“Ser negra e periférica na universidade pública não é tarefa fácil”

Autor: Redação Nós Mulheres de Periferia Data da postagem: 13:30 06/08/2016 Visualizacões: 2786
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Bruna da Silva Magno é de Cidade Ademar.

Eu entrei na universidade em maio de 2010. Sou uma mulher negra criada na zona sul da cidade de São Paulo, mais especificamente na região da Cidade Ademar.

Atualmente, curso o bacharelado em matemática na UFABC – (Universidade Federal do ABC). Depois do esforço dos meus pais de pagarem um cursinho em 2009, mesmo conseguindo um grande desconto na mensalidade e do meu esforço de cursar o meio mais branco e elitizado que já passei do qual ainda trago péssimas recordações, eu consegui entrar em uma universidade pública. Quase não havia negras e negros em 2010, isso mudou e tem mudado, mas de forma lenta.

Não cheguei a imaginar a vida na universidade. Para mim, entrar nela era uma meta, colocada pelos meus pais e pela sociedade, para que eu tivesse uma vida melhor que as gerações anteriores. No começo eu levava as dificuldades, porque afinal deveria ser grata por estar naquele lugar, mas com o passar do tempo a distância (duas horas para ir e horas para voltar), o preço do bandejão que só aumentava e aumenta e até mesmo a solidão, porque a maioria das pessoas que entraram comigo já haviam desistido, foram se tornando muito presentes.

Toda vez que eu ia minimamente mal em algum aspecto eu sentia que não pertencia àquele lugar, toda vez que eu olhava ao meu redor eu sentia e sinto que não pertenço àquele espaço. Tenho consciência de que é preciso ocupar os espaços, mas em muitos dias essa tarefa é incrivelmente difícil. Isso se une com a necessidade de ser forte e infelizmente isso suprimiu por muito tempo minha capacidade de ser eu, de mostrar meus sentimentos, e eu sei que isso afeta diversas mulheres negras que se veem tendo que ser fortes.

Os professores e as poucas professoras não entendem que às vezes meu desânimo é por não me sentir inteligente o suficiente, por uma questão de gênero e racial, em um curso que é necessário ter várias ideias criativas, mesmo racionalmente sabendo o quanto sou inteligente. Atualmente tenho recarregado minhas energias no Coletivo Negro Vozes, que é o coletivo negro da minha universidade.

Passamos por várias dificuldades na UFABC. A comunidade de um modo geral teme um único edital que irá contratar docentes para a área de relações étnico-raciais, um edital que permite a entrada de uma professora ou professor por meio de cotas raciais. Isso mostra o quanto a sociedade racista teme a presença do negro e teme discutir questões raciais. Seja porque não o considera pertencente àquele espaço, seja porque sua presença o lembra de seu próprio racismo numa sociedade criada sob o manto da falsa democracia racial.

A maioria das pessoas não entende o quanto sou sensível a um edital que coloca a possibilidade de professores entrarem por meio de cotas e o quanto isso é importante para mim e para o resto da comunidade negra. Momentos como estes me mostram como é necessário lutar, porque um dia essa professora ou professor vai fazer a diferença na vida de um(a) estudante que poderá finalmente ter um pouco mais representatividade do que nós tivemos.

Não quero que considerem meu dias de desânimos ou minhas crises de choro como simples sinais da minha fraqueza, nem que considerem meus gritos de raiva como sinais de uma pessoa simplesmente furiosa, mas sim como sinais da minha humanidade, uma humanidade que sempre me foi negada. Sou jovem, sou foda e sou negra! qualquer semelhança com uma música da Nina Simone(To Be Young, Gifted and Black) não é mera coincidência, sei que somos muitas e muitos, estamos aqui e em diversos espaços, ocupando e resistindo.

Bruna da Silva Magno é de Cidade Ademar (zona sul de SP), tem 25 anos e é estudante de matemática da UFABC. 

 

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