Do porão ao ringue

Autor: Aiuri Rebello Data da postagem: 12:30 19/05/2017 Visualizacões: 85
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Do porão ao ringue / Foto: Fernando Naiberg - UOL

Órfão africano foge clandestino de navio para o Brasil com sonho de jogar bola, mas acha vocação como lutador

É campeão

Quando o gongo soou no final do terceiro assalto de uma tarde abafada em Salvador no início de maio, Mohamed Camara, 24 anos, já sabia: era o novo campeão baiano de boxe amador, na categoria até 69 kg.

Havia lutado bem, com mais volume de golpes e acertos que o adversário. Os juízes foram unânimes e deram a vitória nos três rounds para o africano naquela final. "Estou muito feliz, batalhei demais para isso e estou vendo o resultado, é muito bom", disse o novo campeão baiano dos meio médios.

A campanha deu início a um cartel auspicioso para quem sonha ser campeão mundial de boxe e MMA: quatro lutas e quatro vitórias no boxe (um nocaute, um w.o. e duas por pontos). o MMA, seu grande objetivo na vida, ainda não possui lutas oficiais.

O título de campeão de boxe, ainda que incipiente, fecha mais um capítulo na incrível e por vezes inacreditável história de Mohamed. Sua saga começa no porto de Conacri - capital da Guiné, um dos países mais pobres da África - quando o órfão então menor de idade embarcou clandestino em um navio rumo ao Brasil com o sonho de ser jogador de futebol, oito anos atrás. Hoje, os sonhos e objetivos são bem diferentes de tempos atrás.

Da Guiné ao Brasil, órfão no porão de um navio aos 16

Mohamed não gosta de olhar para o mar. Toda vez que vê a linha do horizonte, onde a água mistura-se com o céu na orla de Salvador, fica triste e desvia o rosto.

"É muito bonito, mas traz muitas lembranças", diz o jovem lutador em português quase fluente, com forte sotaque francês. "Faz pensar na vida, e pensar demais não é bom, temos que olhar para o futuro".

Do outro lado do Oceano Atlântico, Mohamed deixou sua terra natal, a África, e o irmão gêmeo. Nascido em Conacri, capital da Guiné ­ um dos países mais pobres do mundo, na costa ocidental do continente ­ perdeu a mãe no parto e o pai, 14 anos depois baleado em um greve geral. Ele e o irmão viveram com parentes a partir daí. Passou um tempo com familiares na França e voltou. Depois que a avó morreu, diz que eram mal tratados por um tio, e assim resolveu fugir.

"Gostávamos muito de assistir jogo da seleção brasileira, e meu pai sempre dizia que um dia ia trazer a gente para conhecer o Brasil", lembra. Suas memórias e histórias da África são confusas e por vezes conflitantes.

Conta que era comum o embarque de clandestinos em navios estrangeiros no porto de Conacri. "Havia muitas histórias, de quem era descoberto era jogado no mar para os tubarões, mas muitos guineenses faziam isso. Tentei várias vezes, mas nunca achei um navio que viesse para o Brasil".

Um dia a sorte sorriu para Mohamed. Sua tia grávida entrou em trabalho de parto. O órfão, então com 16 anos, foi mandado ao porto avisar o tio, que lá trabalhava. "Vi aquele navio enorme, Gran San Paolo. Era da Itália. Nos contêineres dizia: Salvador­BRA. Eu nunca tinha ouvido falar de Salvador, mas sabia que ia para o Brasil. Me escondi na carga e embarquei. Não avisei meu tio do parto até hoje", diz.

Sua explicação do embarque é confusa. Diz que não sabia que ia fazer a viagem, mas estava com o equivalente a algo entre R$ 300 e R$ 500 no bolso, que usou para subornar um guarda para deixá­lo passar para o cais. Não explica onde conseguiu o dinheiro, uma soma considerável para um adolescente na África.

Todavia, na travessia passou fome e sede, não havia levado nem uma mochila. Viu outros clandestinos serem pegos e desembarcados pelo caminho. Finalmente, sete dias depois, entregou­se para a tripulação. Apanhou um pouco, ganhou água e comida e ficou trancado em uma cabine até o fim da viagem.

