KATIARA: “NOSSO LEMA É SE FORMAR PARA FORMAR”

Autor: Texto: DJ Cortecertu*, do Bocada Forte Data da postagem: 15:00 10/10/2015 Visualizacões: 680
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Fotos: Amanda Lopes/Bocada Forte

O hip hop tem grande parte de sua história construída na base. Pessoas como Katiara, do coletivo Kilombagem, seguem numa luta que nem sempre é compreendida pelos próprios integrantes da cultura de rua e, principalmente, do rap. Questões como o combate ao racismo e a política de genocídio da juventude negra estão vivas no nosso cotidiano, mas não trazem o glamour e a luz pop que a grande mídia gosta de propagar quando o assunto é o novo rap. Mas sem a base, sem o trabalho da ala militante, o que o hip hop teria conquistado?

De forma contundente, em entrevista ao Bocada Forte, Katiara aborda temas importantes, como o machismo no hip hop:“O fato do mano passar veneno não pode justificar violência física e ou psicológica à sua companheira e depois vir falar de revolução em seus raps, isso é hipocrisia”, afirma a militante e MC. O protagonismo da mulher negra também é tratado na entrevista. Para Katiara, “a mulher negra, vítima do racismo e do patriarcado, é também quem autodetermina sua história à fim de superar essa diferenciação”. Leia abaixo a íntegra desta entrevista:

Bocada Forte: Ser militante e abordar questões políticas no hip hop é sinal de resistência dentro da nossa própria cultura hoje em dia. Há falta de conhecimento da maioria ou falta de interesse?
Katiara: Vivemos num período muito difícil, de avanço das forças produtivas e recrudescimento da classe trabalhadora, onde os valores individualistas entre outras ideias burguesas têm contribuído pra desmobilizar e ao mesmo tempo enfraquecer a luta de classes, porque essas ideias vêm acompanhadas de um discurso do fim das classes, do fim da história, (reforçando o mito da meritocracia) e o que é muito grave: pensar que a humanidade desistiu de evoluir. Essa é uma teoria que devemos combater bem como apontar na realidade as possibilidades de transformação dessa sociabilidade.

Há um pouco das duas coisas, mas acima de tudo uma ideia de que o hip hop é qualquer coisa, lazer, diversão, liberdade de expressão, mas não luta política, que é a grande perda pós década de 90 no Brasil, que tantos militantes saúdam. É preciso retomar a história do hip hop pra identificar como surge este movimento que tinha por objetivo denunciar o racismo, a desigualdade e as injustiças contra o povo pobre do gueto norte-americano, impulsionado pela reinvindicação pelo fim da Guerra no Vietnã, nos EUA, pra relembrar que nosso povo sempre lutou de diversas formas. O hip hop é uma dessas dentre as mais variadas armas. A raiz do hip hop é a luta combativa a partir das ferramentas do graffiti, rap, break e da discotecagem. Pra qualquer uma delas, exige vivência, pesquisa e identidade.

Infelizmente acredito que cresce muito rápido essa ideia do rap-lazer, as batalhas são interessantes, aglomera, ocupa a cidade (como a batalha de quarta feira na pista de skate em Mauá ou a Batalha da Matrix numa praça central em São Bernardo, que resiste às perseguições nos espaços que ocupam). Já nas gravações, percebo que a poesia que comunica e rema contra a maré fica em segundo plano e a batida e o flow passam a ser o critério de estética do rap. Mas também acredito que ainda não está generalizado esse enfraquecimento, temos uns guerreiros e guerreiras que representam, tentando unir tudo, como diz o lema dos MCs, monstros, da banca Audácia “Amor, Ideologia e Técnica”, ou como por exemplo Ba Kimbuta e Banda Makomba, MC Marechal, Eduardo Taddeo, Sankofa e Luana Hansen dentre outros, porém ainda pouco conhecidos, porque está cada dia mais elitizado o uso dessas ferramentas, com maior participação da classe média que não se importa em denunciar a violência policial ou as condições precarizadas de vida, porque estão vivendo outras fitas. Mas é isso, o tempo que vivemos são tempos mais difícieis, e muitos querem fazer rap pra pagar contas, suave, mas infelizmente tende a seguir às demandas de mercado, diferente de quando se trata de um rap muito politizado, não vai ser aceito pelo mercado, que absorve alguns dos nossos, e esse processo de cooptação sempre existiu.

