Dia dos Namorados: Kenia e Brás “Casamento entre negros é um ato político”

Autor: Silvia Nascimento Data da postagem: 18:00 12/06/2017 Visualizacões: 13138
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Kenia e Erico / Foto: Priscila Prade

Kenia Maria é uma jovem militante das antigas. Com 41 anos e sabendo como usar a Internet para promover suas ideias e trabalho, ela diz com orgulho que sua militância vem antes das hashtags e do feminismo capa de revista. A luta dela era corpo a corpo, no dia a dia da comunidade. Para atriz e empresária, amar homens negros sempre foi natural por conta da sua educação

Linda da cabeça aos pés, Kenia se sente uma rainha, por viver um amor “nobre” ao lado Érico Brás há 5 anos. Ela celebra o amor, porque Brás  a entende como mulher negra, a textura do seu cabelo, o corpo generoso, as dores em comum.

Nessa entrevista exclusiva para o site Mundo Negro, ela fala sobre seu relacionamento com marido, boleiros negros que amam loiras, seu trabalhos com a família e claro, seu novo posto como Defensora Dos Direitos das Mulheres Negras  na ONU Mulheres Brasil. Brás também fala conosco sobre sua musa.

Mundo Negro:  Na música Ponta de Lança, Rico Sapiência fala dos pretos e pretas que estão se amando. Você tem notado um aumento no número de casais negros? Quando a gente ama nossa negritude, o natural é procurar alguém como a gente?

Kenia Maria: A arte é um grande instrumento de transformação, de conscientização e manipulação. Todos os sistemas autoritários que pretendiam submeter uma etnia a outra, usaram a arte para manipular isso, como no nazismo. No Brasil “Casa Grande e Senzala” (Gilberto Freire/1933) fala muito bem de como deveria ser a relação afetiva de negros e brancos. Na arte sempre foi fortalecida a ideia de não ficarmos juntos. Desde a época da escravidão, desde de África nos separaram, por línguas, tribos, para gente não se reconhecer, não se gostar, porque nos gostando seríamos muito fortes. Uma família negra que aparece num comercial de TV, no cinema, nos muros de São Paulo ou qualquer lugar de manifestação artística, tem um poder incrível de transformação.  Um amigo meu estava dizendo que na favela preto casa com preta, mas a gente sabe que saindo de lá as coisas mudam, porque isso foi ensinado. Temos que mostrar que a gente se ama, é uma luta, e isso não deixa se ser político, casamento entre negros é um ato político. As pessoas costumam estranhar quando eu estou com Érico. Acham que sou irmã dele, babá, assessora, bom assessoria eu sou, ( risos ), acham tudo, mas quando digo sou mulher é um espanto.

Reprodução/Ellen Soares/Gshow

Mundo Negro: Érico, o que te fez perceber que a Kenia era A mulher para você? A cor foi só um detalhe ou a negritude estava “dentro do pacote”?

Érico Brás: A gente se conheceu no centro do Rio de Janeiro e a princípio a beleza dela me chamou a atenção. Ela flutuava com leveza ao atravessar a rua do Ouvidor com a Buenos Aires. A cor dela já era uma prerrogativa para atrair o meu olhar. De onde venho mulher negra tem um diferencial. Mas Kenia trazia um frescor apaixonante no olhar que me rendeu de imediato. Com o passar do tempo percebi que as suas qualidades iam além da atração física. Ela é inteligente, amorosa e viva.

Vocês podem ver nas nossas redes sociais – Facebook e Instagram – que o amor é ingrediente do nosso dia a dia. Descobrir que ela era minha melhor e única companheira quando nos declaramos para outro: EU TE AMO. Foi fatal. Esse amor ele é vivo nas nossas empreitadas, momentos de lazer e com a família. Ele é o motor da nossa relação. O nosso amor nos cura das feridas da vida.

