Coisa de Preto: Ciência e Tecnologia

Autor: Jay Viegas Data da postagem: 18:30 20/03/2017 Visualizacões: 115
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Coisa de Preto: Ciência e Tecnologia / Imagem: Vai da Pé

A presença de negras e negros no universo da ciência e tecnologia não é nenhuma novidade, mas se tornou uma forma de resistência ao apagamento de nossa história.

Quando estamos na escola, pouco paramos para pensar sobre quem elaborou aquela fo?rmula, texto ou diagrama chato que precisamos memorizar para a prova. Afinal, temos outras preocupac?o?es, desde coisas bobas como pelos estranhos nascendo em lugares ainda mais estranhos, ate? questo?es mais profundas tipo: quem somos no mundo, o que queremos fazer da vida e todo o processo de formac?a?o da nossa identidade individual e coletiva.

Essas coisas todas e a fo?rmula chata de qui?mica inicialmente na?o parecem fazer parte do mesmo processo histo?rico, final na?o estamos acostumados a relacionar aquilo que aprendemos em uma aula de biologia sobre a evoluc?a?o do homo-sapiens com uma aula de histo?ria sobre a revoluc?a?o industrial, muito menos com uma aula de matema?tica sobre o sistema decimal.

Qual a relac?a?o entre isso e o fato de que, em 2015, apenas 26% dos bolsistas da CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnolo?gico) se autodeclararam pretos ou pardos?

A relac?a?o entre essas coisas? Nenhuma delas teria sido possi?vel sem as contribuic?o?es – por vezes forc?ada – do continente africano e do povo negro.

A A?frica e? considerada por cientistas e historiadores o berc?o da civilizac?a?o humana. O Egito Antigo, apesar de nos filmes aparecer como uma terra habitada por reis e rainhas de pele branca, era negro. La? ocorreram alguns dos maiores avanc?os da tecnologia humana, desde grandes feitos em engenharia e astronomia, ate? a produc?a?o de tecidos e o desenvolvimento da matema?tica. Ainda assim, o pensamento científico moderno apoia-se em obras de autores que ignoram completamente o papel do povo negro na construc?a?o dos saberes.

Nas poucas vezes em que a A?frica e a cultura negra aparecem no curri?culo escolar, e? ensinada a histo?ria de um continente que so? se tornou relevante a partir do momento em que foi colonizado pelos europeus, como se o negro praticamente na?o existisse antes de se tornar propriedade do branco.

Qual a relac?a?o entre isso e o fato de que, em 2015, apenas 26% dos bolsistas da CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnolo?gico) se autodeclararam pretos ou pardos?

Carlos Eduardo Machado e? bacharel licenciado e mestre em histo?ria pela USP, e autor do livro “Cie?ncia, Tecnologia e Inovac?a?o Africana e Afro- descendente”. Ele aponta que “uma das primeiras grandes estrate?gias de dominac?a?o, que fez com que o continente europeu, um dos menores do mundo, se tornasse uma pote?ncia mundial, foi a escravizac?a?o. E nesse processo de exi?lio forc?ado, para voce? destruir uma pessoa, na?o basta o uso de armas, chicotes e correntes. Tambe?m sa?o necessa?rias armas psicolo?gicas. Afastar uma pessoa da sua fami?lia, vilarejo e batiza?-la com um novo nome cato?lico e europeu e? uma viole?ncia fi?sica, cultural, simbo?lica e psicolo?gica muito grande contra nossa gente.”

O racismo na construção do pensamento científico

“O negro representa o homem natural, selvagem e indoma?vel. (…) Neles, nada evoca a ide?ia de cara?ter humano. (…) Com isso, deixamos a A?frica. Na?o vamos aborda?-la posteriormente, pois ela na?o faz parte da histo?ria mundial; na?o tem nenhum movimento ou desenvolvimento para mostrar.

– Friedrich Hegel, filo?sofo alema?o do final do se?culo 18, considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da histo?ria. Trecho extrai?do de “a Filosofia a da histo?ria” (1837)

“Os negros da A?frica na?o possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridi?culo. (…) Na?o se encontrou um u?nico sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na cie?ncia, ou em qualquer outra aptida?o; ja? entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, sai?dos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo presti?gio, por forc?a de dons excelentes..”

– Immanuel Kant, Filo?sofo prussiano considerado um dos principais da era moderna. Trecho extrai?do de “Observac?o?es Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime”(1764)

O processo de descaracterizac?a?o do negro a partir do apagamento de sua identidade cultural foi uma estrate?gia consciente de dominac?a?o, com conseque?ncias que ainda hoje esta?o enraizadas no imagina?rio individual e coletivo da populac?a?o. final, para transformar pessoas em mercadoria, e? necessa?rio algum tipo de justificativa, moral ou cientifica, que apague a noc?a?o de que quem e? explorado e? igualmente humano – e? necessa?rio dissolver a possibilidade de qualquer tipo de relac?a?o de empatia com o pro?ximo.

“Uma das coisas que falavam pra no?s, e que muitos de no?s ao longo desses se?culos absorvemos, e? que o povo negro e? feio, e? sujo, criminoso, na?o e? inteligente. Aprendemos que na?o temos histo?ria, que nada que vem da gente e? bom, que so? o que interessa e? nossa forc?a fi?sica. E, no caso das mulheres, servir tambe?m na cama desses homens brancos escravizadores”, diz Carlos.

