Fabbi Silva, a pedagoga que leva sorriso ao Parque das Missões

Autor: RYOT Studio e CUBOCC Data da postagem: 18:00 10/10/2018 Visualizacões: 65
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Fabbi Silva é a 216ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto especial do HuffPost Brasil / Foto: Valda Nogueira - Especial para o HuffPost Brasil

Ela criou associação 'Apadrinhe um Sorriso' para ajudar crianças da favela em que mora no Rio de Janeiro. Hoje também atua em rodas de conversas com mães para prevenir violência.

"Vai ter tia Fabbi hoje?" é uma pergunta recorrente entre crianças da favela Parque das Missões, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O objetivo, na verdade, é descobrir se naquele sábado terá sarau de poesia, que existe há nove anos e é direcionado a crianças de três a 16 anos de idade. A "tia" responsável por estimular o desejo de leitura nos pequenos é Fabbiana da Silva, 35 anos, moradora da comunidade há duas décadas e fundadora da associação Apadrinhe um Sorriso. A pedagoga não esconde: lá no início, sempre quis mesmo trabalhar com as mães das crianças. Decidiu que o primeiro passo seria aproximar-se dos pequenos para, enfim, ter um bom diálogo com as mães. O objetivo? Livrá-las de situações de abuso doméstico e violência cotidiana.

A Apadrinhe, como Fabbi chama, surgiu em 2009, a partir de uma ação de Natal para presentear as crianças com roupas, sapatos e brinquedos. Esporadicamente, também havia ações de dia das crianças e outras festas. Poucos anos depois, Fabbi sentiu a necessidade de fazer um trabalho direcionado às mulheres do Parque das Missões, mas sabia que haveria uma resistência. Para "ganhar" a confiança dos adultos, começou pelas crianças: criou uma roda de leitura para que os pequenos pudessem conhecer obras, discutir e conversar sobre literatura.

"No meu tempo, a biblioteca ficava fechada, e hoje não fica mais."

A Apadrinhe, como Fabbi chama, surgiu em 2009, a partir de uma ação de Natal para presentear as crianças com roupas, sapatos e brinquedos / Foto: Valda Nogueira - Especial para o HuffPost Brasil

"O sarau foi criando mudanças dentro da estrutura da favela. Um exemplo clássico: as crianças começaram a pedir para que a escola fique aberta no final de semana e que a biblioteca, que só fica fechada, permaneça aberta. No meu tempo, a biblioteca ficava fechada, e hoje não fica mais", conta a pedagoga, que não tem lucro com o trabalho na associação e concilia as ações com seu emprego formal na Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

Em 2014, o projeto de sarau foi premiado em uma cerimônia focada em ações positivas da Baixada Fluminense. Em 2015, Fabbi decidiu que, finalmente, era hora de abordar as mães para levar à favela a discussão sobre feminismo e combate à violência doméstica.

"As crianças se tornaram alvo de amor e cuidado, claro, até porque eu gosto de trabalhar com educação. Mas elas foram um meio para eu conseguir chegar nesse lugar de olhar para essas mulheres e fazer com que elas pensem o quanto a vida delas é importante", relembra.

Convocou uma reunião para falar sobre mais uma ação de Natal, mas no momento em que as dezenas de mulheres estavam reunidas, mostrou uma apresentação "bombástica" sobre feminismo, violência e direitos. Não surtiu o efeito esperado. Uma jovem mãe de 14 anos levantou a voz e questionou: "você acha que é melhor que a gente só porque estudou?", além de relatar brevemente a rotina de violência física que sofria dentro de casa. Apesar de inesperado, foi o primeiro breve diálogo possível naquele espaço.

"Para mim, é inadmissível uma menina de 14 anos acordar todos os dias de olhos inchados e achar normal."

Ela criou associação 'Apadrinhe um Sorriso' para ajudar crianças da favela em que mora no Rio de Janeiro / Foto: Valda Nogueira - Especial para o HuffPost Brasil

"Eu respondi: eu não sou melhor do que ninguém aqui, mas a gente precisa se unir para mudar a realidade como a sua. Para mim, é inadmissível uma menina de 14 anos acordar todos os dias de olhos inchados e achar normal. E o feminismo, através de práticas concretas, pode mostrar como sair desse tipo de relação", pontua.

