O exercício diário das mulheres para construir igualdade de gênero no Exército

Autor: Ana Beatriz Rosa Data da postagem: 16:30 11/08/2017 Visualizacões: 49
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
O exercício diário das mulheres para construir igualdade de gênero no Exército / Foto: Instituto Igarapé

Pesquisa do Instituto Igarapé aborda a dificuldade no ingresso de mulheres nas Forças Armadas brasileiras

Um livro, lançado no ano passado, chamou atenção para uma história ainda pouco conhecida. A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, da autora russa Svetlana Aleksiévitch, foi dedicado às aventuras das soldadas soviéticas que lutaram durante a Segunda Guerra Mundial.

Soldados, generais e tenentes. As Forças Armadas são sempre vistas sob o ponto de vista masculino. Mas o fato é que as mulheres sempre participaram dos conflitos e hoje elas buscam por maior representatividade na linha de frente.

Uma pesquisa realizada nas Forças Armadas dos Estados Unidos mostrou que 22% das mulheres do Exército e 40% do Corpo de Fuzileiros Navais norte-americano gostariam de ter oportunidade de servir em posições de combate. Essas porcentagens representam um universo de mais de 50 mil mulheres. Na Nova Zelândia, cerca de 6% dos oficiais em postos operacionais e de de combate são mulheres, por exemplo.

"Ainda são poucas mulheres no Brasil e a história de uma delas é quase sempre a história vivida pelas outras. Precisamos normalizar que as mulheres podem sim ocupar espaço no front", explica Renata Avelar Giannini ao HuffPost Brasil.

Giannini é responsável pela pesquisa Situações extraordinárias: a entrada de mulheres na linha de frente das Forças Armadas brasileiras, em conjunto com Maiara Folly e Mariana Fonseca Lima.

A pesquisa abordou os desafios práticos e subjetivos para a plena integração de mulheres nas Forças Armadas do Brasil. Foram também analisados os parâmetros, as boas práticas e as lições extraídas da experiência de países selecionados, em especial na Europa e na América Latina. Tal seleção reflete a promoção de esforços, por esses países, que incentivam a participação de mulheres em suas respectivas Forças Armadas, inclusive em posições de combate. Para o caso brasileiro, a pesquisa desenvolveu-se a partir de três estudos de caso: a Escola Naval (EN), a Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN) e a Academia da Força Aérea (AFA). Essas são as três principais escolas de formação de oficiais das Forças Armadas brasileiras.

O relato publicado pelo Instituto Igarapé chama atenção da necessidade de políticas para acolher as mulheres nas Forças Armadas.

"Eu trabalho com esse tema há nove anos, mas nunca tinha ido até as escolas de formação. Que tipo de mudanças precisam acontecer para que mais mulheres possam ocupar as Forças Armadas?", argumenta Renata.

Instituto Igarapé

Histórico da participação feminina

A pesquisa ressalta que a entrada de brasileiras nas Forças Armadas foi regulamentada somente a partir da redemocratização.

Em 1980, a Marinha do Brasil (MB) tornou-se pioneira ao admitir mulheres em seus quadros. Elas passaram a integrar o "Corpo Auxiliar" e atuavam em funções administrativas e técnicas.

Nos anos 1990, o acesso das oficiais foi estendido aos Corpos de Saúde e de Engenheiros Navais. A partir de então, as militares passaram a ingressar por meio da estrutura oficial de Corpos e Quadros da Marinha.

Há cinco anos, no entanto, uma lei que altera o código de alistamento serviu para incentivar que o Exército também abrisse as portas para mulheres.

Em 2016, o primeiro concurso público nacional para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército teve a concorrência de 192 candidatas por vaga.

Apesar de elas estarem ingressando nas Forças, as mulheres ainda representam 8% de todo o quadro de funcionários e, em sua maioria, ocupam funções temporárias.

O ingresso das cadetes

"E aí, passou em Física?"

Para algumas das aspirantes da Marinha, esta foi a principal questão durante o primeiro ano de formação na Escola Naval. Tratava-se de uma brincadeira em tom pejorativo, já que no currículo das mulheres a disciplina de Física havia sido substituída por Cultura Organizacional.

O ingresso das mulheres nas Academias Militares é um ponto de virada no País. Porém, de acordo com a pesquisa, "o consenso de que mulheres têm habilidades cognitivas comparáveis a homens não se traduziu em consenso sobre o papel de mulheres em atividades operacionais".

"O objetivo não é que todas as mulheres sejam soldadas. Mas trata-se de igualdade de oportunidades. Você deixar algumas especialidades fechadas é contrário ao que é defendido pela nossa Constituição Federal. Não é que todas as mulheres precisem ser da infantaria, mas elas precisam ter a oportunidade de tentar", defende a idealizadora da pesquisa Renata Giannini.

Para Renata, é preciso que mais mulheres ocupem os espaços das Forças Armadas a fim de que seja desconstruída as visões estereotipadas.

"Gênero e forças armadas não são assuntos antagônicos. Ao contrário, gênero é uma ferramenta para compreender que muitas das diferenças entre homens e mulheres são socialmente construídas. É preciso atentar para que as diferenças fisiológicas não sejam usadas para justificar ideias baseadas em estereótipos", explica o relatório.

