Mestre King é homenageado em documentário e coreografias

Autor: Redação Correio Nagô Data da postagem: 18:00 18/07/2016 Visualizacões: 782
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Mestre King_Divulgação

Dirigido pelo bailarino e coreografo Bruno de Jesus, filme homenageia um dos criadores da dança afro-brasileira

O legado deixado pelo precursor da dança afro na Bahia e no Brasil é o ponto de partida do filmeRaimundos: Mestre King e as figuras masculinas da dança na Bahia, documentário dirigido pelo bailarino e coreógrafo Bruno de Jesus, com roteiro de Gabriel Ormuz Machado e produção de Inah Irenam.  A exibição de lançamento do filme acontecerá no dia 14 de julho, às 20h30, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, com entrada franca. Durante todo fim de semana uma programação de espetáculos de artistas da dança, influenciados por Mestre King, ocupará o Teatro Gregório de Matos: no dia 14 de julho, o solo Negrume, da Cia Balé Baião – CE, com o artista Viana Junior e no dia 15 de julho, Raimundos, coreografia de Bruno de Jesus, que homenageia o precursor das danças afro-brasileiras e encerrando a programação no sábado, dia 16, Da própria pele, não há quem fuja, da ExperimentandoNUS Cia. de Dança. As apresentações de dança terão ingressos no valor de R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia entrada). Após as apresentações de dança, o público poderá conferir ao documentário, que será apresentado em seguida (confira a programação completa abaixo).

Raimundo Bispo dos Santos, conhecido como Mestre King, foi o primeiro homem negro formado pela Escola de Dança da UFBA, tendo ingressado em 1971. O artista formou os principais nomes da dança afro-brasileira na Bahia, tais como Zebrinha, Paco Gomes, Armando Pequeno, Augusto Omolu e tantos outros.

Baiano de Santa Inês, nascido em 1943, King conheceu a dança já adulto, após prestar serviço militar e uma temporada na Marinha do Brasil. Ao integrar o Coral do Mosteiro de São Bento por dez anos, a curiosidade pelas artes foi desperta, primeiro pela música, depois pela capoeira até chegar na dança. A percussão aproximou o artista do grupo Olodumare, onde teve seu primeiro contato com a dança e desejo de aprofundar o conhecimento. Assim, em 1971 prestou vestibular para Escola de Dança da UFBA, destacando-se como o primeiro homem negro a ingressar no curso, que tinha uma maior presença de mulheres, brancas em sua maioria. Em paralelo, a música o levou para frequentar os terreiros do candomblé, onde percebeu a riqueza dos movimentos dos orixás. O resultado disso foi que King desenvolveu um método que mistura elementos de danças folclóricas e populares brasileiras com as dos orixás do Candomblé, que resultou na dança afrobrasileira.

Mestre King_Divulgação

Mestre King_Divulgação

“Eu observava os movimentos e pensava em levar isso para dentro das minhas aulas. Aos poucos fui copiando o que via e trazendo para fora dos terreiros. O que sem dúvida, foi uma ousadia, pois muitas danças eram fechadas do ambiente do candomblé e minha atitude recebeu várias críticas naquele momento, mas também muita receptividade. Muitas vezes, a dança e a música colocavam os alunos em transe e eu tinha que dizer…pera lá” recorda-se King, que acabou contribuindo para difusão da cultura afro-brasileira, conquistando adeptos de todo o Brasil e fora dele, além de revelar a beleza dos cultos ancestrais.

O coreógrafo é considerado uma das maiores autoridades em tradições da música e dança afro – brasileiras, já tendo criado mais de 100 coreografias e dividiu seu conhecimento em diversos países do mundo, dando aulas em universidades nos Estados Unidos e na Europa. Como professor do Sesc Bahia, na unidade do bairro de Nazaré, King formou gerações de bailarinos e ainda hoje, aos sábados, dá aulas gratuitas na Escola de Dança da UFBA, ainda propiciando que jovens dançarinos possam ter contato com o Mestre.

Aula de Mestre King_Foto: André Frutuoso

Aula de Mestre King_Foto: André Frutuoso

Gerações de bailarinos - O documentário Raimundos: Mestre King e as figuras masculinas da dança na Bahia traz entrevistas com pessoas próximas Jorge Silva, Anderson Rodrigo, Luiz Deveza, Matias Santiago, Ricardo Costa, Gabi Guedes, Amilton Lino, Carlos Pereira Neguinho, Anilson Neto, Zé Ricardo, Paco Gomes, Luiz Bokanha, Fábio Alexandro, Felipe Alex Santos, Clyde Morgan, além de buscar registrar seu corpo que ainda dança e guarda a memória de anos de conhecimento construído.

Para o diretor Bruno de Jesus, o documentário possibilita enxergar o legado do artista nos corpos dos seus alunos, formando gerações de bailarinos, que se dedicaram à dança afro e são representantes desta arte mundo afora. O filme nasceu durante o processo de realização do espetáculo coreográficoRaimundos, lançado na comemoração dos 50 anos de palco do mestre. A escolha foi por ouvir homens bailarinos, todos negros e que deram continuidade ao legado de King. Entre eles Zebrinha, coreógrafo do Balé Folclórico da Bahia e do Bando de Teatro Olodum. “A partir de King, a gente começou a vislumbrar a arte negra no mundo. Aprendi com King que minha erudição é africana e essa erudição passa pelos atabaques”, afirma Zebrinha, 62 anos. “King faz parte da memória da arte desse país, da memória educacional e até da memória revolucionária negra. Sou formado em pedagogia, tenho mestrado em educação, mas minha grande referência artística e educacional é King. O cara é genial”, completa em entrevista ao jornal Correio* o aluno do Mestre King que hoje, entre outros trabalhos, é responsável também  pela coreografia da série Mr. Brau, com Lázaro Ramos e Taís Araújo.

Formado pela Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia FUNCEB (2010) e Licenciado em Dança na Universidade Federal da Bahia (2015), Bruno de Jesus é diretor e coreógrafo da ExperimentandoNUS Cia. De Dança a qual fundou em 2008 com mais de cinco espetáculos em seu repertorio. “Celebrar 50 anos de carreira do Mestre King, é celebrar a história da dança na Bahia. Falar dele é falar da gente, da nossa memória, da nossa ancestralidade. A dança como filosofia dela mesma, isso que tento transbordar com o espetáculo Raimundos, assinar dirigir, coreografar e dançar este espetáculo me emociona, me faz refletir” explica Bruno. Para o artista, a exaltação da memória viva de King é “perceber a importância das figuras masculinas na dança baiana, atravessar gerações com desdobramentos da formação das danças de matrizes brasileiras e mergulhar e construir historias e movimentos e poesias. Esse lugar do espetáculo me leva para outros lugares, de transformação. A dança gerando potencias políticas em sua comunicação corpo e poesia”.

Espetáculo Raimundos_Foto: Tiago Lima

Espetáculo Raimundos_Foto: Tiago Lima

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