Reprodução/Ellen Soares/Gshow

Mundo Negro: Kenia quando sua mão negra se encontra na mão negra do Brás, como você sente a sua ancestralidade. Vocês juntos parecem rei e rainha, vocês se sentem desse jeito, se tratam desse jeito?

Kenia Maria: Nossa relação começou com uma atração. Eu fui criada por uma família negra, feminista e militante e onde há poucos relacionamentos inter-raciais. Então aprendi a admirar homens negros. Meu primeiro casamento também foi com homem negro e sempre namorei homens negros.  Como todas as mulheres do nosso país, eu tive dificuldades por ser uma menina de subúrbio, comunidade. Mas sempre tive essa preferência. E o Érico por ser uma pessoa criada no bairro preto Curuzu, na Bahia, num grupo de teatro onde a politica é a regra, onde não se pode se pensar ator, sem se ver negro. Aí nos encontramos, fizemos uma parceria que depois virou casamento e que é um ato político. Temos consciência disso quando a gente aparece junto em revistas, as pessoas ficam impactadas. Muita gente estranha nossa relação porque meu trabalho sempre foi de militância em uma época que ela não era capa de revistas importantes, como Vogue e Marie Clarie, então as pessoas não me conheciam. Eu me sinto uma rainha sim, porque a relação com um homem negro consciente é muito diferente. Um homem negro que gosta de uma mulher negra, que entende do cabelo, da textura, não tem medo de botar a mão nesse cabelo e entende que o corpo da mulher negra, nunca vai ser igual ao de uma mulher branca. Eu sou uma mulher com quadril, sou uma mulher grande. Não sou melhor nem pior, mas sou diferente, sou uma mulher negra. Quando a gente encontra alguém que entende e aceita a gente dessa forma é nobre, eu me sinto uma rainha.

Foto: Divulgação

À frente da Defensoria Dos Direitos das Mulheres Negras na ONU, suas reflexões sobre nós (mulheres negras) se intensificaram. A solidão da mulher negra, na sua visão é uma realidade?

Eu sou de uma família de militantes. Minha mãe nos anos 70 já ostentava um black power com o meu pai, que era amigo do Toni Tornado. Na minha família tem Mestre Celso que é fundador do Engenho da Rainha, um importante movimento de capoeira. Nos anos 90 na época de Xuxa, paquitas e “angélicas”, minha mãe me colocou para fazer dança afro e recorri aos grupos afro da Bahia, o Orumilá que me levou à dança e a militância. Morar fora me fez despertar mais a esse lado político em mim, eu fui mãe fora do país na Venezuela, onde racismo não era crime na época e minha filha  Gabriela sofreu muito. Quando volto para o Brasil eu e minha filha criamos o “Tá Bom Pra Você?” quando ela tinha 13 anos, hoje ela tem 18. Hoje sinto o Brasil vivendo um novo momento do Movimento Negro, a informação e tecnologia deixou a coisa mais democrática, mas a internet ainda não é , senão teríamos Youtubers negras ganhando dinheiro com publicidade e com milhares de seguidores como acontecem com as brancas. A questão da ONU chegar é por conta dessa militância. De coisas que abri mão de fazer, por cause das minhas raízes. Até meu nome é uma homenagem que minha mãe fez a um país africano. Eu estou reforçando um coro e sempre volto a olhar para as minhas irmãs, Sueli Carneiro, Vilma Reis, Djamila Ribeiro, Lélias Gonzales e tantas outras, para ver o que estou falando. Só vai funcionar se for coletivo. O aumento da violência contra a mulher negra aumentou 54% depois da lei da Maria da Penha e contra mulher branca caiu 10% . Não podemos pensar essas questões, sem um recorte de raça.

Mundo Negro: Como você explica essa preferência de negros bem sucedidos por mulheres brancas?