Imagen: Fernando Naiberg

Celebridade imediata

Mohamed desembarcou no porto de Salvador sem falar uma palavra de português. Quando desceu do navio, já sob custódia da Polícia Federal, foi recebido por uma legião de jornalistas.

A história do menor de idade órfão que fugiu clandestino no porão de um navio da África para o Brasil com o sonho de virar jogador de futebol comoveu o país e foi notícia Brasil afora. Menor de idade, Mohamed não foi extraditado por entrar ilegalmente no Brasil.

Desde o início contou com a simpatia da imprensa, Justiça, PF, associações culturais de Salvador e, mais especificamente, com uma família da capital baiana que o "adotou" e apoia até hoje. Com o tempo, conseguiu regularizar sua situação e hoje vive legalmente no Brasil. Com a repercussão do caso, o africano ganhou chance em uma peneira nas categorias de base do Bahia.

Sonho de virar jogador naufraga após frustração no Bahia

Quatro dias após chegar a Salvador, estava em campo no Centro de Treinamento do Bahia. Nunca havia calçado chuteiras ou jogado em um gramado na vida. Era um peladeiro de rua. Ainda fraco da viagem, sem noção de posicionamento em campo, passe, domínio e finalização, o aspirante a atacante não foi bem.

"Ele não é um perna­de­pau completo, mas também não mostrou um futebol de destaque", afirmou na ocasião o treinador Newton Mota a jornalistas que acompanhavam o treino.

Após a frustração inicial, Mohamed teria outras chances: chegou a integrar a categoria de base de um time pequeno que disputa o Campeonato Baiano. Voltou ao Bahia para uma temporada sendo testado na base, mas não tinha nenhum futuro como jogador de futebol. Fora isso, sua cabeça já acalentava outro sonho: ser lutador de MMA.

Clandestino vai à luta (de novo)

Recomeço nos ringues: perdendo o medo de apanhar

Ao decidir que trocaria o sonho de boleiro pelo de lutador profissional de MMA, Mohamed procurou o lugar certo em Salvador. Foi avaliado pelo treinador Luiz Dórea ­ responsável pela revelação e treino de grandes talentos ­ e ganhou uma chance de treinar com a equipe profissional da Academia Champion. Empenhado em vingar como lutador, treinou duro por três meses até ser colocado no ringue de boxe para seu primeiro sparring (luta­treino). "Achei que ia ser fácil, mas tomei um monte de soco na cabeça, apanhei demais", lembra o africano. "Mas ali também percebi que ia dar certo. Descobri que eu conseguia apanhar sem ficar com medo", afirma, explicando aquela que acredita ser sua maior qualidade como lutador. A evolução era rápida, e um ano depois estava pronto para estrear no MMA, com a primeira luta profissional marcada. Foi aí que uma série de lesões graves quase encerrou o sonho.

Lesões quase encerram o sonho de virar um lutador

Foram mais de três anos entre a primeira lesão no ombro e a estreia de Mohamed em um evento oficial. Os problemas começaram alguns dias antes da primeira luta profissional de MMA, no evento Champion Fight, organizado pela própria academia comandada pelo treinador Luiz Dórea. "Estava treinando e senti uma fisgada no ombro, mas continuei. A hora que esfriou, não conseguia mais mexer o braço, estava mole e paralisado, foi desesperador".

Remédios, imobilização, quase um ano de fisioterapia, volta aos treinos e nova lesão no mesmo lugar. "Dessa vez, fui para a cirurgia, meu ombro estava completamente bichado", lembra Mohamed. O procedimento não deu tão certo, e ele quase perdeu boa parte do movimento e da força do braço esquerdo. "Fiz mais um ano de fisioterapia especializada, e finalmente consegui voltar a treinar. Essa estreia e título são uma grande vitória para mim."

"Tem tudo para ser um grande campeão"

O treinador Luiz Dórea mantém uma academia de boxe e MMA em Salvador. Já revelou grandes nomes da luta brasileira como Júnior Cigano, ex­campeão dos peso­pesados do UFC, o ex­campeão mundial de boxe Acelino Popó de Freitas e o atual campeão de boxe olímpico Robson Conceição, entre outros.

Dórea diz que acredita no potencial do africano. Para ele, o guineense aprende rápido, bate forte e tem uma garra acima da média. "Tem uma condição física muito boa, é muito forte para o tamanho dele e tem uma explosão impressionante", avalia as principais qualidades do pupilo.