Quando não matam grandes guerreiros, como caso do DJ Lah, de São Paulo, Rapper Nego Blue, militante da Campanha “Reaja” (Salvador), assassinados pela PM, também vemos casos como MV Bill, escancaradamente à serviço do mercado (como foi com Thaíde) e agora talvez com Emicida, pra diversificar e eleito pro mercado o rap mais rebelde que MV Bill pra que essas mídias à serviço de mercado confirme o mito da democracia racial nesse processo de cooptação e é pra isso que ela serve: enfraquecer a luta.

Mas não desanimo, não totalmente, porque os inspiradores, os mestres, como Sabotage  sintetizou num refrão a frase extremamente política ao afirmar “O rap é compromisso, não é viagem…” , e pelo rap e sua história de vida, foi salvo e salvou do mundo frio, eu e muita gente, como diz a MC Amanda NegraSim.

Impossível não me identificar com suas histórias, narrativas e poesias, desses artistas acima citados pois ser negro no Brasil, implica em enfrentar no cotidiano, o peso do racismo como a violência mais sutil. Seria perfeito unir a paixão com a rebeldia pra comunicar,  pra fazer agitar e pensar, se divertir e lutar, porque não? Ba Kimbuta faz isso e com aprimoramento de rimar em qualquer levada, para além do rap. Escutem Universo Preto Paralelo e me digam se não é uma pesquisa “africana favelada” de altíssima qualidade musical, poética e politicamente falando.

Bocada Forte: Mesmo sabendo que muitos lutam por justiça no hip hop, já se sentiu sozinha, fraca e com vontade de jogar tudo pro alto?

Katiara: Nessa babilônia todo mundo se sente às vezes só na multidão, mas nunca desisti, pois não ando só. Minha banca é minha família, meu coletivo, Kilombagem, a fortaleza teórico-política e ideológica e afetiva também. Mas sim, diante de tantos retrocessos, às vezes passa pela cabeça em desistir, principalmente quando a minha mãe fala que a militância num paga às contas ou principalmente me deparo com às contradições graves no movimento social, geralmente político partidário e especialmente governista, ou MCs e militantes machistas justificando suas atitudes sem auto-crítica. Desanima demais.

De fato, militância num paga conta mesmo, mas conhecimento, experiência, solidariedade e amizade são coisas que não tem preço, né? Eu penso que é melhor morrer lutando de pé do que viver de joelhos, diria Zapatta. Várias fitas desanimam, aquele rap, trilogia com a participação da rimadora monstra que é a Camila na letra “Estilo vagabundo”, do Mv Bill, me fez pensar o quão atrás estamos de um passo em desconstruir na periferia a visão socialmente construída de mulher, que o machismo mata todos os dias e de várias formas, e a maior parte delas é repudiável, em termos de estatísticas por exemplo, a violência doméstica, o estupro, assassinato com caráter passional é muito alto nesse país, e onde mais morre gente são nas regiões periféricas das cidades, não dá pra não reconhecer o talento dos dois rimando, o beat, mas não inspira ninguém a refletir sobre a violência patriarcal, que também penso que atinge os homens negativamente.

Mesmo diante disso, me anima ouvir uns raps combativos, como do Eduardo Taddeo (ex, Facção) e seu álbum duplo, que é um clamor de justiça da periferia, uma obra genial, me identifiquei muito;  os grafites da feminista Ana Clara ou do OPNI, as técnicas desenvolvidas baseadas numa história de vida de autodidata, como o DJ Crick ,do Studio Kasa, dentre tantos outros DJs, b.boys e b.girls. Enfim, dá um gás quando a energia está acabando e nos deparamos com pessoas brilhantes e que acredita nessa transformação. Por isso que sempre estou na luta, pra não esmorecer de vez, agente se renova com os nossos. Um princípio africano explica isso com uma palavra: UBUNTU. Significa “sou porque somos”.