Kenia Maria: Eu fui casada dos 20 até 33 anos com um homem negro, da mesma comunidade que eu e quando mudamos para Venezuela,  ele era jogador de um time da primeira divisão, ele percebeu que tinha algo estranho e esse algo estranho era eu. Eu era única mulher negra em um meio repleto de mulheres parecidas com Barbies. As que não era, iam rapidamente clarear o cabelo e colocar silicone. Eu sempre era confundida como babá dos meus filhos, ou enfermeira do time. E eu consegui perceber nele, o momento que ele teve essa confusão, e os colegas o questionavam. O mais estranho era que quando eu voltava para o Brasil de férias, depois da separação, esses jogadores mandavam presentes, dinheiro para entregar as suas ex-mulheres que ficavam no Brasil e quando me encontrava com elas, a surpresa, eram todas negras. Todas. Você via a substituição é automática. Como disse antes, isso é ensinado e estimulado na família, que clarear é mostrar que é bem-sucedido. Meu marido mesmo disse que o pai dele falava muito sobre “mulher de presença”, que é a mulher de fenótipo ariano. A negra é a que não tem presença para estar em certos lugares, vai dar escândalo. O machismo também está ligado a isso, a boa casa, o bom carro e a boa mulher, que é a branca.

Mundo Negro: Vocês dividem o palco juntos e um canal no Youtube juntos. Ser casado com que tem o mesmo ofício tem mais vantagens ou desvantagens?

Eu sempre costumo dizer que a mulher negra anda com duas malas. Enquanto os homens carregam a do racismo a gente carrega a do machismo e do racismo. Eu sempre serei mais cobrada, eu sou muito elogiada porque eu agencio a carreira dele, por ele estar a 5 anos em uma grande empresa. Ele me paga para isso, porque eu não sou uma ótima mulher recatada e do lar, eu faço um trabalho há mais de 20 anos, antes atletas agora artistas, então não gosto desse título. O “Tá Bom Pra Você?” é uma criação de duas mulheres negras. Como o Érico era ator, muitos não acreditaram que a ideia e o roteiro eram meus. Então tem essa desvantagem, essa armadilha. Até meu discurso como militância, tem gente que pensa que eu aprendi com o Érico. Minha família tem milhares de pessoas do axé, minha mãe é feminista e de repente parece que tudo o que sei veio dele, parece até que ele me pariu (risos).

Ele é um grande companheiro, mas eu venho de uma militância muito antes de hashtag, era corpo a corpo, e é doloroso ser definida como mulher de alguém. Nós precisamos estar alertas para gente não perder nosso mérito, criação e autorias, pelo simples fato de ter um macho, mesmo que ele seja negro.

Primeira webserie negra brasileira e peça com marido

O “Tá Bom Pra Você?” fez 4 anos esse ano e é uma ideia da Gabriela que era de fazer uma webserie de uma família negra que mora na zona sul e os conflitos que se dá quando o negro sai do lugar que o negro denominou para ele. Criamos roteiros a partir da nossa vivencia e descobri que somos a primeira web-série negra brasileira, protagonizada por negros e devo isso a Gabriela, as ideias e questionamentos dela. E agora a gente sai da Internet e vai direto para o palco. Dessa vez, vou eu e Érico porque Matheus, meu filho que é um dos atores do projeto está fazendo medicina e Gabriela está se dedicando a arte dela e se lançando como cantora no próximo semestre.

Double Black: peça do casal que estreou Salvador (Foto: Divulgação)

Tivemos a ideia de criar o Double Black que é um Stand Up, um musical e também a nossa história, uma comédia romântica e como diz o Érico, é “uma mistura de Brasil com Egito” (risos). Falamos de forma divertida sobre como nos conhecemos e outros assuntos que falamos no canal. O espetáculo foi lançado em Salvador no Teatro Jorge Amado, no dia 2 e 4 de junho e estamos agora fechando uma agenda que depende muito do Érico, meu companheiro de palco. Em breve estaremos nos palcos do Brasil, quiçá do mundo.

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