Preconceito trava empreendedorismo feminino e negro, dizem painelistas no FIIS

Autor: Everton Lopes Batista e Beatriz Maia Data da postagem: 12:00 07/11/2018 Visualizacões: 119
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Carlos Humberto (à esq.), do Diaspora black, DJ Bola, de A Banca, participam do painel Oportunidades na Base da Pirâmide / Foto: Keiny Andrade - Folhapress - Folha de S. Paulo

Falta de capacitação foi apontado como outro desafio por participantes do festival

Vencer o preconceito e fornecer capacitação são os maiores desafios para fomentar o empreendedorismo feminino, segundo participantes de um debate durante o FIIS (Festival de Inovação e Impacto Social), realizado neste domingo (4), em Poços de Caldas (MG).

“Temos de desenvolver o espírito de liderança nas mulheres. Na nossa sociedade, elas não estão nesse lugar de destaque naturalmente. Temos de trabalhar inclusive com os homens, para que eles entendam que a mulher pode, sim, ser uma liderança”, afirmou Giuliana Ortega, diretora-executiva do Instituto C&A, durante o painel.

Outro desafio é a jornada ampliada de trabalho não remunerado que a mulher tem em casa, segundo Giuliana. Elas chegam a gastar até 73% mais tempo com atividades em casa do que os homens, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para que mais mulheres assumam seus próprios negócios, porém, ainda é necessário aumentar as portas de capacitação, segundo os debatedores.

De acordo com Rodrigo Brito, gerente de Operações no Instituto Coca-Cola e criador da Aliança Empreendedora, que apoia microempreendedores de baixa renda, falta ainda conhecimento para lidar com o básico de burocracia e investimento.

“A gente tem certeza de que empreender não é sobre dom. Empreender é um aprendizado e precisamos desenvolver essa habilidade”, afirmou Brito

“Empreendedorismo vai muito além da geração de renda, ele dá autoestima para homens e mulheres, que usam o que sabem para criar oportunidades e negócios”, completou.

Empresários negros que atuam na periferia também encontram desafios para colocar suas soluções inovadoras em prática.

“O empreendedor negro tem mais recusas de pedidos de crédito do que os outros. O racismo institucional tem sido uma das grandes molas retardadoras de crescimento desses negócios e do país” afirmou Rosenildo Ferreira, jornalista responsável pela mediação de uma mesa sobre novos negócios na periferia e um dos fundadores da aceleradora Vale do Dendê.

Segundo DJ Bola, fundador da produtora cultural de periferia A Banca, os criadores de soluções para a população periférica devem estar inseridos nesse meio para entender como um novo negócio social pode ser mais eficiente ali.

Assim surgiu a aceleradora NIP (Negócios de Impacto Periférico), iniciativa da A Banca,. “A ideia é colocar luz sobre empreendedores e empreendedoras que estão nessas áreas. É como colocar uma escada nesse abismo que há”, afirmou.

“Conseguir investimento para nossas soluções é mais difícil, mas é preciso entender que quando você faz a economia da base da pirâmide social girar, você provoca uma transformação no país”, completou Carlos Humberto, criador Diáspora Black, plataforma de hospedagens voltada para a cultura negra que já está presente em 19 países.

Equipar com conhecimento os empresários que atuam com a população de baixa renda é também vital para o bom funcionamento dos negócios, de acordo com Alvimar da Silva, idealizador do aplicativo de mobilidade urbana da periferia JaUbra.

“Enquanto aprendia a lidar com o aplicativo, muitas vezes eu queria voltar para a folha de papel. É difícil aprender a usar a tecnologia, mas ela é necessária e sem ela nós não avançamos”, disse Alvimar.

O empreendedor acrescentou ainda que o investimento para negócios que promovam melhorias sociais, principalmente os que estão localizados na periferia, é primordial.

Aportes para novas empresas com impacto social positivo são um campo a ser explorado, afirmou Rodrigo Tavares, presidente do Grupo Granito. Segundo o executivo, esse mercado hoje é de cerca de apenas 1% do total do mercado de capitais.

Para Tavares, os investimentos dessa modalidade são oportunidades para que as famílias investidoras alinhem seus gastos com seus valores mais nobres.

“A tendência é que seja considerado cada vez mais anti-ético investir sem olhar para o impacto e as oportunidades que esse ato pode gerar”, completou Celia Cruz, diretora-executiva do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE).

Mas os negócios sociais devem ser saudáveis e de qualidade para atrair investidores de impacto, que costumam ser muito exigentes, segundo Tavares.

