Espetáculo 'Preto' discute, a partir do racismo, o complexo diálogo com as diferenças

Autor: Márcia Maria Cruz Data da postagem: 17:00 13/04/2018 Visualizacões: 1075
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Renata Sorrah e Grace Passô em cena da peça / Foto: Nana Moraes - Divulgação - Reprodução - Uai

Com Renata Sorrah e Grace Passô no elenco, montagem da Companhia Brasileira de Teatro estreia quinta-feira (12), no CCBB

Preto, espetáculo da Companhia Brasileira de Teatro, estreia nesta quinta (12) no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB BH), propondo discussão sobre a coexistência das diferenças. “Preto fala da tentativa desesperada de diálogo entre pessoas tão diferentes, negras e não negras, a partir de questões relacionadas à negritude”, afirma a atriz e dramaturga Grace Passô, que, além de atuar, assina a dramaturgia com Márcio Abreu e Nadja Naira. Com direção de Marcio Abreu, o espetáculo traz no elenco a atriz Renata Sorrah e os jovens atores mineiros Felipe Soares e Rafael Lucas Bacelar. Preto é desdobramento de Projeto Brasil, desenvolvido pela Companhia Brasileira de Teatro e apresentado em 2015. O espetáculo cumpriu temporada no Rio de Janeiro e em São Paulo e foi encenado em Frankfurt e Dresden, na Alemanha, e em Paris, na França.

A dramaturgia propõe reflexão sobre como a sociedade tem lidado com as diferenças. O racismo é o ponto de partida. O propósito não é puramente discutir o racismo, tarefa que não se encerra, na avaliação do diretor, em um espetáculo de teatro. O espetáculo pretende ser um experimento da coexistência. As questões raciais tão latentes no debate do Brasil atual demonstram a dificuldade em colocar em diálogo pessoas com diferentes repertórios e vivências. Preto entra no debate com linguagem cênica construída por blocos distintos. “A linguagem do espetáculo reflete esse pensamento sobre diferença. Ela é formada por partes muito diferentes. Colocamos essas diferenças em convivência”, afirma Márcio.

O ponto de partida é a fala de mulher negra em uma conferência. No entanto, não há personagem: os atores entram em cena com os próprios nomes. A conferência “se desdobra e transmuta em diferentes formas e imagens”, adianta Grace. O formato do espetáculo foi proposto depois de uma conversa da companhia com a pesquisadora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (Fale/UFMG) Leda Maria Martins, que se dedica à pesquisa da cultura afro-brasileira. “Leda fez uma palestra para nós e para convidados. A experiência foi muito marcante para o processo. A peça é inspirada no que Leda nos deu. Depois desse começo, que é a conferência, alçamos voo, transbordamos em outras formas”, diz.

Grace lembra que faz parte da dramaturgia da Companhia Brasileira de Teatro não usar “referências diretas” na construção do espetáculo, que não se constitui como uma narrativa. Nas palavras de Grace, a peça traz inventário, coleção de imagens, frases e referências e questionamentos sobre negritude. “A voz dos atores vaza entre o público, mas não é interatividade. É um procedimento que dissolve a fronteira entre o público que escuta e o ator que fala”, adianta a dramaturga.

Márcio explica que a pequisa para Projeto Brasil ocorreu entre o final de 2012 e o início de 2013. “Naquele momento, era evidente que Projeto Brasil teria desdobramento. Todas as questões levantadas não caberiam numa peça só. “Como pensar o Brasil sem passar pela questão mais fundamental da formação do país, a história não contada a partir da diáspora negra, a dimensão do racismo?”, questiona Márcio.

A companhia se viu diante do desafio de tratar de assunto tão vasto quanto importante para construção de uma sociedade mais igualitária no país. “Decidimos que não iríamos falar sobre racismo, negritude, mas a partir disso”, afirma Márcio.

O elenco é formado por artistas com distintas trajetórias profissionais, brancos e negros, cujas diferenças suscitaram reflexões durante a montagem. “O processo de criação foi explosivo, por tudo”, lembra Grace, dizendo o quanto esse aspecto é positivo.

“O diálogo sobre a questão da negritude parece algo tão possível e, ao mesmo tempo, tão impossível”, afirma Grace. A atriz ressalta o quanto o texto dialoga com o momento atual do Brasil. Para Márcio, não haveria como ser diferente: “É um espetáculo muito importante nesse momento de dificuldade, perplexidade e muita violência social que o Brasil vive a partir do golpe”.

A Cia. Brasileira não mantém um grupo fixo de atores. Cada trabalho promove encontros artísticos. Em Preto, as parcerias ocorrem com Grace, Felipe e Rafael. “Não é um convite para fazer um trabalho e mais nada. É algo dinâmico. Há atravessamentos, diálogos com os artistas”, afirma Márcio. A parceria com Grace vem deste o início dos anos 2000. Coletivo de artistas de várias regiões do Brasil, a companhia foi fundada por Márcio Abreu em 2000, em Curitiba, no Paraná.

Preto

Direção de Marcio Abreu, com Cássia Damasceno, Felipe Soares, Grace Passô, Nadja Naira, Renata Sorrah e Rafael Lucas Bacelar. De quinta a segunda, às 20h, até 30 de abril. Teatro 1 do CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

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