A construc?a?o de uma narrativa histo?rica que coloca o negro sempre como inferior, tambe?m afeta profundamente a forma como somos percebidos em lugares que destoam daqueles determinados pela branquitude. As poucas representac?o?es da populac?a?o negra – para ale?m das pa?ginas policiais – costumam ser restritas aos cadernos de esporte ou cultura. Mas quantas vezes vemos um especialista negro comentando o panorama econo?mico brasileiro, ou falando sobre algum novo avanc?o na cie?ncia? Preto e? danc?a, e? mu?sica, e? arte, e? habilidade esportiva, mas ta? bem longe de ser so? isso. Preto tambe?m e? cie?ncia, engenharia e computac?a?o. E, atualmente, as profisso?es ligadas a essas a?reas sa?o as que mais crescem no mundo.

“Os professores criam uma série de expectativas para as mulheres negras, e essas expectativas não incluem ter uma carreira bem sucedida em áreas relacionadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática”

Ba?rbara Paes, 23 anos, e? uma das fundadoras do projeto Minas Programam, que procura incentivar a autonomia de mulheres nas a?reas de computac?a?o e tecnologia. “Hoje em dia, pro fisso?es relacionadas a esse universo existem num espac?o de muito poder econo?mico, dentro do sistema capitalista. Enta?o, a gente precisa entender que a exclusa?o das pessoas negras desse espac?o e? mais uma forma de limitar as nossas possibilidades dentro do sistema”, conta.

Para ela, e? preciso incluir as mulheres para desenvolver soluc?o?es verdadeiramente democra?ticas. “Ale?m de ser um ambiente muito masculino, a tecnologia tambe?m e? uma a?rea predominantemente branca.” Ba?rbara aponta o fato de que a pouca expressividade no nu?mero de pretas e pretos nesse universo e? rflexo das desigualdades estabelecidas pela estrutura racista da sociedade brasileira.

Mesmo quando ultrapassados os obsta?culos que impedem o acesso ao ensino superior, muitas outras pedras atrapalham o caminho para carreiras de sucesso em a?reas historicamente ocupadas por homens brancos e de classes abastadas.

A escassa oferta de bolsas e subsi?dios que auxiliem a permane?ncia estudantil e? outro obsta?culo para que o povo preto se mantenha dentro das universidades. “Essa se?rie de ataques ao intelecto negro afasta ainda mais, desde a perspectiva de entrar numa universidade, ate? a possibilidade de trabalhar com tecnologia”, afirma.

Ao alcanc?ar o mercado de trabalho, mais barreiras. Ba?rbara comenta que a troca de experie?ncias proporcionada pelo projeto a ajudou a perceber que suas vive?ncias na?o eram casos isolados. “Muitas mulheres negras que trabalham em diferentes a?reas da tecnologia compartilham relatos e situac?o?es muito semelhantes no ambiente de trabalho, que va?o desde a exclusa?o na convive?ncia com os demais colegas brancos, ate? a percepc?a?o de que recebiam sala?rios inferiores aos de pessoas que realizam as mesmas func?o?es.”
“Muitas empresas fazem eventos pontuais de inclusa?o racial, uma semana ali ou aqui. Mas e? necessa?rio que se tenha um compromisso se?rio de contratac?a?o de pessoas negras, atrave?s de uma reestruturac?a?o dos recursos humanos.”

Buh D’ Angelo e? uma das criadoras do projeto InfoPreta que, desde 2013, promove servic?os de manutenc?a?o, informa?tica, oficinas e cursos de tecnologia da informac?a?o por e para mulheres negras. Com apenas 22 anos, ja? e? formada em eletro?nica, automac?a?o industrial, manutenc?a?o, tecnologia da informac?a?o e robo?tica. Perguntada sobre o que a inspirou a irradiante com a iniciativa, ela afirma que: “Ao invés de eu ficar esperando me darem espaço eu resolvi criar o meu. Foi a forma que eu encontrei para me sentir incluída e incluir outras mulheres na tecnologia e nesses meios.”

A criac?a?o de iniciativas auto?nomas e? apontada por Buh como uma das ferramentas que podem combater reac?o?es de desconfianc?a e estranhamento que afirma ja? ter recebido de clientes, em especial homens brancos, “A gente faz essa mudanc?a e quebra o padra?o, mostra que preto na?o e? so? bandido, que na?o e? so? coisa errada”.

“Ao invés de eu ficar esperando me darem espaço eu resolvi criar o meu. Foi a forma que eu encontrei para me sentir incluída e incluir outras mulheres na tecnologia e nesses meios.”

Em um pai?s em que o assassinato de jovens negros e? praticamente uma poli?tica de estado, muitos na?o tem a oportunidade de aprimorar e exibir seus talentos. “Saber e? poder” e romper com a lo?gica colonizadora e euroce?ntrica da produc?a?o dos saberes e? uma tarefa indispensa?vel para o avanc?o em direc?a?o a uma sociedade mais justa e igualita?ria.

A presenc?a de Ba?rbara, Buh e Carlos em ambientes de produc?a?o cienti?fica e tecnolo?gica ainda e? excec?a?o. Na?o deveria. Nossa simples existe?ncia nestes espac?os e? uma afronta a um sistema construi?do ao longo de 400 anos, para objetificar e desumanizar corpos e mentes negras. E e? por isso mesmo que vamos ficar. A tecnologia e a cie?ncia sempre foram coisa de preto. A questa?o agora e? reconquistar aquilo que nos foi negado, roubado, renomeado e apagado.

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