Há ainda o papel do consumidor, que, ao comprar um produto, passa uma mensagem para o fabricante, disse Jonas Lessa, gestor ambiental e cofundador da Retalhar, empresa de logística reversa têxtil, durante uma das discussões sobre a sustentabilidade nas cidades.

“Quando você compra, você diz para o empresário seguir produzindo daquela forma, cobrando o mesmo preço”, afirmou. Assim, é necessário que compradores e investidores reflitam sobre que tipo de modelo de negócio vão incentivar com seu próprio dinheiro.

A avaliação do impacto das iniciativas foi objeto de um workshop durante o FIIS neste domingo, liderado por Raquel Altemani, coordenadora de projetos do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis).

Segundo ela, para ter impacto e promover a transformação social, os projetos dependem de planejamento criativo, estratégias pré-definidas, execução cuidadosa e monitoramento dos seus resultados.

Altemani destacou que avaliar resultados de projetos sociais não é colocar uma etiqueta de preço no bem estar das pessoas. “Valor do impacto é uma analogia baseada na percepção dos beneficiários, e não uma medição”, disse.

A educação, uma das bases necessárias para que um empreendedorismo consciente possa prosperar, ainda carece de cuidados do poder público, segundo participantes de uma discussão sobre o tema durante o festival.

Assim, a atuação de ONGs e negócios sociais dentro da escola pode ser um complemento para levar aos estudantes o suporte que as políticas públicas ainda não entregam.

Para Cybele Amado, presidente do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep), que promove formação inicial e continuada de professores, essas atuações em conjunto são benéficas, mas, ao ganhar escala, elas precisam também ser uniformizadas para que a qualidade do ensino seja boa para todos.

“Todas as crianças nesse país têm direito a uma educação plena”, acrescentou.

Entretanto, o protagonismo nesse campo, concordaram os debatedores, é ainda das políticas públicas, com ações que podem chegar a todas as partes do país.

O ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro elencou as políticas na área que foram bem sucedidas nos últimos anos, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e iniciativas voltadas para a formação de gestores para as escolas.

“É importante que o ensino superior trabalhe para melhorar a educação básica”, afirmou o Janine Ribeiro. Para ele, os beneficiados pelo investimento público através de programas de financiamento e ensino devem dar um retorno à sociedade. “É uma questão de justiça, decência e economia”, disse.

O ex-bolsista do Prouni Wellington Silva, criador do Empreendescola, organização de Poços de Caldas que presta suporte para que jovens estudantes da região entrem no mundo do empreendedorismo, disse no painel que pretende agora criar uma coalizão de ex-bolsistas como ele para incentivar novas ações voltadas para a educação básica.

“Muita gente brigou para que nós tivéssemos uma formação de qualidade. Agora devemos retribuir”, afirmou Silva.

Acesso a serviços básicos

As tecnologias sociais também podem ajudar a prover serviços como água potável e saneamento básico para regiões nas quais tais estruturas ainda são precárias.

“A falta desses serviços leva a complicações de saúde, como a cólera e outras doenças, que geram um impacto em outras áreas. Cerca de 88% das mortes por diarreia no mundo são causadas por saneamento inadequado, por exemplo”, disse Deise Hajpek, gerente de Relações Institucionais do CIES Global (Centro de Integração de Educação e Saúde).

“Há todo um banco de soluções disponíveis, desenvolvidas por pessoas que estão no território, mas elas precisam de investimentos para que possam ser instaladas”, afirmou Denise.

Para Andrea Hanai, gerente de projetos do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), o investimento importa, mas deve ser feito, nesses casos, principalmente em tecnologias que sejam acessíveis e de fácil manutenção.

“A gente já viu, no campo, que a aplicação de tecnologia de baixo custo e fácil manutenção conta com um engajamento maior da população, e isso transforma rapidamente a vida dessas pessoas”, acrescentou Andrea.

Festival

O FIIS acontece entre os dias 2 e 7 de novembro no Palace Cassino, em Poços de Caldas (MG). O evento agrega o encontro anual da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais, formada por cem líderes, o Congresso Sorriso do Bem, da Turma do Bem, correalizadora desta edição, e o Fórum Melhores Práticas para Saúde no Terceiro Setor, da Aliança Latina.

Na programação, temas como o futuro dos negócios sociais e das ONGs, captação, mobilização e conexão, inovação e novo significado do voluntariado serão discutidos durante masterclasses, workshops e painéis que contarão com a participação de empreendedores, investidores e empresas que atuam por impacto positivo.

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