Suzi Pires: Lugar de fala e poder de ação

Autor: Suzana Pires Data da postagem: 17:00 23/02/2018 Visualizacões: 3149
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Suzana Pires e Viviane Duarte / Foto: Arquivo pessoal - Reprodução - Marie Claire

Nossa colunista conta como assume sua voz e faz a diferença

Vocês já ouviram falar dessa expressão “lugar de fala”? Com certeza já se depararam com o termo, seja na capa do livro da Djamila Ribeiro, cujo título é esse e a reflexão também,  ou em qualquer discussão de movimentos sociais. A tradução é simples.

Lugar de fala é quem tem a voz de uma sociedade.

Se até bem pouco tempo atrás essa VOZ era reduzida a um único e minoritário grupo, o dos homens-heterossexuais-brancos, hoje é um direito de todos, trazendo uma desestabilização das regras, um rompimento com uma única conduta e um único conceito de mundo. É um redistribuir, tanto da fala, quanto da escuta e, principalmente, da ação!

“Lugar de fala” é você assumir sua VOZ e fazer do seu mundo, da sua comunidade, algo único, respeitando suas particularidades, problemas, qualidades e necessidades. É sair do geral, daquilo que até hoje foi normatizado como normal. Pois bem, se no lugar da fala obsoleta, as mulheres ocupavam o “lugar” do silêncio e só agiam na obediência, hoje temos um cenário em mutação, um cenário que estabelece a diversidades de “falas”. Fato  imperativo para a descolonização de um país.

Nosso PODER DE AÇÃO também precisa ser redistribuído e isso só acontece quando pessoas de CORAGEM tomam atitudes com o objetivo de conceder instrumental de empoderamento a um grupo antes enfraquecido. Quando a gente escuta falar de PODER DE AÇÃO, traduzimos logo para “pessoas ricas” que podem mudar a realidade de “pessoas pobres”, ou o “governo” que pode conceder ao povo a devolução do seu investimento em impostos. Sim, é isso. E também pode ser nosso poder individual de ação no prédio, na rua, se juntando com a vizinha para ser parceira.

PODER DE AÇÃO é de qualquer um que tenha consciência da realidade social e coragem para agir e modificar o que é necessário. Um desses exemplos é a ONG PLANO DE MENINA, no qual a publicitária Viviane Duarte (também colunista da Marie Claire) promove um trabalho sério em bairros da periferia de São Paulo, trazendo cidadania, dignidade, autoestima e consciência de trabalho para meninas que, por nascerem naquelas realidades, estavam, antes, condenadas a reproduzir um padrão familiar: engravidar cedo, parar de estudar e jamais progredir. PLANO DE MENINA realiza um trabalho que tem como objetivo mudar um “padrão secular”. Isto é: agir com CORAGEM, utilizando-se de “lugar de fala” e “poder de ação”.

Viviane Duarte nasceu num bairro de periferia, conseguiu quebrar o padrão a que estava condenada e, assim, conquistou um lugar de fala no mundo de “VOZ ÚNICA”, mas não ficou “descansando” em cima da sua conquista. Ela organizou seu lugar de fala, o transformou em poder de ação e em três anos de trabalho vem conquistando números expressivos como resultado.

Para honra minha, fui convidada para ser uma das Madrinhas da ONG PLANO DE MENINA e aceitei prontamente! Primeiro porque só acredito em independência feminina se ela for tanto financeira quanto emocional, dando a cada uma de nós o direito de escolher que vida viver (e as atividades da ONG propõe justamente isso: tirar as meninas da realidade da invisibilidade para a realidade em que são visíveis e articuladas, para então escolherem seus futuros). E, segundo, porque é importante que eu tenha a capacidade de AGIR, somada a minha capacidade de refletir e escrever. Pois bem, topei e topei com toda entrega ser madrinha do PLANO DE MENINA e já estou estudando possibilidades de contribuir de fato para alocação delas no mercado de trabalho. Caso uma de vocês queiram conhecer mais sobre este belo trabalho e ajudar, aí vai: www.planodemenina.com.br

Outra ação que tive a oportunidade de participar foi o lançamento do edital audiovisual do Ministério da Cultura que, pela primeira vez, dividiu o prêmio de roteiro com coragem. Separou categorias que precisamos muito: roteiro de mulheres – negras, brancas e índias. Escolhas políticas à parte, foi necessário muita coragem para que o ministro Sergio Sá Leitão e sua equipe tocasse nessa ferida e assumisse que SIM, as mulheres – TODAS ELAS – precisam do PODER DE AÇÃO do MINC para que tenham suas VOZES nas produções audiovisuais, trazendo assim a diversidade de realidades que precisamos para, um dia, sermos uma sociedade mais justa. A cerimônia de lançamento foi emocionante. Agradeço muito ao ministro e a sua equipe que me deixaram livre para fazer o discurso que eu desejasse e, sim: utilizei meu LUGAR DE FALA.

No mesmo dia do lançamento do edital do MINC voei de Brasília à SP para apresentar a palestra/experiência DONA DE SI na agencia EDELMAN e, mais uma vez, tive a oportunidade de exercitar o meu LUGAR DE FALA FEMININO para causar reflexão em outras sessenta mulheres. Foi lindo! Mulheres inteligentíssimas, reais, com o coração completamente aberto para serem tocadas pela palestra, o que resultou numa modificação interessante de postura individual ao final do trabalho. Foi leve, divertido e aconchegante. Como todas nós gostamos. Obrigada pela escuta, meninas!

Outra ação que terei a possibilidade de participar será do Encontro de mulheres de negócios da REDE MULHER EMPREENDEDORA, onde fui convidada pela presidente ANA FONTES para apresentar a palestra/experiência DONA DE SI. É mais uma possibilidade de utilizar meu lugar de fala para tentar atingir as consciências da audiência e, aos poucos, ir promovendo e cooperando com o crescimento daquilo que acredito com todas as minhas forças: o nosso potencial profissional.

Suzana Pires e Ana Fontes / Foto: Arquivo pessoal

Estranho eu ficar aqui dando exemplos de ações minhas? Poderia ser se eu não tivesse o objetivo de AGRADECER. Não, meu objetivo não é contar tudo que estou fazendo (uiuiui), mas, sim, dizer: MUITO OBRIGADA à Marie Claire e toda sua equipe de profissionais fantásticas! Laura, Dri, Cris, Paula e a mãe da DONA DE SI: Marina (que foi ali para o jornal O Globo, mas que será nossa para sempre! rs) Essas mulheres me convidaram, insistiram, aguardaram, insistiram de novo para que eu assumisse este espaço e me deram LIBERDADE para FALAR! OBRIGADA.

E queria também AGRADECER e MUITO a vocês, leitoras, que transformaram a DONA DE SI, rapidamente, em algo relevante para suas vidas profissionais e também para a minha vida. Se eu estiver no caminho certo de cooperar para a nossa VOZ, que eu tenha tocado cada uma de vocês para agirem também. Que cada uma de nós descubramos nosso LUGAR DE FALA e PODER DE AÇÃO e façamos disso um instrumento para que tenhamos cada vez mais oportunidades de crescer.

UMA DONA DE SI é EMPREENDEDORA DE SI MESMA e também AGENTE MODIFICADORA da realidade ao seu redor. Avante, meninas!

Estamos juntas!
Sororidade sempre
Suzi Pires

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