Djamila Ribeiro parou a Lapa

Autor: Brenno Tardelli Data da postagem: 18:30 05/12/2017 Visualizacões: 986
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Djamila Ribeiro, filósofa e umas das convidadas do festival / Foto: Julia Rodrigues

Saímos todas e todos desnorteados na última sexta-feira da Rua Morais e Vale, 18, pela potência indescritível da Mestra em Filosofia Djamila Ribeiro, que foi às terras cariocas lançar o seu primeiro livro “O que é Lugar de Fala?” (Editora Letramento e selo do Justificando). Pessoas se reuniram em frente à Casa Nem, local de acolhimento para pessoas travestis e transexuais, para ouvir a celebração do pensamento de uma brilhante mulher negra. O evento foi organizado pelo grupo Intelectuais Negras, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Se em São Paulo já havia sido uma data memorável, o que ocorreu no Rio de Janeiro não ficou atrás. Foi uma noite de muito Axé. Os orixás, em festa, celebraram a revolução que desperta no coração de quem enxerga essa iluminada pensadora como, de fato, ela deve ser enxergada. Djamila Ribeiro tem o coração dos justos e a mente afiada da caçadora. Filha de Oxóssi, trouxe a caça farta para seu povo tão castigado pelo racismo e pela precária situação desse país. É um respiro, infla nossos pulmões com novos ares, trazendo toda uma nova energia que nos desperta para a luta. Um tsunami que rompeu o dique do racismo estrutural que obstaculiza a vida das mulheres negras, levando tudo em seu caminho com o rompante das águas. 

Quem esteve lá viu a benção de Conceição Evaristo, notória escritora ganhadora do prêmio Jabuti e dona das palavras sábias. Olhando no olho de Djamila a todo momento, Evaristo em sua fala exaltou a construção coletiva dessa obra, que visibiliza o trabalho de todas as mulheres. A escritora, por si só, seria um excelente motivo para toda aquela aglomeração de gente interessante e interessada, que decretou o mais sublime silêncio para ouvir seus conselhos. Conceição é a personificação da ética negra feminista na fala de uma mulher mais velha, merecedora do maior respeito e admiração.

Fosse eu um burocrata responsável por aquela rua, mudava a placa, fazia uma estátua, ou coisa que o valha para que o dia histórico que inflamou o coração de tantos e tantas fosse devidamente registrado na história. No dia do combate mundial à Aids, com direito a fala sobre o tema da ativista Rafaela Queiroz, o Rio de Janeiro sediou uma reunião de reconhecimento a uma mulher negra entre inúmeras outras renomadas mulheres negras, como a jornalista Flávia Oliveira. Celebrou-se a epistemologia negra no país cujo racismo assassino teve que se calar ante o correr das águas revoltosas do tsunami que veio para ficar. Isso é histórico. 

Apesar de histórico, devido ao compromisso ético com o povo e o Poder que vem emergindo no país que faz o Mississippi da década de 50 passar inveja pela naturalização do racismo, os jornais fazem que nada viram. Mentira! Todo mundo viu o que aconteceu. Se isso não está nos jornais, é algo para o povo brasileiro prestar atenção e cobrar mais compromisso das covardes publicações. Como afirmou a histórica militante do movimento negro, Vilma Reis, “fico aqui pensando qual seria a manchete bem ‘criativa’ que os grandes jornais fariam se este fenômeno ocorresse no lançamento de um livro de uma pessoa branca?”.

“Estou tomada por esta manchete que não veio”, completou Vilma. Por isso, pensei nessa: Djamila Ribeiro parou a Lapa. Poderia ser outra, penso que todo o jornalista que se veja sem pauta ou dedicado a um tema inútil e sem relevância nessa política que vai para o bueiro pode pensar na sua própria. Outro título possível: “Djamila Ribeiro inspira um levante na Rua Morais e Vale”. Inspiração é o que não falta depois de tanto poder; o difícil é descrever em palavras algo que as pessoas sentiram, viveram, sublimaram. O único desafio é esse, já que falar sobre esse dia é um imperativo.

Em meio à potência e os jornais, vale dizer sobre uma pessoa iluminada que fez disso tudo possível. Ísis Vergílio entrou no ônibus de São Paulo ao Rio de Janeiro para, como uma formiguinha, construir o formigueiro para que tudo ficasse em ordem. Quem tem Ísis do lado na produção, não precisa de mais nada. Gustavo Abreu, editor da Letramento, saiu de Belo Horizonte com os livros no porta-malas. Foi assaltado por policiais na entrada do Rio de Janeiro, mas aos trancos e barrancos chegou na Lapa para que 800 livros fossem vendidos à população, incluindo os 200 distribuídos gratuitamente em oferecimento da Lola Cosmetics, empresa liderada por Dione Vasconcelos que tem sido fundamental para o sucesso dos eventos.

Lá pelas tantas na noite, Gustavo parou de vender para auditar comigo as doações das pessoas que foram à Morais e Vale. Foram 370kg de alimentos destinados à Casa Nem, local administrado por Indianara Siqueira, e mais de 5.000 absorventes para mulheres encarceradas que são obrigadas a fazer uso de miolo de pão em dias de menstruação. A ideia da doação foi de Giovana Xavier, que está à frente do Grupo Intelectuais Negras, e destacou as nuances revolucionárias do feminismo interseccional. Além de festa, teve muito apoio a quem precisa. Ao final, é impossível não reconhecer o trabalho do Mídia Ninja, que aos quarenta e cinco do segundo tempo, chegou para salvar com estrutura de som e filmagem, fazendo registros históricos de uma noite muito linda. Foi um evento do povo diversificado, com gente das mais variadas camadas e segmentos, como militantes, ativistas, artistas, diretores de televisão, professores de universidades, entre tantas pessoas que fizeram parte desse momento. Muitas expuseram suas vendas na calçada, como o Matamba Ateliê, e a noite foi finalizada com o grupo de Maracatu Baque Mulher, após o trabalho da DJ Heloísa Melino e Roberta Costa 

Como amante e amado, tem sido um enorme privilégio acompanhar os passos da Princesa de Ketu, a caçadora que reúne o povo para celebrar a caça farta e construir coletivamente. Não tenho nenhum receio em exaltar o brilhantismo e a potência dessa incrível mulher, principalmente porque quando a honestidade, potência e inteligência são latentes, não há nada de diferente a ser feito. A filha da doméstica e do estivador, pensadora revolucionária, está para esse país como a efervescência liderada por Davis, Luther King, Malcolm X e tantos outros e outras esteve para os Estados Unidos. Não há mais volta. A revolução será preta ou então não será.

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