
CLASSIFICAÇÃO
RACIAL: ROMPENDO O SILÊNCIO
Por: Mário
Mestre em Ciências Sociais pela PUC/São Paulo[1]
Pesquisador em Políticas Públicas do CEERT[2]
Neste momento em que a temática das relações raciais tem sido discutida, tanto na mídia, quanto no interior da comunidade acadêmica, cabe uma reflexão sobre a importância da classificação racial para a implementação de políticas de promoção da igualdade racial.
A classificação racial existe oficialmente há mais de 136 anos, data do primeiro censo nacional. A rigor, trata-se de fenômeno presente desde a chegada dos europeus: a técnica de classificação racial por meio do critério fenotípico foi a chave que permitiu à figura do escravo ser associada a uma determinada cor.
A inclusão do quesito cor em cadastros de pessoas, empregados, servidores e usuários de serviços públicos tem sido desigual e desorganizada, pois, se de um lado despertou o interesse dos órgãos de segurança pública, por outro, não chamou a atenção dos gestores das áreas de saúde, educação e trabalho, por exemplo.
Quais razões teriam
levado o Estado brasileiro a incluir, ou omitir, a informação sobre cor em
determinados cadastros?
É
importante ressaltar que a inclusão do quesito cor nos cadastros públicos tem
sido ambígua, não aparecendo em cadastros, nos quais a informação sobre cor
poderia colocar em xeque o discurso da democracia racial.
A ausência
desse dado confere uma neutralidade aos diagnósticos, como se mulheres e negros
experimentassem as condições de trabalho, saúde e educação de maneira
similar. E não é esta realidade que as investigações realizadas pelos
principais órgãos de pesquisas brasileiros revelam quando focalizam as relações
raciais.
Neste
contexto, a introdução do quesito cor nos cadastros públicos e privados
merece destaque. Democratizar essa
informação implica tocar numa ferida exposta, revelando as minúcias da condição
de ser negro e ser branco no Brasil, no passado e certamente também no futuro.
Se o Estado ainda hesita em instituir uma política nacional voltada para
a classificação, a sociedade civil, o Movimento Negro e sobretudo ONG’s como
o CEERT, produzem conhecimento, orientam experiências, difundem informação,
disponibilizam técnicas e métodos aproveitados, inclusive, pelo setor privado.
Experiências de
introdução do quesito cor realizadas pelo CEERT possibilitaram estudar e
analisar, em profundidade, as características, os desafios e problemas dos
processos contemporâneos de introdução da informação sobre cor, métodos e
técnicas empregados, o envolvimento da comunidade, a consistência dos bancos
de dados, as análises possíveis, os subsídios para o desenho de políticas públicas
e a disseminação dos resultados.
Entre
as experiências de introdução do quesito cor realizadas pelo CEERT, destaco
as parcerias com as prefeituras dos municípios de Belo Horizonte, Recife, São
Paulo, Campinas, Jundiaí, entre outros. Como
exemplo de classificação racial no setor privado, saliento o trabalho
coordenado pela organização, em maio de 2007, junto
à Federação Brasileira de Bancos – FEBRABAN, com
o intuito de estabelecer as bases para o desenvolvimento de um programa nacional
de valorização da diversidade.
A política de valorização da diversidade é definida como um conjunto de medidas que visam promover a inclusão e a igualdade de oportunidades e de tratamento aos membros de grupos discriminados em função da cor, raça, etnia, origem, sexo, deficiências, idade, religião e orientação sexual, cujo principal objetivo é garantir o desenvolvimento sustentável das corporações.
As profundas transformações pelas quais o Brasil passou nos últimos anos, em termos de reconhecer a gravidade do racismo e adotar fórmulas práticas para sua superação, recolocaram na agenda do Movimento Negro, como também na da própria academia, o complexo, intrigante e desafiador tema da classificação racial.