Nossos passos vêm de longe

Girleide da Silva Xavier - Escola Municipal Nossa Senhora de Fátima - Salvador - BA

Nossos passos vêm de longe Por: Juliana de Souza Mavoungou Yade e Shirley Santos

“Nossos passos vêm de longe”

Você sabe quais foram as mulheres negras que lideraram quilombos no Brasil? A prática pedagógica desenvolvida pela Professora Girleide resgata aspectos da contribuição das mulheres para a construção da identidade na comunidade quilombola da Ilha de Maré, em Salvador, tanto no passado como no presente.

Ao trazer à tona os saberes, práticas cotidianas, lendas e superstições locais, por meio das vozes das mulheres mais velhas da comunidade, essa prática colocou em destaque e valorizou tanto a identidade quilombola como a contribuição ancestral feminina, historicamente invisibilizada.

Afinal de contas, você já se perguntou por que os poucos nomes de líderes quilombolas que, geralmente, são ensinados nas escolas são apenas de figuras masculinas, tal como Zumbi dos Palmares? As mulheres negras não só resistiram durante o sistema escravista, como também ocuparam posições de protagonismo e lideraram quilombos .

Mas, além de terem protagonizado no passado, as mulheres negras continuam exercendo um papel de destaque na luta quilombola no contexto atual, seja nas associações comunitárias, nos empreendimentos econômicos etc., como ocorre na Ilha da Maré, onde são elas que realizam a principal atividade econômica da comunidade, a mariscagem .

Assim, em diálogo com o contexto comunitário, tal como as definições das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola , essa prática educativa buscou reconhecer o lugar social, cultural e político desempenhado pelas mulheres no processo de organização quilombola.

A partir de diferentes atividades e linguagens como entrevista, pesquisa sobre os costumes locais, trabalhos com argila e búzios, contação de história, roda de conversa, exibição de vídeos temáticos e desfile de beleza, foi edificado um repertório amplo acerca da ancestralidade africana e da identidade quilombola.

Como resultado da prática, ocorreu a reconstrução do Projeto Político Pedagógico da escola de acordo com as Diretrizes da Educação Escolar Quilombola, a adequação do currículo escolar com a temática quilombola, além da redefinição da missão da escola, salientando o foco na igualdade de gênero e raça do povo quilombola.

Por meio de projetos como o desenvolvido pela Professora Girleide, não questionamos apenas quantas vozes e saberes de mulheres negras foram silenciados ao longo da nossa história, mas quantos valores e princípios africanos e quilombolas foram semeados por meio da presença feminina para as/os estudantes de hoje.

Ou seja, a sociedade como um todo só tem a ganhar com o desenvolvimento de práticas pedagógicas como essa, que valorizam a diversidade de gênero, raça e os valores comunitários.


1 - No importante Quilombo dos Palmares (1595-1695), por exemplo, duas mulheres exerceram liderança, foram elas Aqualtune e Acotirene. O quilombo do Quariterê foi comandado pela Rainha Teresa (também conhecida como Teresa de Benguela) no século XVIII. As duas irmãs Francisca e Medicha Ferreira deram origem e lideraram o quilombo Conceição das Crioulas em Pernambuco no início do século XIX. Zacinda Gambá liderou um quilombo na Capitânia do Espírito Santo. Zeferina foi liderança no Quilombo do Urubu na Bahia no início do século XIX. Felipa Maria Aranha liderou um grande quilombo entre Grão-Pará e Tocantins. E Mãe Domingas esteve à frente do Quilombo Tapagem no Pará (SANTOS, 2012). Mais informações disponíveis em: http://www.afrika.org.br/publicacoes/somos-todas-rainha-1ed.pdf.
2 - A mariscagem é uma atividade de pesca artesanal de mariscos, realizada nos mangues costeiros.
3 - Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica (2012). Disponível em: http://www.seppir.gov.br/portal-antigo/arquivos-pdf/diretrizes-curriculares.