Ele conta que Mohamed sempre quis lutar MMA, mas depois das lesões o aconselhou a investir primeiro no boxe. "Vou insistir para ele continuar no boxe, tem tudo para ser um campeão mundial. Se insistir no MMA, tudo bem, o boxe vai ser o grande diferencial dele".

"O Mohamed tem uma história de vida muito bonita, mas não é por isso que ele está aqui. Aqui tem muitas histórias bonitas, e não tem boi pra ele não".

"Alá colocou pessoas boas no meu caminho"

A vida de Mohamed, desde que chego ao Brasil, foi recheada de encontros que mudaram sua sorte para melhor. "Alá sempre colocou pessoas boas no meu caminho desde que cheguei", concorda o jovem. Muçulmano praticante, reza cinco vezes por dia e frequenta a mesquita de Salvador.

Logo que desembarcou clandestino em Salvador aos 16 anos de idade, foi levado para o Juizado de Menores. Desde os primeiros momentos no Brasil, contou coma amizade do policial federal que fez seu desembarque. "Me levou para casa e fiquei com a família dele nos primeiros dias, somos amigos até hoje", diz.

Paralelamente, a história do órfão africano que embarcou clandestino em um navio rumo ao Brasil com o sonho de ser jogador de futebol comoveu uma desembargadora do TJ­BA (Tribunal de Justiça da Bahia), a quem chama de mãe, e seus filhos ­­ um deles chama de pai.

"Meu pai e mãe sempre estiveram ao lado desde o começo. Me ajudaram com a legalização, foram meus tutores legais, me ajudaram a ter onde morar, oportunidades para trabalhar, jogar bola e lutar. Devo tudo a eles", diz ele.

Nestes oito anos no Brasil, fez de tudo um pouco: concluiu o Ensino Médio em curso supletivo, jogou futebol, lutou capoeira, boxe e MMA e teve diversos empregos. O francês da terra natal ajudou a conseguir trabalhos como garçom, mensageiro e atendente de hotel, balconista em uma sorveteria e vendedor, entre outros.

Há cerca de um ano, Mohamed começou a namorar uma médica um pouco mais velha e passou a ficar cada vez mais tempo na casa da companheira, que vive em uma confortável cobertura de um bairro nobre de Salvador. Divide o tempo entre os treinos, a casa da "mãe" e a da namorada.

Desde que recuperou­se de vez da lesão no ombro, parou de trabalhar para dedicar­se à vida de atleta. "Conseguimos algumas ajudas e por enquanto está dando certo", diz Mohamed, ao explicar que ainda não tem patrocínio, mas conta com um apoio de uma academia onde faz treinamentos físicos como musculação.

Reencontro com irmão gêmeo e retorno à África

A vida que Mohamed encontrou no Brasil é, segundo o próprio, muito melhor do que a que ele tinha na África antes de fugir para cá oito anos atrás. Nunca mais passou fome nem dormiu ao relento ou sofreu algum tipo de violência. Vive uma vida confortável a ponto de hoje não precisar trabalhar e poder dedicar­se a perseguir o sonho de ser atleta.

Mesmo feliz no Brasil, Mohamed sente falta da África e da família. "Quero muito reencontrar meu irmão gêmeo, penso nele todos os dias, sinto muita saudade".

Segundo ele, havia prometido ao irmão que um dia iria buscá­lo para vir morar no Brasil também, mas não deu tempo. "Uns dois anos depois de eu fugir, ele foi morar com um tio nosso no Canadá. Hoje ele trabalha e estuda lá", diz ele, sem muita firmeza.

"Quero encontrar com ele lá na Guiné. Ele vai quase todo ano visitar a família, eu ainda não fui nenhuma vez", diz. Quando conseguir a primeira boa bolsa por uma luta, diz, vai investir nessa viagem. "É minha terra natal, então sinto falta da África. Do sorriso e da simplicidade das pessoas, do clima, dos cheiros, sinto saudade de tudo. Não quero ir morar, mas preciso voltar lá."

Edição de texto: Celso Paiva; Edição de vídeo: Marcio Komesu; Imagens: Fernando Naiberg; Reportagem: Aiuri Rebello.

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