Bocada Forte: Poderia falar um pouco sobre a atuação do Kilombagem?
Katiara: O coletivo Kilombagem existe desde 2005, quando já era uma posse de hip hop, depois se reestuturou e se tornou um coletivo negro de esquerda, após o fim do grupo Rotação, que atuava na região do  Grande ABC. A palavra “Kilombagem” significa práticas libertárias ou de resistência à escravidão, explicado por Clóvis Moura em “Rebeliões da Senzala”, na categoria “A quilombagem” (que acho que todo brasileiro deve ler pra não chamar nossos ancestrais de escravos, porque trata-se de africanos que foram escravizados, diria akota Vadina, e é escrito com “K” porque remetemos à escrita em kimbundo.

Estou centralizada no Kilombagem desde 2006. De lá pra cá, eu e meus manos e manas viemos discutindo o mundo em grupos de estudos, produzindo arte e atuando em frentes de luta, uma delas foi o fortalecimento e articulação em São Paulo, da Campanha “Reaja ou Será Morto”, da organização Quilombo Xis da Bahia, pra denunciar a política genocida de Estado contra a população negra, outras intervenções diretas com apoio e participação em lutas populares, promovemos cursos sobre panafricanismo, racismo, luta de classes, gênero e masculinidade negra.

No ano de 2013, no Núcleo de Consciência Negra da USP, foi um espaço que realizamos algumas dessas ações pra fortalecer o coletivo e realizamos mini-curso sobre racismo para advogados da defensoria pública de São Paulo, formação para professores da rede pública em 2012, em Santo André, e apoiamos o espaço de resistência do Samba de Terreiro de Mauá, do Espaço Cultural Dona Leonor, que possui um bloco afro que homenageia líderes negros e revoltas anti-escravistas em seus temas, divulgando e colando nas ações pra fortalecer a caminhada.

No âmbito das formações (em que acreditamos que é uma forma de combater o tarefismo ou praticismo, que transforma o militante em tarefeiro e sem estratégia de ação),  divulgamos idéias revolucionárias que vão ao encontro da perspectiva da emancipação humana, buscando entender as determinações do racismo, do patriarcado e da propriedade privada. O nosso lema resume a proposta: “se formar para formar”! É uma organização negra, formada por homens e mulheres, que objetiva divulgar ideias revolucionárias em todos espaços de atuação, na pesquisa e na intervenção artística e política, para subsidiar ações de transformação da realidade justamente por acreditarmos que o conhecimento de nada serve se não acompanha a prática, bem como o contrário também não. Já dizia Steve Biko “a maior arma do opressor é a mente do oprimido”, e a descolonização mental é a cota pra essa luta avançar.


Bocada Forte: Como mulher negra, como encara o machismo que se multiplica entre os nossos?
Katiara: Como sempre digo, o machismo é social, portanto ele está no mundo regendo as relações. A origem histórica do machismo enquanto ideologia da inferiorização da mulher está no patriarcado e isso denunciamos (ou deveríamos denunciar) em todos os espaços, o hip hop é só mais um deles, não menos importante, mas com particularidades interessantes pra pensar a emancipação das mulheres.

O machismo no hip hop dá pra ser compreendido via debate da masculinidade negra (onde o homem negro se afirma macho pra afirmar sua humanidade e com isso concorrer com o branco rico), porque a formação dos homens da periferia perpassa por essa construção. Mas também compreendemos que ser oprimido não justifica oprimir (no caso o racismo e a desigualdade social deveria unir homens e mulheres negras e pobres), mas é justamente aí que mora o perigo pra burguesia: quanto maior unidade, maior ameaça nos tornamos pra essa classe. Por isso as críticas não podem deixar de ser feitas.

