Rotina de medo: professores relembram casos de agressão

Autor: Sarah Alves Data da postagem: 10:00 12/10/2017 Visualizacões: 100
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Muitos professores deixam de realizar denúncia por medo de possíveis represálias / Foto: JJ Thompson - Unsplash - Band

Educadores se apoiam na esperança para continuar em salas de aula do país, consideradas as mais violentas do mundo

A professora de Português Márcia Friggi, de 51 anos, não poderia imaginar que uma publicação em seu Facebook, em agosto deste ano, teria um alcance tão grande. Mais do que os milhares de compartilhamentos, o relato e a foto impactante de seu rosto ensanguentado após ser agredida por um aluno foram capazes de evidenciar um aspecto difícil e recorrente na vida de quem se dedica a ensinar no Brasil.

Márcia entrou para uma estatística crescente, após mais de dez anos de magistério, e trouxe à tona números que fazem do país o líder no ranking mundial de agressões a professores. Era uma segunda-feira quando a docente do ensino público de Indaial (SC) foi agredida verbal e sicamente depois de pedir a um aluno que colocasse um livro sobre a mesa.

Os xingamentos, socos e tapas deixaram, além dos hematomas, a insegurança e o trauma em voltar à sala de aula. Márcia passa por tratamento e vive os sentimentos de “incerteza, dúvida e medo” sobre o futuro na prossão. “Estou em tratamento, em um momento bem difícil. É como se tivesse perdido a identidade. Minhas certezas transformaram-se em dúvidas. Já não sei se terei condições de continuar exercendo o magistério”, conta.

No limite da prossão

Lúcio Candido, de 47 anos, também sofre com a realidade dura em sala de aula, que o levou à depressão e à desenvolver uma doença autoimune. Imerso em uma rotina de esgotamento físico e mental, o professor, que atua nas redes pública e privada da Bahia há 27 anos, tentou o suicídio três vezes. Na memória, carrega ameaças, intimidações e o racismo. No caso mais marcante, foi ameaçado por um aluno que cumpria medida socioeducativa por tráco de drogas.

“Ele entregou uma atividade e eu pedi que ele retirasse a rebarba do papel. Uma aluna me fez uma pergunta que eu tentei responder, e nesse meio tempo, o estudante jogou a avaliação fora. Peguei-a do lixo, fui a porta e o chamei. Ele voltou, eu perguntei porque ele a jogou fora, e ele disse que era ‘palhaçada’ eu obrigar a retirar rebarba do papel de uma avaliação que devia vir impressa”, relata.

“Você sabe com quem está falando?”, foi o que ouviu em seguida. Lúcio noticou à direção do colégio o ocorrido e no dia seguinte recebeu, perplexo, o pedido para que não fosse à unidade, pois o aluno e um comparsa entraram armados e renderam um professor parecido com ele. Dias depois, foi transferido para outra escola. “Em anos de trabalho já fui ameaçado por lhos de pessoas inuentes, direção escolar, estudantes… Sigo tentando fazer um trabalho diferenciado, mas confesso que às vezes penso em parar", desabafa.

Insegurança em denunciar

Procurar professores vítimas de agressões em ambiente escolar para esta matéria revelou uma faceta preocupante, com índices que crescem a cada dia e com prossionais que, infelizmente, ainda vivem o medo de denunciar os abusos. Segundo Álvaro Augusto Dias, conselheiro de base do Sindicato dos Professores na região de Mogi das Cruzes (SP), o principal receio é sofrer uma eventual represália após expor a realidade de violência. Professor de Filosoa na rede pública, ele mesmo já vivenciou momentos de tensão dentro dos colégios em que lecionou.

"Passei por 11 escolas nesses 12 anos de magistério. Quando iniciei meu trabalho docente em uma delas, tinham alunos que mastigavam folhas de caderno, cuspiam na mão esse papel e faziam um tipo de uma bola e atiravam em direção à lousa para tentar me acertar", relembra. Em uma vez, chegou a registrar boletim de ocorrência contra um estudante que ameaçou o agredir com socos. O aluno pediu desculpa dias depois do conflito. Para Álvaro, o trabalho do sindicato é fundamental no amparo e incentivo à denúncia. Ele conta que em maio deste ano, o índice de casos na região em que atua aumentou 133%, chegando a oito registros, ante três no mesmo período de 2016.

Resistência, apoio e resiliência são os mantras do prossional, que mesmo na diculdade para se deslocar entre as quatro escolas em que leciona todos os dias e com o permanente cenário de desvalorização, encontra a força na própria essência da prossão: ensinar e formar cidadãos em busca de um mundo igualitário e livre.

“Nada deve tirar nossas expectativas de tempos melhores, nem diminuir nossa capacidade e presteza para a mobilização e luta. Nós professores temos que comemorar o sentimento de que somos muito importantes, de que somos perseverantes, dedicados, de que acreditamos nas pessoas, especialmente em nossos alunos. Somos um diferencial na vida de muitos estudantes e na sociedade”, enfatiza.

Acompanhamento ajuda na recuperação

No caminho de sua recuperação, Márcia se aprofundou nas aulas de criação poética, a terapia alquímica da palavra. “Sou uma planta escura à beira do abismo. Fecho os olhos para o que me dói da vida e explode em mim a dor de não viver”, diz em um de seus textos. Lúcio passa por acompanhamento com prossionais e Álvaro, além da assistência jurídica, reforça o apoio psicológico oferecido pelo sindicato aos professores que o procuram.

Para a psicóloga Vânia Calazans, que atende prossionais vítimas de agressão, a necessidade do respaldo emocional nas instituições de ensino é essencial para frear os casos e atenuar as consequências da rotina. “O professor precisa de uma política de suporte emocional em que ele possa ter um espaço dentro da escola para ser atendido por um prossional que o ajude a lidar com as situações cotidianas. Se ele está tranquilo, seguro, ele terá um desempenho mais assertivo na sala de aula."

Adubados: doses de coragem e esperança

Com o propósito de debater a importância da conscientização sobre saúde mental, a paulista Patrícia Tostes criou o Adubados. A iniciativa atua em colégios promovendo palestras, workshops e cursos para professores e alunos, a m de desmisticar o autoconhecimento e questionar por que a aceitação da violência e do desmerecimento se tornaram, em tantas ocasiões, comuns aos prossionais da educação.

Módulo do projeto convida professores a "pilotar" sentimentos / Foto: Divulgação

"A ideia é levar a discussão de saúde mental e inteligência emocional para os educadores de forma simples e acessível, saindo do universo elitizado", diz. Formada em marketing, o aprofundamento no assunto veio em 2015 e no ano seguinte, o início “físico” do projeto. “Ouço desabafos do cansaço, da falta de participação das famílias e muitas vezes da própria comunidade escolar. Os educadores se sentem ‘largados’ e aí, voltamos no ciclo da violência. O professor exausto e sem cuidado não vai só se desgastar, como também reproduzir o que enfrenta em sala de aula", completa.

Propostas como o Adubados estão aí para abraçar quem forma a sociedade. Sonhar com uma carreira, com um futuro e encontrar um propósito não seria possível sem os ensinamentos de quem enfrenta, diariamente, as dores e delícias em ser a base de todas as prossões. “Aos alunos, peço que pensem no conhecimento e na cultura como um bem permanente. Valorizem a escola e seus professores e aproveitem o tempo de estudar. Carpe diem (Aproveitem o momento)", deseja Márcia Friggi.

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