Especialistas defendem ensino da cultura negra nas escolas e universidades

Autor: Maria Irenilda Pereira Data da postagem: 10:00 16/05/2018 Visualizacões: 540
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Denilson Tourinho, ator e mestrando em educação na UFMG / Foto: Beto Novae - EM - D.A.Press - Reprodução - Diário de Pernambuco

Medida é apontada como um dos caminhos fundamentais para diminuir a desigualdade racial em vários níveis da sociedade. A Lei 10639 já torna obrigatório, desde 2003, o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares

Quantos professores negros você teve ou tem na escola? A mestre e doutora em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Yone Maria Gonzaga, de 54 anos, não teve um sequer. Nem enquanto cursava os ensinos fundamental e médio, nem na graduação em letras. “Só fui ter uma professora negra no mestrado”, conta. Em 1995, Yone estava entre as 30 mil pessoas que se reuniram na histórica Primeira Marcha Zumbi dos Palmares, em Brasília, para denunciar o preconceito, o racismo e a ausência de políticas públicas para a população negra. O movimento abriu caminho para debates importantes que resultaram na criação das políticas afirmativas no Brasil. O sistema de cotas raciais foi implementado de forma gradativa nas universidades brasileiras a partir dos anos 2000.

Yone defende o sistema de cotas e ressalta a importância da representatividade negra, em especial, no meio acadêmico. “Mais que um direito, as cotas é um processo de justiça. Precisamos ter representação em todas as áreas, sobretudo, no campo da educação”,pontua. Mesmo com as políticas afirmativas, a representação preta nas universidades ainda é muito baixa, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2015. A pesquisa aponta que apenas 12,8% dos estudantes matriculados em instituições de ensino superior no Brasil, entre 18 e 24 anos de idade, são negros.

Se entrar na universidade já é difícil para a população negra no Brasil, a parcela que entra, encontra outros desafios dentro da academia. Na UFMG, Yone desenvolveu uma pesquisa sobre a gestão universitária com base nas relações raciais a partir da implementação de políticas afirmativa. “A gente verifica na pesquisa que há deslocamentos do ponto de vista acadêmico, do ponto de vista das disciplinas, do ponto de vista do currículo, mas ainda há muito a avançar”, comenta.

Outro Olhar

A reprodução de conhecimento sob a ótica branca e a falta de pautas que contemplem a diversidade foram algumas das deficiências apontadas pela pesquisa da educadora.“A nossa matriz de conhecimento sempre foi eurocêntrica. Isso também é reproduzido na grade curricular da universidade. Então trazer nosso conhecimento africano e afro-brasileiro para dentro da academia é fundamental para se construir um outro olhar”, explica. A universidade, segundo ela, vive um processo de transição e tem buscado se adequar, o que demonstra o poder de transformação da representatividade. “Em termos da matriz curricular, a universidade, desde 2013, vem implementando as disciplinas dos saberes tradicionais africanos, afro-brasileiros e indígenas. Conhecimentos até então eram invisibilizados nessa dinâmica racista”, pontua.

Ela defende que esse movimento de mudança ocorra também em instituições de todos os níveis de ensino. “Nossas crianças, jovens e adultos precisam aprender que descendemos de reis e rainhas africanos e não de pessoas escravas como muitas vezes tendem a dizer. A história dos negros precisa ser contada a partir desse referencial de pessoas altivas, de pessoas com conhecimento”, ressalta.

Pertencimento

O ator e mestrando em educação pela UFMG Denilson Tourinho também conduz pesquisas com a temática do povo negro. Segundo ele, é muito importante o reconhecimento das culturas e arte negras como princípios educativos. “Meu foco é nas relações étnico-raciais. É fundamental a gente conhecer dentro das nossas formas, até mesmo dentro do nosso próprio idioma, a forte presença africana. Na arte, as expressões, e corporeidade negra não é limitada exclusivamente ao samba e à capoeira”, argumenta.

Ele destaca que o país vive um momento importante de reavaliação do pensar e da educação sobre a valorização dos saberes negros. “Estamos passando por um processo de ‘afrobetização’. De alfabetizar para as relações de negritude, de pertencimento, e até mesmo de empoderamento”, pontua. Denilson observa que a educação é também fundamental até para a pessoa se reconhecer e se aceitar como negra. “Uma autodeclaração como negro perpassa até mesmo a aceitação do que a própria palavra representa. Até pouco tempo, essa palavra era carregada de sentido pejorativos até no dicionário”, comenta. No Censo de 2010, apenas 7,6% dos brasileiros se autodeclaram pretos para os pesquisadores do IBGE.

A crescente presença de pesquisadores negros dentro das universidades é comemorada pelo educador. “A produção do conhecimento propiciado também pelo negro nos leva as outras possibilidades, a outros entendimentos de pertencimento e de valorização”.

Legislação

A Lei 10639 torna obrigatório, desde 2003 o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares. A lei é um avanço na luta antiracista no país e na transformação do nosso sistema educacional.

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