Brincando conhecemos a África

Maria Fernanda Luiz - Escola Estadual Narciso da Silva César - Araraquara – São Paulo

Brincando conhecemos a África Por: Juliana de Souza Mavoungou Yade e Shirley Santos

“ Redescobrir seu lugar... Prá retornar E enfrentar o dia-dia, Reaprender a sonhar” (Brincar de Viver – 1983 - Guilherme Atantes e Jon Lucien)

É muito comum presenciarmos no ambiente escolar falas e atitudes que não colaboram com o processo de aprendizagem dos/as estudantes e professores/as. Dizemos estudantes e professores/as, porque partimos da premissa freireana que: educador e educando educam-se no processo de aprendizagem.

O ponto de partida da Professora Maria Fernanda para a elaboração e execução do Projeto “Brincando conhecemos a África” foi ao perceber que a desvalia associada às crianças, cultura e história negra, por parte dos docentes, atingia diretamente o modo como os/as estudantes se enxergavam e valorizavam ou não seu pertencimento identitário.

A construção da identidade negra é uma aprendizagem que se dá na relação com o outro, dessa forma, ela pode se constituir de forma positivada ou descaracterizada. Essa percepção conduziu a Professora à ação!

Contando com a ajuda de graduandos africanos de países do PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) das universidades (UNESP e UFSCAR) foram identificadas e realizadas brincadeiras, com as alunos e alunas do 3º e 4ºano, que as crianças de seus países costumam brincar. Os estudantes universitários africanos, foram entrevistados e depois realizaram as brincadeiras junto com os estudantes na escola, ou via filmagem.

As ações ainda resultaram em atividades coletivas como: escritas, reescritas e ilustrações de textos; produção do livro “Brincando Conhecemos a África”; apresentação de dança.

Dentre as ações de valorização, destacam-se a contação de histórias africanas; roda de músicas africanas; roda de danças africanas com a CIA Afro Rhytmos ; roda de curiosidades. Durante a contação da história “O Menino Nito ”, um aluno foi identificado como negro e inicialmente reagiu negativamente, posteriormente, numa atividade de teatro, pediu para ser o “Zumbi dos Palmares”. E assim a prática cotidiana proporcionou momentos cheios de riquezas que suscitaram aprendizagens e aproximação com o continente africano.

Crianças negras e não negras aprenderam e produziram sobre África e sobre africanidades brasileiras , caminho percorrido também pela comunidade escolar: pais, mães, agentes educacionais, a equipe escolar como um todo.

Brincando foi possível conhecer os países africanos e a África que habita em nós. Brincando foi possível mudar posturas e posicionamentos diante de si próprio e da vida . Brincando foi que crianças resgataram a autoestima e dignidade tão abaladas pelo racismo, preconceito e discriminação.

Foi na alegria e na leveza do brincar que crianças puderam ver quão valiosas são suas histórias, vindas do continente africano - resgatar o orgulho em si próprios.


1 - Brincar de Viver (1983) Guilherme Atantes e Jon Lucien.
2 - Identidade Negra, entre exclusão e liberdade. Disponível em: www.scielo.br/pdf/rieb/n63/0020-3874-rieb-63-0103.pdf
3 - O Projeto contou com a participação de estudantes de universitários africanos da Universidade Estadual Júlio Mesquita Filho (UNESP- Araraquara) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). São estudantes vindos de países falantes da língua portuguesa como: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissal, Moçambique e São Tomé e Príncipe e além de saciarem curiosidades advindas do universo infantil sobre seus países e continente, ensinaram brincadeiras e jogos cultivados entre as crianças de seus países.
4 - Criada em 2009, por alunos de Oficinas Culturais do município de Araraquara, a Cia Afro Rhytmos é grande difusora da dança africana e afrobrasileira. Participa e festivais de dança, facilita oficinas e faz apresentações em várias instituições públicas e privadas.
5 - O Menino Nito (1995) de Sônia Rosa.
6 - A construção da identidade da criança negra em meio as relações de racismo na escola. Disponível em: http://www.ceert.org.br/noticias/educacao/10955/construcao-da-identidade-da-crianca-negra-em-meio-as-relacoes-de-racismo-na-escola
7 - “A expressão africanidades brasileiras refere-se às raízes da cultura brasileira que têm origem africana. Dizendo de outra forma, queremos nos reportar ao modo de ser, de viver, de organizar suas lutas, próprio dos negros brasileiros e, de outro lado, às marcas da cultura africana que, independentemente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia-a-dia” (Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva).
8 - A professora Maria Fernanda relata que crianças que não gostavam de ser mencionadas como negras, ao longo do projeto mudaram de postura, desejando ser identificadas com personagens e heróis negros.

