Identidade, Resistência e Educação Escolar Quilombola

Vanderlucia Cutrim de Sousa - Unidade de Ensino Fundamental Catucá - Bacabal - MA

Identidade, Resistência e Educação Escolar Quilombola Por: Juliana de Souza Mavoungou Yade e Shirley Santos

“Eu sinto, eu danço o outro, eu sou”
(Léopold Sédar Senghor)

A frase de Senghor sintetiza valores essenciais da cosmovisão africana, e estes se tornaram elementos de reconexão com a identidade no Quilombo do Catucá. Aprendendo da tradição com os mais velhos, as novas gerações se conectaram consigo mesmas, com sua beleza e sua ancestralidade.

As aprendizagens se deram por meio de músicas, da culinária afro-brasileira, dos contos e histórias, da pesquisa de palavras de origem africana, das rodas de conversa, das ilustrações sobre os Orixás e palestras. Momentos que contribuíram para o conhecimento e valorização da cultura e religiosidade e resultaram na confecção de um livro pelos (as) alunos (as) sobre a história do quilombo.

A problemática que movimentou o projeto “Identidade e Educação Quilombola” surgiu de uma observação da gestão junto com os (as) docentes de que as crianças nascidas e criadas no quilombo não conheciam e tampouco se identificavam com a cultura local.

O desafio foi grande, pois, além de lidar com as questões observadas entre as crianças, se percebeu que entre os (as) docentes havia uma resistência para tratar da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana prevista na Lei nº 10.639/03 e tão presente no cotidiano do Quilombo Catucá. Diante dessa situação, foi realizada uma reunião com a comunidade, pois era inadmissível que a religiosidade presente no quilombo - a Umbanda - estivesse fora das aprendizagens. A comunidade tomou conhecimento da ideia do projeto que teria como ponto de partida a valorização da história local a partir da cultura e religiosidade.

A parceria foi aceita!

A comunidade colaborou com seus saberes, se dispôs a fazer confecções de indumentárias para as festividades, penteados e tranças e os membros tornaram-se monitores e vigias nos eventos e apresentações. Aos mais velhos, coube ensinar às crianças músicas, danças, toadas, como fazer brinquedos e brincadeiras de tempos antigos.

A culminância do projeto se deu com a “Manhã Cultural” com apresentações de Tambor de Crioula, Bumba meu Boi, Dança das Quebradeiras de Coco, Ladainha de Nossa Senhora da Conceição, atividades que trouxeram visibilidade ao grupo de Tambor de Crioula formado pelas crianças e para os “batezeiros ”. O projeto ultrapassou os muros da escola e se tornou conhecido no município de Bacabal - Maranhão.

O projeto “Identidade e Educação Quilombola”, que estava em desenvolvimento desde 2013, afetou profundamente a existência da comunidade de Catucá, tornando visível a potência da coletividade na vida de cada um (a) dos (as) moradores (as).

Comunidade, docentes e discentes colhem os frutos do projeto, pois com o fortalecimento identitário e com a elevação da autoestima houve melhora significativa no comportamento, na alfabetização, no letramento, no processo de ensino- aprendizagem como um todo .

A autoestima se revelou no corpo, através da valorização da estética negra e na reescrita da história local feita pelas crianças do Quilombo de Catucá.


1 - Intelectual, político, poeta africano (1906-2001). Senghor, aos 23 anos, foi o primeiro professor africano a ingressar numa universidade francesa e a se tornar presidente do Senegal (1960-1980).
2 - Professores evangélicos não ensinam cultura afro nas escolas. Disponível em: http://correionago.com.br/portal/professores-evangelicos-nao-ensinam-cultura-afro-nas-escolas/.
3 -Tocadores do Tambor de Crioula.
4 - A importância da autoestima da criança negra e suas implicações no processo de aprendizagem. Disponível em: http://editorarealize.com.br/revistas/fiped/.

Identidade e Educação Quilombola

Ficha da prática

Categoria: Escola - Unidade de Ensino Fundamental Quilombo do Catucá

Professor: Vanderlúcia, professora no Ensino Fundamental I – Educação Escolar Quilombola

Professores(as) envolvidos(as): Valdermocisliana Rodrigues Costa - Educação Infantil; Níveis I ao III Multisséries. Dulcivania Cutrim dos Santos - Ensino Fundamental; 1º ao 3º Ano Multisséries. Vanderlucia Cutrim de Sousa - Ensino Fundamental; 4º e 5º Anos. Multisséries.

Ano: 2015

Local: Na Unidade de Ensino Fundamental Catucá, em Bacabal interior do Maranhão. A região de Bacabal é quilombola e o Quilombo do Catucá se destaca por ser mantenedor de uma religiosidade de base africana.

