Minha Comunidade Minha História

Clarice Morais Araújo - Unidade de Ensino Fundamental Godofredo Acrisio Ericeira - Bacabal - MA

Minha Comunidade Minha História – Passado e Presente na Reconstrução da Memória Por: Juliana de Souza Mavoungou Yade e Shirley Santos

“Meus irmãos e irmãs pretos, ninguém jamais saberá quem nós somos... até nós sabermos quem somos! Nunca seremos capazes de ir a qualquer lugar, se não soubermos onde estamos.” (Malcon X)

Foi através da memória dos (as) mais velhos (as) que foi possível perceber a potência existente no diálogo entre a história individual e a história coletiva; histórias que não estão fora, mas enraizadas na própria comunidade.

Foi através da memória dos (as) mais velhos (as) que as histórias do povoado Seco das Mulatas foram acessadas, mas para isso ocorreu uma junção dos conhecimentos adquiridos em sala de aula com os conhecimentos contidos na memória dos (as) mais velhos (as), integração que possibilitou o resgate identitário e da cultura local, além do fortalecimento da subjetividade quilombola na comunidade.

Atividades como a construção conjunta de um calendário sociocultural da comunidade, pesquisas, entrevistas com os anciãos e as anciãs e a construção de um mural em homenagem aos heróis negros da comunidade atuaram como um facilitador no processo de autoidentificação e ressignificação da data 13 de maio.

Dentre as atividades de destaque, foi realizada uma peça teatral que reconstruiu a história da origem do nome do lugar, a maioria não sabia por que a comunidade se chama Seco das Mulatas. Essa foi uma atividade que demandou grande esforço, pois no grupo de estudantes era comum a autodepreciação e a crença de que o termo quilombola poderia ser utilizado como um xingamento.

As mudanças ocorridas entre os (as) estudantes e comunidade, relativas à valorização de suas histórias e identidade, foram significativas e todos: comunidade, família e escola foram impactados positivamente por essa atividade. Aqueles (as) que por conta de dificuldades não conseguiram seguir os estudos no ensino médio na Sede , ao retornarem foram envolvidos no projeto e se tornaram liderança no grupo. Foram realizados debates, palestras, visitas a museus e lugares de expressividade da cultura afro-maranhense e rodas de conversa.

Com a autoimagem e identificação fortalecidas, foi possível a eleição da princesa e do casal quilombola, que participaram da quadrilha e do Boi , e foram confeccionadas bandeiras quilombolas para o desfile cívico. Nos festejos da padroeira, o coral da comunidade realizou apresentações de cantos e danças afros, além da participação nas novenas, ladainhas e procissões.

Ser quilombola se tornou motivo de orgulho!

É importante salientar que o diálogo que primava pelo processo de autorreconhecimento como quilombola perpassou por todas as instâncias locais, comunidade, igreja e escola. Foi dessa forma que o povoado como um todo passou a se perceber e a se questionar. Provocação que teve início a partir da ação docente , os (as) educadores (as) possibilitaram à escola ser um espaço que não tem um fim em si mesmo e que está para além das respostas prontas. A escola fomentou buscas e diálogos que ressignificaram as aprendizagens a partir do conhecimento escolar e do conhecimento produzido na comunidade.

Assim, como está posto na frase do líder negro estadunidense Malcon X, só foi possível ir além do povoado, se apresentar a outros municípios e universidades, quando a comunidade quilombola Seco das Mulatas se desvelou a si mesma, se apropriou de sua história e origem. E como disse Terezinha Araújo, educadora local: “Reviver a história da minha comunidade é recriar a minha própria história em breve passeio pelas mentes de meus antepassados”.


1 - No documento “Texto- referência para a elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola”, na página 32 diz que “A educação escolar quilombola é um lugar primordial para se organizar o currículo tendo com eixo uma constelação de saberes que circulam, dialogam e indagam a vida social” Disponível em: http://portal.mec.gov.br/component/docman/?task=doc_download&gid=9200&Itemid=.
2 - Cultura, identidade e subjetividade quilombola: uma leitura a partir da psicologia social. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822014000100012.
3 - Seco das Mulatas é uma comunidade centenária, que abriga na atualidade cerca de 100 famílias quilombolas que vivem da agricultura, quebra de coco babaçu e pesca. Baseado em relato oral, temos que o nome Seco das Mulatas se origina com a utilização do porto do rio Mearim por barqueiros no passado. No Verão, tem uma parte do rio que fica bem raso, o que obrigava os barqueiros que vinham da capital (São Luís) vendendo suas mercadorias para as comunidades situadas ao longo do rio descarregarem o barco e levarem suas mercadorias para outro ponto do rio, movimento que era acompanhado pelos olhares atentos de mulheres negras, as quais os barqueiros chamavam de mulatas. Antes de chegar ao porto, o dono do barco fazia o seguinte comentário: onde vamos dormir hoje? Os trabalhadores respondiam: lá no seco! E ele continuava: que seco? Os barqueiros diziam: lá onde tem aquelas mulatas! É assim que se origina o nome do povoado. Seco por que o rio seca e Mulatas pelas negras que ainda hoje se encontram por lá.
4 - Sede refere-se a um lugar distante, a 47km do povoado Seco das Mulatas, onde se tem possibilidade de dar seguimento aos estudos no Nível Médio, no entanto, muitas são as dificuldades encontradas que vão desde apoio financeiro para se manter distante até o envolvimento com álcool, gravidez precoce, o que leva os (as) estudantes à evasão escolar.
5 - A quadrilha é parte da cultura popular brasileira, dançada durante os festejos dos santos juninos (Santo Antônio, São João e São Pedro) e que evoca a vida e simplicidade do mundo rural.
6 - O boi maranhense é uma festividade tradicional que sofreu perseguição policial e foi proibida entre os anos de 1861 a 1868, pela grande participação de população negra na festa. Durante a década de 1960, para o boi sair às ruas era necessária autorização policial. O auto envolve personagens de origem africana (os escravizados Pai Francisco e Catirina), indígena (Pajé) e europeia (dono do boi).
7 - Um dos princípios da Educação Escolar Quilombola é “que os professores e professoras sejam quilombolas da própria comunidade, engajados na luta e pesquisadores da sua história”.

