Carolina Maria de Jesus: a Cinderela Negra da literatura do século XX

Autor: Fabiana Lapa Data da postagem: 18:30 17/03/2017 Visualizacões: 4024
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Carolina Maria de Jesus: a Cinderela Negra da literatura do século XX / Foto: Obvious Mag

“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.”

A presença de mulheres negras na literatura foi marcada por preconceitos de raça e de gênero, uma vez que o sujeito feminino também teve uma longa história de submissão e inferiorização por causa da conjuntura social, fortemente marcada pelo patriarcalismo e por um tratamento marginalizador, ao longo do processo androcêntrico de construção da nossa sociedade. Vítimas do conceito de inferioridade intelectual feminina, mulheres eram forçadas a uma passividade e incapacidade intelectual que não lhes rendia qualquer espaço. Num campo em que predominam valores tradicionais arraigados às práticas sociais e culturais, escritoras produzem uma literatura particular, construída pra vencer barreiras, denunciar e ultrapassar limites impostos. Nesse contexto, um nome jamais pode ser esquecido: Carolina Maria de Jesus, que reconhecidamente, contribuiu de forma produtiva e inteligente, na construção de espaços para o protagonismo feminino. Muitas foram − e continuam sendo − as dificuldades encontradas para a instrução da população negra, especialmente para as mulheres, na luta para vencerem o preconceito de classe social, de raça e de gênero, numa sociedade escravocrata na qual foram sentenciadas a trabalhos domésticos, longe dos livros e impedidas de ocuparem outros espaços sociais. Esses foram alguns dos grandes desafios dessa incrível escritora que, com louvor, enriqueceu nossa literatura.

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Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, nasceu na comunidade rural de Sacramento, Minas Gerais, cidade onde viveu sua infância e adolescência. As dificuldades já começam em sua data de nascimento, 14 de março, que é aproximada. O ano era 1914 e, naquela época, registrar uma criança negra era uma tarefa difícil para as famílias, sobretudo pela questão financeira. De família pobre, composta por mais sete irmãos, trabalhou desde a infância. Apesar de analfabetos, seus pais a matricularam no colégio espírita Allan Kardec, provavelmente entre os anos de 1923 e 1924, cujo trabalho era voltado às crianças pobres da cidade, onde Carolina só estudou por dois anos. Esse curto período foi o suficiente para que ela se apoderasse das palavras de uma forma única. Carolina Maria desejava ir além: queria usar a literatura para fugir daquela realidade desumana e tomar as rédeas de sua vida para si.

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Entre mudanças com a família, grandes dificuldades econômicas e a morte da mãe, vai para São Paulo em busca de melhores condições de vida, em 1947, momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade. Lá, depara-se com a face excludente da cidade grande e presencia questões que se estendem até os dias de hoje. A opressão sofrida por uma mulher branca e de classe média, não é igual à sofrida por uma negra, moradora da favela. Naquela época, Carolina já tinha um olhar cuidadoso em relação a isso, presenciando não só os abusos sofridos pelas periféricas, como refletindo sobre a questão da solidão da mulher negra.

Carolina trabalhou como empregada doméstica na casa de um médico, e usava seus dias de folga para explorar a extensa biblioteca que o patrão cultivava, iniciando assim, a construção de um rico repertório literário. Em 1948, após um envolvimento passageiro, descobriu que estava grávida e acabou perdendo o emprego. Desempregada, Carolina se tornou catadora de papel e construiu um pequeno barraco, na favela do Canindé, para conseguir sobreviver. Teve vários envolvimentos amorosos quando jovem, mas sempre foi avessa ao casamento por ter presenciado muitos casos de violência doméstica. Preferiu permanecer solteira e cada um dos seus três filhos teve um pai diferente.

Nas inúmeras andanças provocadas pelo recente ofício, acumulou em sua casa um grande número de folhas e cadernos encontrados no lixo, que serviam de material para que ela escrevesse sobre a realidade que a cercava. Carolina se orgulhava das páginas que escrevia e queria ser reconhecida por isso. Procurou diversas vezes quem pudesse ajudá-la a publicar seus textos, até que em 1958, o jornalista Audálio Dantas foi até a favela do Canindé para fazer uma reportagem. Aproveitando a presença do jornalista, Carolina o levou até sua casa e mostrou as dezenas de cadernos que havia acumulado, relatando o cotidiano do lugar em que morava e como era ser uma mulher preta e pobre. Naquele momento, Audálio percebeu que a descrição feita por ela era muito mais rica do que qualquer reportagem que ele tentasse fazer, porque Carolina vivia a favela, a pobreza e a fome.

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Para a escritora, a favela era tão preterida, que se configurava como o quarto de despejo de uma cidade. Essa expressão deu título à sua principal obra, “Quarto de Despejo: O diário de uma Favelada”, lançado em 1960, com notável sucesso editorial.

"Não digam que fui rebotalho/ que vivi à margem da vida/ Digam que eu procurava trabalho/ mas fui sempre preterida/ Digam ao povo brasileiro/ que meu sonho era ser escritora/ mas eu não tinha dinheiro/ para pagar uma editora."

Assim, "Quarto de despejo: O diário de uma favelada", publicado e traduzido em diversas línguas, foi a principal obra da autora. Ao trazer a descrição da própria realidade em sua produção, ela também coloca, automaticamente, o cotidiano de diversas outras pessoas negras e periféricas, nas páginas de um livro. Isso fatalmente as tira de uma situação invisibilizada, tornando-as mais fortes e confiantes. Enfrentar um contexto racista com orgulho da sua cor, de seu corpo e valorizando sua própria produção intelectual como algo valoroso e rico, era um ato rebelde de Carolina.

Carolina não parou de escrever até a morte, em 1977, em decorrência de uma forte crise de asma. O eco nos escritos de mulheres negras, como ela, podem ser encontrados nos movimentos negros pelo país. A construção literária de mulheres negras escritoras é parte da luta pelo reconhecimento dos direitos, dignidade e autonomia da população negra, assim como uma grande ferramenta de mobilização e emponderamento. O papel de Carolina Maria de Jesus, como poetisa, autora de uma produção forte e uma sensibilidade literária grandiosa, deve ser reconhecido e amplamente divulgado para que a vida e obra dessa grande mulher, esquecida por não se enquadrar nos padrões destinados erroneamente às mulheres negras da época, não continue ocupando o lugar dos bastidores, sem privilégios e sem protagonismo.

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