O MC Rocha Miranda já teve que ouvir elogios e críticas da minha parte, e muito mais críticas, porque acredito no trampo dele. Mas há aqueles que agente só lamenta, como por exemplo a “Trepadeira”, do Emicida. O novo álbum do Racionais também tenho várias, mesmo me identificando com a maior parte, acredito que pelo potencial e histórico poderiam avançar mais nas ideias, mas pior que isso foi ouvir recentemente, num trecho da “Mví”, do MvBill: “Manda uma africana pra mim, depois manda uma nazista pra mim…” Pensei que merda é essa? A começar pelo “manda pra mim” como se encomendasse pães e depois a “nazista?”

Bom por mais bem intencionado que seja no contexto da letra toda, também reforça o que deveríamos combater, porque o machismo também é colonização mental, e penso que não devemos nos fechar ao diálogo ou só sair no denuncismo, precisamos de um processo que trará o mano pra reflexão pesada.
Quem sou eu pra chegar de oreiada no Bill? Mas nos manos chegados e/ou próximos de chegados eu falo!

O problema é que sempre somos mal recebidas: eles reforçam a ideia de que feminista é tudo histérica e mal amada. A reação e justificativa do Emicida com a recepção da crítica da música “trepadeira” foi muito pior que a própria letra, demonstra pouca ou nula a disposição pra fazer a autocrítica, e isso ocorreu dia desses com outro mano que reforçou em suas letras tudo que denunciamos, mas achando-se O Feminista!

É osso mesmo! Mas agente segue fazendo nossas rimas conforme as possibilidades, ouvindo os raps, apreciando aqui, criticando ali, entendendo que isso, no caso o debate, como o rap, faz parte de um processo de formação também. Pena que a masculinidade favelada acaba impondo limites para esta reflexão, mas sem ouvir a crítica, não terá autocrítica, e sem autocrítica fica difícil superar qualquer prática, né?

Haja paciência tempo e didática neste espaço viu! Os diálogos têm demonstrado que as reações são violentas, como a resposta do Nocivo Shomon à MC que o denunciou, vitima de machismo e misoginia. Não dá pra justificar opressão, só naturaliza as atitudes que combatemos. O fato do mano passar veneno não pode justificar violência física e ou psicológica à sua companheira e depois vir falar de revolução em seus raps, isso é hipocrisia. Muitos não demonstram que estão abertos à troca de ideias, ouvir uma mulher com argumentos que o denunciam fere muito essa masculinidade, só pode! Mas tá pra rolar um debate pesadão desse tema pelo Fórum Municipal de Hip Hop de SP, ainda não tem data marcada, mas sei que nada melhor do que estar pessoalmente pra debater melhor essa fita com a presença de homens e mulheres MCs.


Bocada Forte: Como mulher negra, como você vê a luta feminista? A fronteira racial, o preconceito e o racismo faz emergir um feminismo negro, com origens, contextos históricos e demandas próprias?
Katiara: Demandas próprias sim, mas que devem ser compreendidas na sua totalidade, enquanto demandas universais de libertação. Pois sem a libertação da mulher negra, ninguém será livre! Lélia Gonzalez dizia que a mulher negra é a chama da libertação porque não tem nada a perder. Hoje faz muito sentido essa frase pra mim. A mulher negra, vítima do racismo e patriarcado, é também quem autodetermina sua história a fim de superar essa diferenciação.

Uma vez que concebemos que o racismo é a ideologia do capital que surge na colonização, e pra justificar a hiper-exploração, compreendemos também  que o patriarcado também precisa ser destruído enquanto ideologia que serve para explorar e controlar a mulher, a mulher que é determinada em seus papéis sociais que confirmam a ideia de que ela pertence à um homem, seja pai, marido, namorado, etc e sempre inferiorizados estes papéis quando comparados com o homem, que mesmo explorado pelo patrão, no lar ele tem uma “escrava” pra servir e que não é paga por esse trabalho, devido a condição de esposa, é um exemplo da dominação masculina.