Minha comunidade minha história

Ficha da prática

Categoria: Escola - Educação Escolar Quilombola

Professor: Clarice, diretora de escola na Educação Escolar Quilombola

Professores(as) envolvidos(as): Clarice Morais Araujo (Diretora geral), Augusto Costa Silveira Neto, Auria Matos Andrade, Dalvina Silva de Sousa, Elissandra Fontenele da Silva, Franciane Pereira Lima, Maria Gorete dos Santos Aguiar, Marinalva Machado da Silva, Sidinalda Silva de Sousa e Terezinha Morais Araujo; Monitores do programa MAIS EDUCAÇÃO: Ianca de Kássia Oliveira Silva, Maylana Sousa da Silva, Leonardo da Conceição e Ricardo Pinheiro dos Santos

Ano: 2015

Local: Na Unidade de Ensino Fundamental Godofredo Acrisio Ericeira, no município de Bacabal- Maranhão. Bacabal é uma região que abriga alguns quilombos. A escola está situada dentro do Quilombo Seco das Mulatas e o projeto possibilitou a reconstrução da memória da comunidade através do contato dos (das) estudantes com os mais antigos do quilombo.

Resumo

A prática pedagógica exercida pela escola é recente, comparada aos demais quilombos da região, e consiste em promover uma junção dos conhecimentos curriculares adquiridos em sala de aula, com o resgate dos saberes que ainda estão escondidos na memória dos mais velhos, fazendo com que haja construção de novos conhecimentos sem perder a essência de quilombo.

Objetivos

Resgatar a cultura local, despertando o amor pelas coisas da comunidade e promovendo a evolução individual e coletiva de seus membros, assim como a participação da comunidade escolar em um trabalho de ação integrada, visando o conhecimento de suas raízes e colaborando com a construção de novos conhecimentos a partir dos valores tradicionais.

Metodologia

Motivados pelas informações oferecidas pela SEIVIED de Bacabal, os professores da escola desenvolveram ações de auto reconhecimento enquanto quilombo, inicialmente de forma interna em sala de aula e posteriormente com a comunidade. Realizados por etapas, os trabalhos com alunos como pesquisas, entrevistas, reuniões, conversas informais e eventos realizados pela escola e pela igreja para a comunidade, com apresentações de canto, coral, danças e jogos afros, promovem a integração entre os três pilares: Igreja, Escola e Comunidade.

Principais atividades desenvolvidas

Decoração e construção conjunta do calendário sociocultural da comunidade. No dia 13 de maio, pesquisa com os mais velhos e construção de mural em homenagem aos heróis negros da comunidade incentivando a auto identificação. A princesa e o casal quilombola foram representados na quadrilha e no Boi Renascer e foram confeccionadas bandeiras quilombolas para o desfile cívico. Festejos das padroeiras, com novenas, procissões, ladainhas e apresentações de cantos e danças afros realizados pelo coral da comunidade composto por alunos. Projeto MINHA COMUNIDADE MINHA HISTÓRIA, realização de uma peça teatral que reconstruiu a história da origem do nome do povoado com riqueza de detalhes, na sede do município em comemoração ao dia 20 de novembro, com a apresentação da peça em vídeo, desfile de trajes e acessórios, penteados, exposições, danças afros, palestras e visita ao Memorial da Balaiada, na cidade de Caxias - MA.

Resultados alcançados

A junção dos três pilares - Igreja, Escola e Comunidade - propiciou uma tomada de consciência de que somos quilombos e passamos a vivenciar esta realidade na igreja, na escola, enfim, no povoado que participa de todas as ações promovidas, onde há sempre algo que nos remete a essa identificação. Seja na decoração da escola, nos projetos de valorização da identidade, festas religiosas ou datas comemorativas pertencentes ao calendário sociocultural da comunidade que inclui festividades.

"Reviver a história da minha comunidade é recriar a minha própria história em breve passeio pelas mentes de meus antepassados." (Terezinha Morais Araujo)

Fotos/Imagens acervo do Professor(a) Clarice Morais Araújo

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Shirley Santos Postado em 09/06/2017

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