Na reunião seguinte, metade das mulheres; na terceira, duas. Houve dias em que ninguém apareceu. Mesmo assim, Fabbi continuou insistindo. Chamava um grupo, e pedia que o grupo chamasse as amigas e assim por diante, até a roda de conversa entrar de vez para o calendário das mulheres do Parque das Missões.

"Elas começaram a olhar pra mim e se identificarem, principalmente porque eu comecei a mudar a forma que eu estava falando. Eu precisava usar um tipo de linguagem que aproximasse a realidade delas do feminismo", analisa.

"As crianças são agente desse processo: quando você cresce em um lugar com violência cotidiana, você começa a reproduzir."

Com menos jargões acadêmicos e mais troca de experiências, Fabbi já ouviu relatos sobre abortos, estupro marital, violência física grave e muitas outras questões antigas que atravessam mulheres ainda no século 21. O trabalho principal, portanto, consiste em mostrar àquelas mulheres, comuns como ela, que a vida delas importa.

"São narrativas de muita violência. Digo a elas que é preciso entender o lugar em que você está, o lugar em que você vive e como isso impacta a sua vida com seu filho. As crianças são agente desse processo: quando você cresce em um lugar com violência cotidiana, você começa a reproduzir", relembra.

Assim como os frutos do sarau de poesia, que dez anos depois já recebe antigos participantes como voluntários, Fabbi também já vê frutos da roda de conversa com as mulheres. Muitas livraram-se de uma relação abusiva, e conseguiram tocar as suas vidas longe dos homens que lhe faziam mal. E, principalmente, pararam de naturalizar a violência e reconhecerem que são humanas merecedoras de respeito.

"Quando a gente olha pra realidade dessas mulheres, que se colocam nesse lugar de que pode ser morta e 'tudo bem', vê que algo tem que ser feito. Não pode ser assim. A gente quer que ela viva, e viva plena, para trabalhar, produzir, e até viver numa relação, desde que saiba que pode sair dali", afirma.

"O principal é entender que o trabalho que desenvolvo é, antes de tudo, também para me encontrar como mulher."

Com menos jargões acadêmicos e mais troca de experiências, Fabbi já ouviu relatos sobre abortos, estupro marital, violência física / Foto: Valda Nogueira - Especial para o HuffPost Brasil

Fabbiana tem um desejo de que as mulheres percebam que podem ser livres. "Minha mãe me ensinou que eu podia fazer o que eu quisesse da minha vida. Eu tive sorte, e nem todas as meninas vão ter isso. O principal, para mim, é entender que o trabalho que desenvolvo é, antes de tudo, também para me encontrar como mulher."

Defensora do feminismo, Fabbi pontua a necessidade de adaptar o discurso à realidade da favela. Bem como evita jargões acadêmicos, a pedagoga também não leva para aquele território seguro temas da causa que não se relacionem com aquela realidade. A prioridade são pautas urgentes: "O feminismo é a possibilidade de a mulher ser livre. Não é possível que, hoje, a gente não comece a olhar e se perceber como pessoas pertencentes a essa sociedade", avalia.

Com o fortalecimento do diálogo e apoio para com as mulheres, não tinha outro caminho para as atividades com as crianças tomarem além de um bonito crescimento. Além do sarau, a Apadrinhe promove passeios culturais a equipamentos que não têm na cidade, como bons teatros infantis, aulas de capoeira e também música. E tem para todo mundo: "Muitos meninos envolvidos no sistema varejista da venda de drogas olham pra mim como referência para os filhos deles. Eles não querem que a nova geração viva como eles estão vivendo", afirma a pedagoga, que acredita na mudança de estrutura do território por meio da cultura.

"Eu quero que eles andem o mundo, mas também entendo a importância deles transformarem o território."

Hoje também atua em rodas de conversas com mães para prevenir violência / Foto: Valda Nogueira - Especial para o HuffPost Brasil

A pequena comunidade auxilia em todas as ações da Apadrinhe, e já chama a Fabbi de general, no ótimo sentido de estar formando um exército de pensadores. E ela não acha ruim. No futuro, outros generais do bem continuarão o projeto, que nasceu da ideia de Fabi, mas agora é de toda uma comunidade.

"Quero jovens questionadores. O que eu sonho é que a gente consiga cada vez mais gerar impacto para que o jovem olhe para a favela e veja o mesmo potencial que eu vejo nela. Eu quero que eles andem o mundo, mas também entendo a importância deles transformarem o próprio território", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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