Outros [exemplos] como as estatíticas de violência doméstica – assassinato por conta de fim de casamento ou namoro é absurdo! –  sem contar os casos de estupros, infecções por conta de aborto clandestino (por não ser legal e nem seguro, muitas submetem a qualquer meio de interrupção), a violência psicologica, dentre outras. Quando entendemos que racismo, capitalismo e patriarcado não se separam, concordamos com a Heleith Safiotti que chama essa estrutura de nó, pois sem desfazer um, não desfaz o outro.

Penso que o feminismo radical (já que existem diferentes correntes, elegemos esta a mais completa) deve dar conta de combater e denunciar o racismo e com isso fazer luta de classes, cuja perspectiva deva ser objetiva, senão não serve pra eliminar e sim apenas remediar. Por isso o Kilombagem está numa recente e muito tímida ainda, pesquisa sobre isso e as categorias raça, classe, gênero sendo amadurecidas pra que sejam em seguida divulgadas em nossas produções teóricas, artísticas e profissionais e futuramente reunidas em uma única publicação. Mas é basicamente isso, temos uma outra leitura de feminismo negro.

Aquela que vê tanto o branco classista como aliado contra a PM assassina, quanto a trans negra que quer ter seu próprio negócio por não conseguir emprego. Importa nos remeter à história pra não repetir erros e não dispensar acertos. Isso é Sankofa, isso é ancestralidade e ancestralidade é história! Precisamos protagonizar as lutas; dirigi-las ao invés de servir de massa de manobra! Já foi o tempo de servidão! A solidariedade tem que ser internacional, radical, fazer história em prol da conquista da nossa autodeterminação enquanto povo. E frente aos novos dilemas postos na contemporaneidade, temos que buscar compreender e explicar os desafios da luta e dessa transformação, o debate de gênero e raça, desigualdade de gênero e identidade de gênero são temas muito complexos, e me interesso bastante no momento. A luta da emancipação da mulher e do povo negro deve ser uma preocupação de todos movimentos sociais.

Indicação de Katiara: Eduardo

https://www.youtube.com/watch?v=ERuQ4EeiHOY

Bocada Forte: Grande parte da população acha um exagero quando se fala em genocídio da juventude negra. Mesmo com tantas estatísticas, protestos e marchas, parte dos nossos ainda não se deu conta que é alvo dos assassinatos, ainda não se deu conta da gravidade dos fatos. Como mudar essa realidade num país onde muitos acreditam que o racismo acaba no momento em que não se fala mais dele?
Katiara: Muita luta, combativa e autônoma frente aos partidos e governos e com a malemolência das unidades políticas, pois sem unidade não nos movemos e nem massificamos. Porque quem luta pelo fim dessa polícia militarizada é nosso aliado. Mesmo feminista branca apoia a luta de cotas, bem como a organização negra que se posicione favorável à legalização do aborto, também serão [aliadas] pois ora essas unidades são pontuais, ora constante, mas sempre dependendo do contexto social e político da conjuntura. Na maior parte das vezes temos que caminhar juntos, o genocídio e a PM deve unificar a periferia e os setores da esquerda que se importam em combater o racismo.

Se compararmos com os EUA, verificaremos que a história determina essas particularidades. Primeiro que aqui trata-se de um país de capitalismo de via colonial, com ideologia da casa-grande e senzala (que o racismo é mais suave do que onde teve aparthaid) e o mesmo país que a pobreza tem sexo, cor e endereço – que desde abolição negro é marginalizado  – é o mesmo que ocupa o quinto lugar entre os países que mais compram armas de Israel. O Brasil mata em um ano, mais que em 20 anos de ditadura, tem a PM que mais mata no mundo, tem recorde de tráfico internacional de mulheres (promovida pela marca da mulata exportação).

