Elza Soares e a teorização “na carne” sobre a violência cometida contra as mulheres

Autor: Elizabeth Tavares Viana e Luanna Tomaz de Souza Data da postagem: 17:00 11/07/2018 Visualizacões: 1680
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Elza Soares e a teorização “na carne” sobre a violência cometida contra as mulheres / Foto: EBC - Reprodução - Justificando

Aos 87 anos, Elza Soares lança seu 33ª álbum intitulado “Deus é mulher”. O álbum traz uma diversidade de discussões que vão desde à intolerância religiosa à violência de gênero, provando mais uma vez a força poética ímpar desta mulher, resultado de uma história de luta como mulher negra, sambista e dona de si, em uma sociedade extremamente sexista e racista. O álbum é extremamente potente para nos fazer perceber como podemos ampliar o nosso olhar para temas como as violências cometidas contra as mulheres.

Em geral, o debate acerca das violências tem sido pautado somente pela realidade de algumas mulheres, principalmente brancas e de áreas urbanas, precisando alcançar outras realidades, como as das mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas, trabalhadoras rurais[1]. Para Gayatri Spivak[2], há uma necessidade de se possibilitar a oferta de espaços e posições, aos que não são beneficiados pelas culturas hegemônicas, onde eles possam falar, e além, possam ser ouvidos.

Elza Soares, nos dizeres de Cherríe Moraga[3], “teoriza na pele” as diversas violências que as mulheres, em especial as negras, sofrem em nossa sociedade. A cantora denuncia, por meio de músicas como: “O Que Se Cala”, “Dentro de Cada Um”, “Deus Há de Ser” e “Deus é mulher”, as injustiças causadas por um país ainda imerso em sua herança colonial, racista e misógina e, ao mesmo tempo, aponta uma postura de quem vai assumir seu próprio texto como na música “Dentro de cada um”:

"A mulher de dentro de cada um não quer mais silêncio

A mulher de dentro de mim cansou de pretexto

A mulher de dentro de casa fugiu do seu texto" (destaque do original)

Cada música é realmente atordoante. Fica muito evidente, quando escutamos as faixas,a força na voz de uma mulher que se assume como protagonista e enfrenta uma sociedade que prefere nos ver como vítimas tal para facilitar o controle sobre nossos corpos e nossos destinos.

Elza não se limita somente à denúncia da opressão sofrida pelas mulheres, mas promove um (des)locamento do discurso de vítima, tomando para si o conflito, muitas vezes perdido através das mãos do Estado. Segundo Bell[4]Hooks[5], o feminismo, para além dos equívocos que envolvem as discussões acerca, é um movimento que objetiva acabar com a exploração sexista e a opressão e deve se pautar por esse enfrentamento.

Para Maria Lugones[6]deve-se tentar estabelecer um diálogo entre os estudos acadêmicos e o saber fruto dessas experiências vividas na pele. Isso se dará por meio de um projeto decolonial que busca desaprender para reaprender questionando desta forma os conceitos hegemônicos para descolonizá-los. “Deus é mulher” é uma aula de representatividade e feminismo decolonial.  Nos dizeres da autora, na música “O que se cala”, o debate sobre lugar de fala fica muito pontuado:

"Mil nações

Moldaram minha cara

Minha voz

Uso pra dizer o que se cala

Ser feliz no vão, no triste, é força que me embala" (destaque do original)

Como os estudos da criminologia cultural apontam, precisamos mergulhar mais nesta complexa experiência contemporânea de forma a sofisticar nossos instrumentos de interpretação[7]. A produção musical das mulheres negras no país tem muito a nos ensinar sobre as violências vividas pelas mulheres e as diferentes dinâmicas de enfrentamento. Temos muito a aprender como novo álbum de Elza Soares. Deus há de ser mulher, há de ser a mulher do fim do mundo, Deus há de ser Elza.

 

[1]SOUZA, Luanna Tomaz. Da expectativa à realidade: A aplicação das sanções na lei Maria da Penha.1ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016.
[2]SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
[3] MORAGA, Cherríe. “Entering the Lives of Others: Theory in the Flesh”. In: MORAGA, Cherríe; ANZALDÚA, Gloria. (orgs.), This Bridge Called My Back: Writings by Radical women of Color. Berkeley: ThirdWoman Press, 2002.
[4]Bell Hooks é pseudônimo da escritora feminista e ativista negra estadunidense Gloria Jean Watikins. A autora assina seu pseudônimo em minúsculo o que será mantido em respeito à sua escrita subversiva. 
[5]HOOKS, bell.Feminism is for everybody: passionate politics. Cambridge: South End Press, 2000.
[6]LUGONES, María. Rumo a um feminismo descolonial. Rev. Estud. Fem., Florianópolis ,  v. 22, n. 3, p. 935-995,  Dec.  2014 .   Disponível em <<https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755/>>
[7] CARVALHO, SALO. Antimanual de Criminologia. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2013.
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