Brincando conhecemos a África

Ficha da prática

Categoria: Professor - Educação Básica

Professor: Maria Fernanda, professora no Ensino Fundamental I – Educação Básica

Professores(as) envolvidos(as): Maria Fernanda Luiz, Vera Mazzeu (PEB I), Juliana Leitão (arte),Wilson Telarolli (educação física),Cássia Vieira (professora coordenadora) e Maria Tereza Ganzarolli (diretora)

Ano: 2015

Local: Na Escola Estadual Narciso da Silva Cesar em Araraquara interior de São Paulo. Araraquara é uma cidade localizada no oeste paulista, uma região que recebeu o ciclo cafeeiro no século XVIII e demarcada por uma população negra antiga descendentes de ex-escravizados. A novidade do projeto foi apresentar para as crianças estudantes africanos (que fazem parte da nova diáspora) estes, ensinaram as crianças, brincadeiras que as motivaram conhecer países do continente africano.

Resumo

O projeto teve como objetivo a difundir e valorizar a cultura africana junto aos educandos dos anos iniciais do Ensino Fundamental. As atividades foram desenvolvidas com alunas (os) do 3º e 4º anos iniciais do Ensino Fundamental em nossa vivência enquanto docente de uma escola da Rede Estadual de Ensino de São Paulo no município de Araraquara. No projeto "Brincando conhecemos a Africa", buscamos trabalhar numa perspectiva de reconhecimento e valorização da História e Cultura africana e afro-brasileira. Foram convidadas (os) a participar estudantes africanos dos PALOPs (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) para que realizassem brincadeiras que as crianças de seus países costumam brincar com as(os) educandas(os) visados pelo projeto. Assim, a partir de um contexto de aprendizagem favorável ao ensino da língua escrita e oral, buscamos favorecer a escrita e a aproximação de textos instrucionais. Assim, a partir de um contexto de aprendizagem favorável ao ensino da língua escrita e oral, buscamos favorecer a escrita e a aproximação de textos instrucionais. O resultado foi um melhor conhecimento dessas práticas e a produção de novos textos instrucionais que comunicam mais adequadamente as regras das brincadeiras, permitindo assim que as (os) outras(os) ao lerem tal produção compreendam o que foi escrito e realizem de forma correta as brincadeiras em questão. Em outros momentos, contamos com a colaboração de profissionais de diferentes áreas que trouxeram informações acerca do povo negro. A relevância deste projeto para o campo da educação confirma-se pela possibilidade de inserção da História e Cultura africana e afro-brasileira nos anos iniciais do Ensino Fundamental, possibilitando a construção de uma imagem positiva das(os) negras(os) dentro e fora do espaço escolar, de maneira a valorizar as africanidades brasileiras.

Objetivos

Difundir e valorizar a Cultura africana aos educandos contemplando aspectos da Lei 10.639/03, de forma a apoiar o fortalecimento de identidades e pertencimentos étnico-raciais.

Metodologia

Através de uma metodologia pautada na oralidade buscamos desenvolver atividades que possibilitassem uma formação para respeito e valorização da cultura do outro.

Principais atividades desenvolvidas

Apresentação do Projeto. Leitura compartilhada pela professora e pelos alunos de diferentes textos instrucionais (regras de brincadeiras, de jogos, receitas, manuais). Contação de histórias africanas. Roda de conversa sobre os PALOPs. Hora do vídeo. Roda de músicas africanas. Roda de danças africanas com a CIA Afro Rhytmos. Roda de curiosidades: entrevistas com estudantes africanos de três PALOPs (Angola, Guiné-Bissau, Moçambique). Realização das brincadeiras africanas ensinadas pelos estudantes entrevistados. Produção oral com destino escrito (Atividade Coletiva). Elaboração de texto e dança para apresentação. Encerramento do projeto. Apresentação de peças com teatro de bonecos com o tema diversidade étnico-racial. Confecção de bonecas(os) pertencentes a diferentes etnias e bonecas Abayomi. Mediação de leitura e contaçäo de histórias africanas e afro-brasileiras; Arte africana e afro-brasileira. Revisão coletiva do texto (Atividade Coletiva). Produção escrita em duplas. Revisão de texto com foco nos aspectos discursivos (Atividade em dupla). Revisão de texto com foco nos aspectos notacionais (Atividade em dupla). Passar os textos instrucionais a limpo e ilustrar. Preparação do livro "Brincando Conhecemos a Africa". Entrega do livro e realização das brincadeiras. Avaliação do processo e autoavaliação (frequente). Oficinas com Fabiano Maranhão e Cia Afro Rhytmos. Roda de curiosidades: Entrevistas com estudantes africanos de dois dos PALOPs (Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Realização de brincadeiras africanas realizadas com as(os) estudantes entrevistados

Resultados alcançados

Pode-se perceber a diminuição nas ofensas e xingamentos entre as(os) alunas(os) como também pode-se perceber a mudança de postura de alunas(os) que não se percebiam enquanto negras(os) ou negavam pra que não fosse zombado pela turma. As(os) professoras(es) que pegaram a turma no ano seguinte apontava que a sala tinha uma discussão diferente de outras turmas acerca dessa temática.

“Brincando descubro quem sou, me reconheço e valorizo a história do povo negro! ”

Fotos/Imagens acervo do Professor(a) Maria Fernanda Luiz

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Shirley Santos Postado em 09/06/2017

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