O racismo brasileiro sob o olhar de um jornalista angolano

Autor: Victor de Carvalho Data da postagem: 12:26 09/10/2018 Visualizacões: 92
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Missa afro em São Paulo em comemoração ao Dia da Consciência Negra / Foto: Rovena Rosa - Agência Brasil - Reprodução - El País

No Brasil, país que hoje vai a votos para eleger um novo Presidente da República, o preconceito é quase como que uma instituição nacional que discrimina e marginaliza grupos de cidadãos que “ousam” afirmar-se pela sua diferença, sem qualquer tipo de complexo.

Entre os marginalizados está a comunidade negra, que ao longo dos anos tem sentido o quanto é difícil conviver lado a lado com o preconceito social de quem se julga superior pelo simples facto de ter um tipo de pele diferente.

O jornal “Folha de São Paulo” publicou uma matéria que revela, mais uma vez, a força que o preconceito tem no Brasil e onde  um cidadão angolano aparece envolvido como promotor de um concurso de beleza onde foi eleita a Miss África Brasil, uma jovem natural da Guiné-Bissau que chegou seis anos atrás ao país.

Samira Nancassa, de 28 anos de idade e mãe de um bebé com pouco mais de um ano, chegou ao Brasil com dois sonhos: concluir um curso superior e ser modelo.

Se o primeiro sonho ainda permanece intacto, o segundo esfumou-se quando engravidou de um homem de quem acabaria pouco depois por se separar. Por isso, foi hesitante que se inscreveu no concurso onde acabaria por ser eleita Miss África Brasil, para sua surpresa e gáudio das mais de 400 pessoas, na sua esmagadora maioria negras, que lotaram local onde o evento se realizou.

Neste últimas seis anos, Samira Nancassa lutou contra o preconceito de pessoas que fugiam quando a viam, pensando que podia tratar-se de uma assaltante, e das que lhe perguntavam o que estava a fazer num país que não era o seu.

O prémio conquistado no concurso é constituído por uma bolsa de estudos e uma viagem, o que a deixou satisfeita porque assim pode tornar realidade um dos sonhos que trouxe para o Brasil.

Por sua vez, o angolano Geovany Aragão, também ele de 28 anos de idade, organizador do evento, sentiu igualmente na pele os efeitos do preconceito racial sublinhando que foi isso que o incentivou a levar por diante a ideia de promover o concurso para eleger a Miss África Brasil.

Geovany Aragão chegou há quatro anos ao Brasil com a aspiração de se tornar jogador profissional de futebol. Hoje, passado esse tempo, orgulha-se de estar a fazer um mestrado em engenharia e de ser presidente de uma associação de estudantes africanos, deixando o futebol apenas para os tempos livres.

A realização do concurso, segundo ele, foi o pretexto que encontrou para mostrar à sociedade brasileira a capacidade das jovens africanas, para elevar a sua auto-estima e para divulgar a sua cultura.

A ideia foi a de dar de África a imagem de um continente que não precisa só de ajuda financeira, mas sobretudo necessita de ideias que ajudem ao seu crescimentos e de muita compreensão para aquela que é a sua realidade.

Estas são duas histórias de relativo sucesso que envolvem dois jovens imigrantes africanos que viram no Brasil uma plataforma para concretizarem os seus sonhos.

Porém, todos sabemos que existem muitas outras histórias, a esmagadora maioria, onde a luta contra o preconceito não teve o mesmo sucesso, tendo os sonhos sido desfeitos pela incompreensão humana daquilo que efectivamente é o continente africano, das esperanças e das ambições dos seus melhores filhos.

Infelizmente, o Brasil é apenas um dos muitos países onde o preconceito impera. Trata-se de um facto que não se esgota em questões raciais, mas se alonga a grupos minoritários que a sociedade marginaliza com uma tremenda falta de pudor.

A tendência verificada nas sondagens feitas dias antes da realização das eleições de hoje deixam perceber que nada de substancial se irá alterar a nível da governação, com a previsível vitória de um candidato de direita que por várias vezes manifestou as suas ideias discriminatórias em relação às minorias.

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