Nesta mesma linha de raciocínio, cheia de sangue, temos chacinas, sequestros, prisões arbitrárias, encarceramento em massa, incêndios em favelas, violência contra mulher em casa, nos hospitais, no trabalho (assédio moral e precarização, pois o racismo revela-se também nas ocupações de postos de trabalho e a maioria dos terceirizados são negros, isso expressa o racismo estruturado na divisão social do trabalho, vide as categorias de garis e de medicina, veremos que há “aparthaid” social aqui). E a maioria destes que comem mal, moram mal, são mulheres, e chefiam os barracos, tendo que efrentar diariamente três ou mais jornadas de trabalho, no caso das que estudam, trabalham e tem casa e filhos na sua responsabilidade.

O baguio tá loko, matam adolescente pelas costas e diz que era bandido, fica por isso mesmo. Matam bebê de 11 meses e afirmam ser bala perdida, e não comove ninguém. Pedreiro assassinado na sua própria casa na zona leste de SP, e mais um anônimo entra na estatística, um adolescente é sequestrado na porta de sua residência (Davi Fiúza, 17 anos, da periferia de Salvador) e ninguém sabe, ninguém viu. Assim prossegue a marcha fúnebre, com muitas histórias tristes, dores e revoltas. A nossa cara é unir essas dores e revoltas e partir pro arrebento, denunciar este Estado que não nos serve, aliás que não serve ninguém, exceto à burguesia. Desmascarar essa mídia que nos tira o tempo todo com suas piadas e notícias.

Aqui o racismo não perdoa nem atleta, nem famosos, e seguem nos matando escondendo e negando nossa história de resistência pra que nos adequamos à política liberal pra evitar uma rebelião haitiana, já que somos maioria, ia tumultuar demais e a elite perderia de vez o sono. Enquanto isso não acontece, precisamos derrubar os autos de resistência, defender as cotas em universidades públicas, defender a implementação da lei de ensino de história da África, buscar compreender nossa história sob o olhar dos nossos, exigir a equidade de acesso na saúde da população negra e o fim dos extermínios de jovens negros, o fim das chacinas, incêndios suspeitos e desocupações violentas nas periferias, é o que está tendo pra que nossa existência não seja ainda mais ameaçada do que já está, enquanto povo.

Mais uma indicação de Katiara: Ba Kimbuta

https://www.youtube.com/watch?v=6i-n0sHyme4

Bocada Forte: Muitos brancos afirmam que não têm culpa ou responsabilidade pelo passado escravista. Isto é miopia, falta de sensibilidade ou não estão nem aí para o legado de um sistema baseado na desigualdade racial?
Katiara: Assim como para o homem negro reconhecer seus míseros privilégios diante da desigualdade de gênero quando comparada com a mulher negra, dá trampo (justamente pelo fato do racismo ser a causa em comum de seus sofrimentos), para um branco pobre admitir que é mais facilmente ser empregado. Se a empresa tiver o critério da boa aparência, é certo que a vaga num será preenchida por ninguém de black, dread ou simplesmente naturalmente crespo, que era o caso de uma estagiária negra em SP*.

A mesma fita ocorre com a população branca pobre. Sabemos que a pobreza é majoritariamente negra e  acompanha toda essa pobreza, a ausência de acesso as demais políticas públicas universais como a educação (o movimento chama isso de racismo institucional) em que mostram as estatísticas do PNAD 2014: nós somos a população que não consegue concluir os estudos, que mais trabalha e ganha menos e que é a maioria nas periferias e em condições sub-humanas de existência, aponta o quê, senão um genocídio de Estado, a mulher negra morrer 7 vezes mais no parto e o encarceramento em massa?

A politica de cotas é uma bandeira de reparação histórica à escravização, porém polêmica diante desse não reconhecimento de que ao comparar os acessos nas universidades públicas, mesmo que empiricamente, é constatável essa desigualdade. Pois bem, o que queremos é universidade pública gratuita e de qualidade para todos, mas enquanto essa desilitização isso não ocorre, exigimos as cotas como reinvindicação à produção e acesso ao conhecimento (ainda que muito questionável, eurocêntrico e irracionalista) mas socialmente construído. Negar esse acesso é negar a nossa humanidade!