Mulheres nas Academias Militares

"Acho que qualquer área de atuação deveria ser aberta, mas desde que houvesse um requisito operacional mínimo. Não posso abrir para a mulher e por isso deixar de fazer uma atividade de infantaria. Com parâmetros operacionais idênticos é válido. O que não é saudável para inserção feminina é diminuir parâmetro para favorecer inserção" (Oficial, sexo masculino, AFA).

Entre homens e mulheres entrevistados pela pesquisa, os valores militares como disciplina, hierarquia, patriotismo, honestidade, abnegação, honra, responsabilidade, cumprimento da missão, camaradagem e outros foram citados como imprescindíveis para o exercício de qualquer função.

Ainda, os entrevistados destacaram que também são necessárias habilidades psicomotoras, físicas e emocionais que tanto homens como mulheres têm.

Porém, para o grupo ouvido, a manifestação de tais habilidades pode mudar conforme o sexo, como relata estas entrevistas:

"Temos que pensar que nos preparamos para ir para guerra. Por isso, temos que avaliar: é interessante ter a presença feminina? Ou será que não estamos querendo promover a entrada em lugares que ela pode não ser tão eficiente? Temos que pensar que o bem maior é proteger a nação. Em uma guerra você tem que mandar tropas para o combate e corre-se o risco de a atuação da mulher reduzir a eficácia da tropa. Será que é interessante correr esse risco?" (Cadete, sexo masculino, AFA).

E ainda:

"Eu constatei que existem diferenças na velocidade de aprendizado. Por exemplo, homem tem habilidade motora mais apurada, mulher tem mais cognitiva." (Oficial, sexo masculino, AFA).

Para Renata Giannini, a percepção da mulher no combate perpassa, ainda, um contexto geracional. De acordo com ela, é mais fácil para oficiais mais jovens vislumbrarem as mulheres ocupando espaços da infantaria, por exemplo.

A pesquisa conseguiu reunir algumas entrevista que apoiam tal visão:

"Incorporar a mulher é uma maneira de evoluir. Nos EUA. No próprio Brasil, AFA e Escola Naval já têm, o EB precisa evoluir. Mulher no combate pode ter opinião diferente, percepção diferente, pode agregar na missão. Adiciona uma perspectiva à situação. Acham que comunicações e artilharia, armas técnicas, podem também ser abertas. Mas armas base, infantaria e cavalaria, que exigem esforço físico maior, precisa de estudo maior para futuramente inserir nessas armas, de modo que não seja prejudicial para elas nem para o EB. Vai depender do desempenho delas, para saber se vai abrir para outras armas ou não." (Cadete, sexo masculino, AMAN).

E também:

"Eu já vi situações aqui que a mulher se mostra até mais disposta que os homens, cantando com mais intensidade. Já vi exercícios com os homens acabados e as mulheres se mostrando bem. Agora, ela tem que ter liberdade de escolha, a infantaria e cavalaria, eu acho que poderia estar aberta, eu não vejo problema." (Oficial, sexo masculino, AMAN).

Para as mulheres, a construção de uma noção de igualdade é um exercício diário nas academias, como mostra os relatos destas oficiais.

"Acho que tem algo psicomotor — temos facilidade em umas coisas e dificuldades em outras. Mas tem mulher aqui que voa muito melhor que o homem. Aqui a gente constrói a igualdade, reforça que fazemos tudo igual ao homem." (Oficial, sexo feminino, AFA).

"Eu acho que não se deve restringir [a entrada das mulheres na Infantaria]; se ela quer, ela tem que ter a chance. E ela tem que ter ciência das consequências que isso pode ocasionar; ela tem que saber que pode a impactar ou não, inclusive negativamente. O homem também pode gerar impacto negativo; ela tem que estar dentro dos requisitos. Acho que a mulher só estará engajada no militarismo quando a Força começar a ver como militar e não como mulher." (Cadete, sexo feminino, AFA).

Instituto Igarapé

Baixa representatividade

"O ingresso de mulheres nas três principais academias militares para formação de oficiais no Brasil é um importante passo para a promoção de políticas de inclusão nas Forças Armadas brasileiras", defendem as pesquisadoras.

Mas a baixa representatividade ainda se deve, sobretudo, aos estereótipos de gênero que são associados ao papel social da mulher. Se na sociedade civil a mulher ainda é vista como "do lar", na militar a visão não é muito diferente.

Alguns dos desafios são a imagem da mãe e esposa, as dificuldades de reinserção após a maternidade, e a associação entre fragilidade, sensibilidade e emoção à mulher, o que dificulta que elas possam ascender na carreira.

"É comum o mito da força física associada às mulheres. Como se as mulheres fossem tão fracas que não pudessem ocupar outros cargos que não os administrativos. Esse discurso acontece na sociedade em geral, mas nas Forças Armadas é pior. Se encaixa certinho na construção da masculinidade do soldado. Porque se você for um soldado que não pense assim, você será visto como um soldado ruim, um soldado fraco", explica Renata Giannini.

A pesquisadora, também, chamou atenção para a necessidade das mulheres adotarem características masculinas, tanto físicas quanto de personalidade, para conseguirem ser respeitadas.

"É a ditadura do igual. Você adquire comportamentos e até a estética dita como masculina, como os cortes de cabelo. Mas assim como a sociedade, no exército temos uma diversidade. Existem muitas soldadas que não adotam esses estereótipos", analisa.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: