Escola sem partido: método para perpetuar o genocídio das populações negras e pobres

Autor: Texto: Juarez Xavier Data da postagem: 14:00 31/07/2016 Visualizacões: 2279
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Imagem: Vinicius Martins

O Coordenador do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão da Unesp faz uma análise sobre as finalidades do projeto Escola Sem Partido em relação às populações negras e marginalizadas no país

O projeto da Escola Sem Partido é a tentativa de perpetuar o processo de articulação de um aparelho ideológico, cujo objetivo é promover a ocultação do etnocídio e genocídio das populações não brancas no país.

Nesses últimos 500 anos, as classes dominantes construíram a mais perfeita máquina de destruição de corpos não normatizados, o estado brasileiro. Ele promoveu a destruição de grupos nativos, africanos, o estupro coletivo de mulheres negras e indígenas [deu origem à cultura do estupro-, o sequestro do futuro da juventude] com o massacre contínuo e ininterrupto- e o desenvolvimento do racismo de classe, que condena o pobre a uma condição de descartabilidade humana. O massacre de Canudos foi o ápice modelar dessa prática genocida e de higienização social: racismo, preconceito, discriminação, estupro, barbárie em nome do progresso social.

Para ocultar o dispositivo da violência, arquitetou-se o sofisticado aparelho ideológico de justificação do destroçamento desses corpos. A escola –[o sistema escolar] foi o epicentro dessa máquina de simulacros. As escolas jesuíticas ensinaram que o branco estava no topo do processo civilizatório. A legitimação da sua pedagogia [da violência e da pancada] justifica-se nos textos sagrados da bíblia. As faculdades [a de medicina, a partir de 1808, e a de direito, a partir de 1827] adestraram todas e todos na lógica do racismo científico, base da construção dos capitais econômico, cultural, social e político, que congelaram o negro, mas condições mais adjetas na sociedade.

A violência foi o método [o estado promotor do genocídio] o etnocídio, [a desarticulação dos universos negros] o objetivo. A resistência negra deu-se com a construção de novas narrativas. Fora da academia – instituição das rodas sagradas no universo negro: candomblé, capoeira e samba. E dentro da universidade [pesquisas sobre a negritude, a branquitude, o genocídio de mulheres, jovens e crianças negras, a identidade, as artes, as ciências], a jovem e ativa intelectualidade negra varreu todas as áreas e temas de interesses da população, e reescreveu em parte sua história.

O movimento é antigo, mas tomou impulso com a adoção das políticas públicas reivindicadas pelas populações negras, desde o fim da ditadura militar-civil. Propostas articuladas no processo constituinte [como a da criminalização da prática do racismo], na formação dos conselhos da população negra em governos democráticos [que divulgaram dados macroambientais sobre o racismo, importantes para a elaboração das políticas públicas], nos fóruns internacionais [Organização das Nações Unidas e Anistia Internacional] e na formulação de políticas inclusivas, como as cotas raciais nas universidades públicas.

O projeto Escola Sem Partido visa paralisar essa espiral ascendente, que contribui para desanuviar a “opacidade da dominação” racista no país. A universidade deve ser o espaço heterotópico e disruptivo da criação e invenção científica, cultural e tecnológica: espaços de abrigo dos contraditórios, dos enfrentamentos de pontos de vistas distintos e da renovação conceitual.

Por essa via e caminho, a intelectualidade negra desmantelou o “mito da democracia racial”. É por essa vereda que desmantelará o “mito moderno da meritocracia” [não existe mérito em sociedades desiguais; existem privilégios], justificativa maior das desvantagens da população negra, em relação às demais. A radicalidade necessária para a reumanização das populações negras implica o rechaço do projeto Escola Sem Partido!

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