Os casos de racismo com o goleiro Aranha e recentemente com a capitão da seleção de vôlei, a Fabiana, são os que raramente aparecem na mídia quando trata do tema racismo porque é anteriormente problematizado em mídias alternativas que geram certas repercussões, por conta também do fenômeno “flagra de celular”, com câmeras e site de vídeo de acesso massivo, levam muitas pessoas a ter coragem e filmar e publicar certas atitudes que precisam ser debatidas sim, ao contrário do que a ideia hegemônica racista prega que a violência racial está em nossas cabeças, isso é subjetivar a denúncia, re-vitimizar a vítima e ainda reforçar a inferiorização quando esgotam os argumentos, como fez o apresentador Luciano Hulk, com a campanha de “Somos Todos Macacos”. Ora, se tratando de um funcionário bem pago da TV Bobo , (apelidada também de Rede Esgoto de Televisão, financiada pela Ditadura), não dá pra pensar que iriam problematizar o racismo para milhões de brasileiros, que desde à infância foram ensinados a se adequarem às imposições da alienação colonial, inclusive a partir de seus programas e novelas. Mas causa grande revolta esses babacas como o Danilo Gentilli, racistinha declarado nas piadas.

Bocada Forte: Quando o assunto é homossexualidade, parte do hip hop, a direita, os religiosos conservadores e integrantes da esquerda dão as mãos para negar direitos aos homossexuais e impedir a criminalização da homofobia. Consegue ver um modo de quebrar essa corrente?
Katiara: Visibilidade aos gays, lésbicas e trans que produzem e atuam com a cultura hip hop é uma das formas. A outra seria fortalecer os movimentos LGBTs que já existem pra que avancem na luta contra a homo-lesbo-bi e transfobia. Um mano está lançando um trampo que irá causar, é o divo do rap, como a galera do babado diz:  Dalasam é bafão! Na real, penso que essa galera no rap sempre existiu, mas a discriminação impediu muitos de afirmarem publicamente ou explicitamente sua identidade sexual devido às experiências vivenciadas de repressão, discriminação e exclusão. Tem um blog que indico é o Bicha Nagô, um dos relatos no texto “Ser bicha no rap” é bastante preocupante: saber que num espaço de rebeldia há fortemente a violência da homofobia.

Bocada Forte: É sinal de força ou romantismo lutar pela periferia num momento em que se fala muito em empreendedorismo e a palavra revolução virou motivo de piada? “Os próprios pretos não tão nem aí com isso não…”
Katiara: Força e justiça. Indignação é um sentimento que leva à rebeldia e a raiz do hip hop é a rebeldia, precisamos retomá-la, pois pra muitos que estão chegando agora e acham que ser rebede é falar mal do sistema, ou apenas fazer parte do movimento hip hop. A rebeldia é antes de tudo questionar tudo, questionar o que nos foi imposto, questionar a raiz dos problemas e a busca das soluções dos mesmos, de forma coletiva. Isso é a prática da solidariedade radical que, em tempos de barbárie e de valores individualistas,  passa a ser em si mesma  uma prática revolucionária por ser humanizadora.

Indico o álbum duplo novo do Eduardo Taddeo, é uma verdadeira obra de arte, um clamor de justiça à periferia e de romântico ele num tem nada.

Pela Web
*Sobre a discriminação vivenciada pela estagiária conferir em:
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/12/estagiaria-negra-e-forcada-alisar.html

Jogadora de vólei Fabiana
http://www.geledes.org.br/apos-ser-vitima-de-racismo-na-superliga-fabiana-claudino-capita-da-selecao-desabafa-basta-de-odio/#axzz3Q8XRLCAm

Caso do pedreiro da zona leste de São Paulo
http://ponte.org/a-farsa-da-policia-militar-de-sp-no-reveillon-de-2015/

Campanha Reaja ou Será Morto
http://reajanasruas.blogspot.com.br/

Contato Katiara
www. kilombagem.org
Katiara@Kilombagem.org

*Editor do Bocada Forte. Também é DJ, bibliotecário, produtor musical e colunista do jornal Brasil de Fato.

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