Consequências do racismo estrutural

Autor: Redação Diário do Nordeste Data da postagem: 15:00 09/08/2018 Visualizacões: 1044
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
A autora e pesquisadora Juliana Borges: “É uma disputa de narrativa, ou seja, uma disputa de projeto, de que tipo de País queremos”, destaca / Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

A pesquisadora Juliana Borges lança livro sobre o encarceramento em massa da população negra no País

Mais da metade dos presos no sistema penitenciário nacional são negros – os dados de 2017 do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (Infopen) apontam mais precisamente para 64% da população carcerária brasileira. A punição em condições extremas e uma taxa de ocupação dos presídios que ultrapassa e muito a capacidade desses equipamentos aponta para um questionamento: “O que é encarceramento em massa?”.

É isso que a escritora e pesquisadora Juliana Borges propõe-se a responder em seu livro, a ser lançado hoje (7) em Fortaleza, no auditório da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Ceará – Adufc.

Mulher negra periférica, nascida, criada e que ainda vive na zona sul de São Paulo, os temas violência e segurança pública perpassam o ativismo e a trajetória de vida da autora desde sempre. Assim, muitos dos dados, teses, dissertações, mapas e estudos utilizados para o livro já faziam parte de seu repertório político-intelectual. “Com isso, foi possível escrevê-lo em cerca de seis meses. É uma obra que se propõe mais como uma introdução ao pensamento e às ações realizados pela intelectualidade e pelo ativismo negro na área”, dene Juliana. 

O convite para escrever veio da lósofa Djamila Ribeiro, coordenadora da coleção “Feminismos Plurais”, em parceria com o Grupo Editorial Letramento pelo Selo Justicando, da qual o livro em questão faz parte. A coleção visa abordar diversos aspectos e perspectivas dos feminismos, tendo como pilar principal mulheres negras e indígenas e homens negros como sujeitos políticos, carregando a responsabilidade histórica de romper silêncios.

Objetivos

“O livro tem como objetivo propor reexões – entre elas o entendimento do racismo como algo estrutural e sobre o Sistema de Justiça Criminal não apenas perpassado por esta estrutura, mas parte fundamental para que estas engrenagens de opressão funcionem. Ou seja, demonstrar que o Sistema de Justiça Criminal e diversos mecanismos punitivos em nosso país são aparatos para a manutenção das desigualdades baseadas em hierarquias raciais”, explica Juliana.

Nesse sentido, ela busca apresentar como este sistema molda-se historicamente em nossa sociedade, como a violência se estabelece tão naturalizada ao ponto de sermos líderes em homicídios “e ainda sim vendermos e até acreditarmos na ideia de que somos um povo pacíco, algo presente em muitos discursos, em diversos momentos de nossa história”, critica.

Sueli Carneiro, Thula Pires, Angela Davis, Michelle Alexander, Achille Mbembe, Vilma Reis e Ana Flauzina são algumas das autoras e autores que auxiliam na construção do pensamento proposto nesta obra.

Também no livro, a escritora discute a Guerra às Drogas na contemporaneidade, “como uma narrativa de construção e aplicação de políticas que não só não tem resolvido problemas, como tem demonstrado que a militarização, o punitivismo e o proibicionismo, sustentados por uma ideologia racista, tem inigido violências e negação de direitos a um grupo especíco de nossa sociedade, que são pessoas negras, pobres e periféricas”.

Em especial as mulheres negras, segundo Juliana, tem vivido de maneira mais intensa esse avanço necropolítico, de políticas racionalizadas de tortura e extermínio. A intenção da autora é alcançar pessoas interessadas em conhecer mais sobre o sistema de justiça criminal, o racismo, sistemas punitivos, como se constitui a gura do criminoso na sociedade, e, mais do que isso, pessoas dispostas a compreender e questionar a necessidade de prisões em nossa sociedade. “A linguagem é fácil, uída, justamente para que todos, do universitário à doméstica, possam ler. Penso que, no m, o foco sejam as pessoas que têm vivido esta realidade de precariedade e criminalização cotidianamente, dentro e fora das prisões”.

Para Juliana, mais do que resistência, coleções e iniciativas como as de Djamila Ribeiro signicam a apresentação do pensamento intelectual negro na construção de narrativas alternativas na sociedade brasileira. “É uma disputa de narrativa, ou seja, uma disputa de projeto, de que tipo de país queremos. E isso se dá a partir de reexão e formulação, de disputa epistemológica, um campo que muitos de nossos intelectuais, como Abdias Nascimento, Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Luiza Bairros já apontaram como caminho para nós”, referencia.

Todos os caminhos, completa ela, devem ser estradas para o ativismo e a produção negras. “A Literatura tem percebido esta demanda, num processo ainda tenso, mas que vai se congurando, num espaço cada vez mais ocupado com poetas, romancistas, slammers, saraus em diversas periferias, por exemplo. Sempre entendo a arte como este espaço do sensível e, portanto, do que mais pode tocar indivíduos, que espelha contradições sociais”, naliza.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: