Propostas Político-Pedagógicas como Aliadas na Construção da Diversidade Racial e Cultura de Paz

José Alves dos Santos Júnior - Escola Estadual de Ensino Fundamental Arlindo Bento de Morais - Santa Luzia – Paraíba - PB

Propostas Político-Pedagógicas como Aliadas na Construção da Diversidade Racial e Cultura de Paz Por: Juliana de Souza Mavoungou Yade e Shirley Santos

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. ” (Paulo Freire)

A prática “Sou Negro Sim! Construindo a identidade racial pela identidade, a partir da cultura de paz” primou pela transformação que a educação pode trazer, tanto no âmbito individual quanto no coletivo. A comunidade onde está situada a escola em que o projeto se desenvolve há 4 anos é reconhecida como comunidade quilombola urbana .

Com o objetivo de potencializar nos (nas) estudantes negros (as) e não negros (as) a consciência da importância e influência africana na sociedade brasileira, o projeto estimulou o respeito à diversidade, às religiosidades, o fortalecimento da autoestima e a valorização da origem com base na cultura de paz.

A interdisciplinaridade foi o carro-chefe das ações que foram planejadas em conjunto, docentes e coordenação pedagógica. Práticas exitosas, em sua maioria, contam com o comprometimento da gestão com a Educação para as Relações Étnico-Raciais .

As atividades levaram o grupo de estudantes à reflexão e a mudanças, de modo que pudessem lidar com as questões atinentes às relações étnico-raciais, parte de seu cotidiano, seja na escola ou na comunidade onde vivem. Foram realizadas palestras, aulas de campo no quilombo, atividades artísticas envolvendo música, dança e teatro, organização de mostras culturais, caminhadas reflexivas, mostras de documentários, culinária africana e a formação da banda afro, grupo de capoeira e grupo de percussão. Por meio da ação docente, os (as) estudantes e a comunidade puderam vivenciar a diversidade ao longo do ano letivo, através das diversas disciplinas com seus componentes curriculares. Citamos como exemplo as atividades de geometria africana desenvolvidas pela disciplina de Matemática.

Primar pela escola como potência de mudança social é consolidar espaços para a valorização dos conhecimentos que estiveram secularmente à margem do currículo e culminaram na desvalorização dos povos e das produções de conhecimento que estão além da europeidade.

A instituição escolar é o lugar do diálogo e colabora na formação de indivíduos que atuarão na sociedade. É fundamental que a escola esteja atenta e possibilite a reflexão a partir de demandas que surgem no escopo social. Com o triste desfecho de violência doméstica ocorrida com a líder da comunidade, as escolas da região juntam-se em marcha no dia 6 de outubro, que ficou instituído o Dia Municipal da Mulher Negra , em homenagem à líder quilombola Maria do Céu Ferreira da Silva.

A educação transformadora impactou a vida das crianças, dos (as) jovens e da comunidade. Mudou comportamentos e atitudes, reduziu a violência, aumentou o nível das aprendizagens e, quanto à Lei nº 10.639/03, esta se tornou uma realidade curricular que questiona e educa para as relações étnico-raciais na cidade de Santa Luzia na Paraíba.


1 - A Comunidade Urbana de Serra do Talhado é a segunda comunidade paraibana a ser reconhecida pelo Incra como descendente de quilombo. De tradição ceramista, a comunidade foi titulada no ano de 2011. Disponível em: http://www.incra.gov.br/pb-comunidade-de-serra-do-talhado-e-reconhecida-como-remanescente-de-quilombo.
2 - Educação das relações étnico-raciais e gestão educacional. Disponível em: http://www.anpae.org.br/simposio2011/cdrom2011/PDFs/trabalhosCompletos/comunicacoesRelatos/0480.pdf.
3 - 1,5 milhão de mulheres negras são vítimas de violência doméstica no Brasil. Disponível em: http://www.ceert.org.br/noticias/genero-mulher/8785/15-milhao-de-mulheres-negras-sao-vitimas-de-violencia-domestica-no-brasil.
4 - Para saber mais: http://www.tvsantaluzia.com/2015/10/caminhada-no-dia-municipal-da-mulher.html.

Sou Negro, sim! Construindo a identidade racial pela diversidade, a partir de uma Cultura de PAZ

Ficha da prática

Categoria: Escola - Educação Escolar Quilombola

Professor: José Alves, diretor de escola na Educação Escolar Quilombola

Ano: 2015

Local: Na Escola Estadual de Ensino Fundamental Arlindo Bento de Morais, em Santa Luzia- Paraíba. A localidade Serra do Talhado onde está situada a escola, foi reconhecida como comunidade quilombola urbana no ano de 2011.

Resumo

O projeto "Sou Negro, sim! Construindo a identidade racial pela diversidade, a partir de uma Cultura de PAZ" destaca-se por uma série de atividades pedagógicas que estimulam educadores e educandos ao desenvolvimento de uma prática reflexiva sobre a identidade racial numa escala global, nacional e local, com base nos conceitos da cultura de paz e não violência. A partir de uma proposta político-pedagógica que busca contribuir para o desenvolvimento pessoal e coletivo da comunidade escolar, as ações são direcionadas ao estímulo da diversidade e ao convívio pacifico e solidário.

Objetivos

Instrumentalizar os alunos com as ferramentas necessárias para que eles tenham consciência da importância e influência da cultura africana na sociedade atual, visando à construção de sua personalidade, seja como afrodescendente ou não, além de estimular o respeito à diversidade, a partir da valorização de sua origem, sua cultura, sua religiosidade e sua autoestima com base na cultura de paz e não violência.

Metodologia

Atividades que promovam a participação direta dos alunos nas reflexões e diálogos, na aplicação e interpretação dos textos, poemas, histórias afro-brasileiras, músicas, documentários, vídeos e filmes; Atividades que permitam ao aluno compreender sobre a diversidade afro-brasileira, com a organização de um encontro cultural (exposição e degustação de comidas de origem africana); Aulas de campo na comunidade quilombola do Talhado, rural e urbana, na cidade de Santa Luzia, com a finalidade de unir a teoria com a prática através das relações sociais, levando o aluno à compreensão do tema proposto; Metodologia Liga Pela Paz nas aulas do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental: nove personagens que traduzem valores como amizade, alegria, respeito ao idoso, amor, respeito ao meio ambiente e ao próximo, otimismo, liberdade, paz e solidariedade. A riqueza desses personagens auxilia as crianças a compreenderem suas emoções e a interagirem de forma mais harmoniosa com os colegas. Há encenações, danças, músicas e caminhadas reflexivas que aproximam mais os alunos, tornando-os mais empáticos, compartilhando saberes e emoções e despertando-os, também, para a valorização da sua história e a compreensão da relação com o outro.

Principais atividades desenvolvidas

Ressaltam-se atividades interdisciplinares como, por exemplo: palestras sobre temas inerentes aos objetivos do projeto, causando reflexões e envolvimento de toda a comunidade escolar; atividades de campo junto às comunidades quilombolas; construção de grupos culturais na escola através da música, da dança e do teatro; organização de mostras culturais; caminhadas reflexivas para sensibilizar a comunidade; aulas de educação emocional e cultura de paz e não violência, a partir da metodologia Liga Pela Paz.

Resultados alcançados

Como resultados do trabalho, destacam-se os seguintes pontos: envolvimento e integração da comunidade quilombola com a escola; aceitação e autovalorização dos alunos afro-brasileiros da sua origem racial; mudança de atitude do alunado com respeito e tolerância à diversidade racial na escola. Em termos práticos, elencamos outros resultados: implementação da Lei nº 10.639/03 nas atividades curriculares e prática pedagógica interdisciplinar, além da formação de banda afro, grupo de capoeira e banda de percussão. Por fim, os educadores perceberam, também, uma significativa mudança no comportamento de seus alunos, destacando a importância da educação emocional e social para a redução da violência e melhoria da aprendizagem e a eficácia da metodologia Liga Pela Paz na escola. Os alunos apresentam-se mais focados, calmos e participativos e interagem com amigos e adultos de forma mais alegre, comunicativa e respeitosa.

“Sou Negro, sim! Um trabalho prático de valorização da diversidade, da cultura afro e de educação para a paz. ”

Fotos/Imagens acervo do Professor(a) José Alves dos Santos Júnior

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Shirley Santos Postado em 09/06/2017

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