Nossa gente, nossa história

Ficha da prática

Categoria: Professor - Educação Escolar Quilombola para Abordagem de Gênero e Raça

Professores(as) envolvidos(as): Girleide da Silva Xavier e Carla Luciana Rodrigues

Ano: 2015

Local: Escola Municipal Nossa Senhora de Fátima, Salvador - BA

Resumo

Este projeto busca valorizar a cultura local quilombola, tendo esta como referencial para a compreensão histórica de seus antepassados e relacionando-a com o momento presente de seus moradores. Para isso, considera-se a unidade de ensino que se encontra em área remanescente de quilombo, onde se pretende trabalhar as questões relacionadas à diversidade cultural, visto que esta pode favorecer o educando na compreensão e aquisição de novos saberes a respeito na sociedade em que vive, procurando reafirmar sua identidade quilombola e de cidadão brasileiro.

Objetivos

Alicerçado nas Diretrizes Curriculares para a Educação Escolar Quilombola, este trabalho busca resgatar e refletir sobre a importância histórica da formação da comunidade quilombola, valorizar e promover a identidade e o respeito à herança de luta e os saberes da ancestralidade dos afrodescendentes, visando a igualdade e superação da violência e da discriminação de gênero e de raça.

Metodologia

Pesquisa de campo com entrevista das pessoas mais velhas, a fim de resgatar a identidade da escola quilombola e nortear as ações do projeto, pesquisas sobre o surgimento da nossa comunidade de Porto dos Cavalos, levantamentos de atividades desenvolvidas na comunidade de origem africana, festas locais, construção da história local pelas crianças (4° e 5° ano), registro local de lendas, atividades com argila e búzios, aula coletiva, construção de cartazes, exibição de vídeos temáticos, estudos em grupos e coletivo dentro e fora da sala de aula, palestra sobre sustentabilidade e culminância dia 20 de novembro.

Principais atividades desenvolvidas

Pesquisa de campo com entrevista com as pessoas mais velhas, com o objetivo de resgatar a identidade da escola e nortear as ações do projeto. Logo, pesquisamos sobre o surgimento da nossa comunidade de Porto dos Cavalos, levantamentos de atividades desenvolvidas na comunidade de origem africana, festas locais e registro local de lendas. Além disso, foram realizados trabalhos com os alunos como: recriar trajetos de percursos feitos por grupos africanos neste território, representação criativa da obra Flicts de Ziraldo (Artes em Cores), através da transposição da linguagem verbal para a não verbal, construção de canoas, bonecos de argila, ratoeiras (instrumento de pesca de caranguejo), criação de paródia com o tema Retratando a Ilha de Maré, painel da sustentabilidade, apresentando alternativas de pesca com linha; aula externa sobre a Revolta de Búzios (construção de uma pulseira de búzio para cada aluno) e exibição dos filmes O cabelo de Lelê (1° ano), Kiriku 1 e 2 (1°, 2° e 3° ano) e As Tranças de Bintou ¬- Educação Infantil.

A culminância foi no Dia da Consciência Negra, com apresentação da história local e de personalidades negras que marcaram a história brasileira e a história mundial com a riqueza do seu patrimônio cultural. Foi realizado um concurso para valorizar a beleza negra local. Nossas alunas se enfeitaram e fizemos um desfile de significativa importância e apreciação da comunidade, conforme algumas fotos que estão abaixo:

Resultados alcançados

Como resultados alcançados, tivemos a aprendizagem dos alunos, pois a maioria não sabia que pertencia a uma comunidade quilombola nem o significado disso e, em seguida, a continuidade e implementação das ações em 2014, reconstrução do Projeto Político Pedagógico norteado pelas Diretrizes Curriculares para a Educação Escolar Quilombola e adequação do currículo escolar de acordo com a temática quilombola, bem como também a redefinição da missão da escola, ou seja, de oferecer uma educação de qualidade contextualizada à especificidade da comunidade, valorizando aspectos históricos, socioculturais e de igualdade de gênero e de raça do povo quilombola.

"Revendo nossa trajetória, reafirmando nossa identidade."

Fotos/Imagens acervo do Professor(a) Girleide da Silva Xavier

Fórum

Você acabou de visitar uma boa experiência de um(a) professor(a) ou equipe gestora sobre Educar para a Igualdade Racial e de Gênero.

Avatar Shirley

Shirley Santos Postado em 09/06/2017

Deseja interagir com outros(as) educadores(as) sobre esta prática/experiência? Ou sobre a sua prática/experiência em sala de aula ou gestão?

Refletindo sobre a prática

8 - Relações interpessoais conflituosas entre: