valiosos legados à todas etnias do país. 

Foram dias claros e a luz da noite finalizou seu rito em lua cheia sobre a aldeia na madrugada fria. Finalmente estamos sós e os mortos encontram seu caminho. A vida é imensa e muitos braços a envolvem e conduzem o ciclo, descubro no ritual.

A noite. A lua que era prata se põe imensa como uma uma laranja cortada ao sumo, e afunda na lagoa Ipavu, anunciando o dia que raia, enquanto sol nasce no lado oposto da grande lagoa. Tudo se tinge de dourado no horizonte, tudo tão simples e natural como com índios aprendo sempre e descubro mais.

Vejo a luta que, agora entre os homens, após todo o choro e cantos da noite, significa entre golpes precisos o ciclo renovado. Huka Huka,  a luta desafia em dança e avança o rito, a relação entre as etnias, entre vida e morte. Não estamos tão sós como pensávamos, muitos são os que chegam e se somam à paisagem em multidão.

Já foram muitos os dias, por semanas e semanas, em que as flautas tocam aos espíritos e anunciam o fim da reclusão de muitas jovens; a vida nova se abre ao rítmo da alma que parte e renasce em futuros casamentos das moças claras, branquinhas, que agora ao sol se expõem após longo período de guarda e aprendizados.

Incrível descoberta de nova plataforma fazem os indígenas em suas pinturas corporais, adornos e propostas, trazendo muitas vezes mensagens à sociedade envolvente. Mundo lindo entre a dor, libertação e condução das almas entre os espíritos que circulam entre todos, quando a realidade transcende a fantasia. Tudo desafia e renova entre canto e dança, força e coragem. Os povos originários alertam que a vida e as atitudes devem prevalecer entre políticas espúrias dos últimos anos destacadas entre tantas manchetes nos jornais e rede.

Nenhum direito a menos é o som que fazem as maracas sagradas e seus cantores. Zum zum na madrugada, vida que segue e afirma.

Tudo finda e volto para a cidade, equilibrista e bêbado de tantos cantos. Descubro que outros tantos aqui morreram, entre eles o músico Luiz Melodia. Ah, a vida. Entre tantos é a música brasileira uma grande aliada dos povos indígenas e todos em arte e vigor afirmam sei bem: aqui todo dia é dia de índio.

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