Resumo

O projeto denominado Identidade e Educação Quilombola nasceu da observação do corpo docente desta unidade pela falta de conhecimento dos discentes sobre a história local, o que é um quilombo e o porquê essa denominação; a cultura e os conhecimentos deixados pelos antigos que deveriam ser repassados à geração de agora e à futura estavam se perdendo com o passar dos anos. Reunimos a comunidade e expusemos a ideia de que fosse trabalhado um projeto de conhecimento e resgate cultural e religioso, a começar pela história da comunidade, e de que precisávamos de parceiros que pudessem colaborar com seus saberes para que juntos escola, pais e comunidade pudéssemos despertar o alunado para a construção e a valorização de suas identidades.

Quando se programa qualquer evento, seja de caráter cultural ou comemorativo, a comunidade disponibiliza-se a nos ajudar nas confecções das indumentárias, nos penteados afros, que são feitos por mulheres da comunidade, os batezeiros são monitores, vigias e voluntários que acreditam no nosso trabalho e se oferecem para fazer parte; cantoras de Bumba meu Boi, Tambor de Crioula, todas são da comunidade e se doam ensinando as crianças a dançar e a cantar as toadas.

Através do projeto, foram implantados alguns grupos de danças compostos por jovens da comunidade e um grupo de dançarinas de Tambor de Crioula com alunas/os da escola. O projeto ultrapassou os muros da escola e hoje é conhecido por todos os pais, comunidade e município de Bacabal, pois os grupos são requisitados para apresentarem-se em outras escolas e na zona urbana. Trabalha-se em sala de aula vídeos, músicas, histórias, contos, arte e culinária afro-brasileira, que contribuíram no conhecimento e na valorização cultural e religiosa dos alunos e do quadro de professores.

Objetivos

Proporcionar aos alunos o estudo da história da comunidade, relacionando à África e aos africanos no contexto histórico, a luta dos negros, a cultura afro-brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, a contribuição do negro nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil nas aulas e oportunizar aos alunos/as o resgate da cultura local; danças, músicas e religiosidades para desmistificar o preconceito relativo aos costumes religiosos e alimentares provindos da cultura africana, bem como nas aulas de recreação, história e artes. Promover o combate à intolerância, ao preconceito e ao racismo através de novas experiências corporais e intelectuais, assegurando a formação cultural e humana do discente atendendo, assim, a Lei nº 10.639/03.

Metodologia

Pesquisar palavras de origens africanas em jornais e revistas; Exibição dos vídeos: Menina Bonita do Laço de Fita, A Bonequinha Preta, O cabelo de Lelê, Tambor de Crioula, Carimbó e Bumba meu Boi; Roda de conversa sobre os vídeos e a construção da própria identidade através de desenhos; Trabalhar a música "Olhos Coloridos" de Sandra de Sá, abordando os temas preconceito e diversidade; Trazer para a sala de aula ilustrações dos orixás e associá-los aos santos; Conhecer a culinária afro e associar à local; Participar dos ensaios das danças e das brincadeiras propostas; Participar das confecções dos brinquedos; Expressar a diferença entre 13 de maio e 20 de novembro; Valorizar a beleza dos alunos/as promovendo desfiles com indumentárias que retratem a religiosidade local e penteados que valorizem os diversos tipos de cabelos.

Principais atividades desenvolvidas

As atividades realizadas extraclasse com o projeto Identidade e Educação Quilombola foram: confecção de brinquedos antigos; resgate de brincadeiras antigas praticadas pelos membros da comunidade quando crianças; apresentação na zona urbana com os alunos cantando a ladainha de Nossa Senhora da Conceição em latim, valorização do cabelo afro com fotos tiradas dos penteados das alunas no dia a dia escolar; realização da manhã cultural, onde houve apresentação de Bumba meu Boi, Tambor de Crioula e Dança das Quebradeiras de Coco. Nas salas de aula, foram apresentados vídeos, músicas, danças, histórias de grandes guerreiros que lutaram para o fim da segregação racial. Foram confeccionados artesanatos de palhas, bandeirinhas, desenhos da identidade individual dos alunos, atividades de desenhos e pinturas relativos aos temas e coreografias de músicas para apresentação às mães.

Resultados alcançados

Avaliando juntamente com o corpo discente da escola, pode-se perceber a mudança no comportamento dos docentes, principalmente tratando-se de identidade e evolução da autoestima; darmos ênfase à valorização dos penteados e músicas voltadas para o tema fez com que os alunos deixassem de usar apelidos pejorativos e preconceituosos, tais como: juba de leão e cabelo de fuá, entre outros, favorecendo o respeito mútuo. Alguns se denominavam morenos, marrons e não assumiam suas identidades; depois da implantação do projeto e todo o trabalho feito ao longo desses três anos, hoje, quando perguntados a respeito da cor de sua pele, a resposta é unânime: Eu sou negro/a. Constatamos que estamos trilhando pelo caminho certo, pois acreditamos que essas crianças possam torna-se transformadores do meio em que vivemos.

"O principal objetivo da Educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que as outras gerações fizeram. ” (Jean Piaget)

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Fotos/Imagens acervo do Professor(a) Vanderlucia Cutrim de Sousa

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Shirley Santos Postado em 09/06/2017

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